quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ou isto muda ou vai tudo para o inferno

Olhem para o segundo resgate grego e parem de encanar a perna à rã

Atenas. Foto: Diego Lopez
António Ribeiro Ferreira
Foi uma enorme maratona. Treze horas de reunião, compromissos bilaterais, provavelmente muitas ameaças pelo caminho, vozes alteradas, muita desconfiança no ar. Mas finalmente lá saiu fumo branco das chaminés do complexo europeu em Bruxelas. A Grécia vai ter direito a um segundo resgate superior a 130 mil milhões de euros e vê a sua dívida soberana reduzida graças a um perdão violentamente negociado com os credores privados. E, qual cereja em cima do bolo, a troika vai instalar-se em Atenas com uma equipa técnica reforçada para vigiar de perto o cumprimento do acordo aprovado ontem de madrugada no Eurogrupo.
As vestes rasgadas, as declarações indignadas das mais altas figuras do Estado grego, os desafios aos malditos alemães, a insanidade de muitas figurinhas que foram aos baús recuperar dívidas da Segunda Guerra Mundial e generosos perdões gregos não chegaram para comover os credores e quem vai dar uma última ajuda a Atenas nesta tragédia com vários actos, que acabará por certo num dramalhão digno da Velha Europa. Seja como for, este segundo resgate dá mais tempo à União Europeia para construir os contrafogos necessários e suficientes para evitar que o incêndio se propague a mais países da zona euro, com Portugal obviamente na primeira linha dos que têm de ser protegidos e regados com muita água benta alemã para não ficarem feitos em torresmos quando a Grécia estoirar.

É por isso que este aviso europeu devia ser muito bem entendido em Lisboa. Não por quem, como o PS, anda a tentar descolar do Memorando com a esperança vã de captar os votos dos muitos portugueses atingidos pela crise e pela austeridade. Mas pelo governo de centro-direita que quer ir além da troika em matéria de reformas estruturais. Se a redução do défice do Estado está a ser conseguida com cortes salariais na função pública e um controlo mais eficaz nas despesas dos serviços, em matéria de reformas estruturais o panorama é cada vez mais negro. A lei do arrendamento, por exemplo, pode morrer na praia, com o cherne, se os despejos não forem de facto rápidos. Se o processo for cair nos tribunais, nada será diferente e o mercado de arrendamento ficará ainda pior do que está. E isto porque a justiça, como se sabe, não se reforma por si própria e até agora nada foi feito para incomodar uma máquina parada no tempo, fora da realidade e ferozmente avessa às mudanças. Ainda por cima, como no caso do mapa judiciário, em que o governo pretende acabar com 47 tribunais, a ministra da Justiça teve a democrática e excelente ideia de ouvir todos os autarcas envolvidos. As respostas são previamente conhecidas e a iniciativa é obviamente uma enorme perda de tempo.
Se tudo for assim, é evidente que não há contrafogo que salve Portugal. O caminho da tragédia não se inverte com chuvas de milhões. Trilha-se com reformas radicais que reduzam o Estado, ponham na ordem os polvos públicos e privados e deixem a sociedade em paz. O tempo urge. E os avisos são muito claros. Se Portugal não mudar, vem alguém tomar conta disto ou mandam-nos para o inferno.
Título e Texto: António Ribeiro Ferreira, jornal “i”, 22-02-2012

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