domingo, 11 de novembro de 2018

[Pensando alto] Um dia de alumbramento esquizopático

Pedro Frederico Caldas

O ferrete gustativo a todos alumbra.
Advertência do adido cultural português para as Ilhas Pago-Pago

Como anunciei urbi et orbi, estive no Brasil durante o mês de agosto. Agora, três quilos depois, retorno a casa, inundada não pelo Harvey, mas por um mar de correspondência. Aqui, as coisas são muito práticas. Quando nos ausentamos, autorizamos o correio, através de uma papeleta assinada e entregue à administração do condomínio, a retenção da correspondência, indicando o período de ausência, razão por que estou frente a uma caixa repleta de cartas, revistas, jornais e papéis de toda ordem. Há que se colocar tudo em dia.

Por negócios a desincumbir, não sai da província de São Paulo, centrando-me principalmente no aristocrático bairro de Higienópolis e seus arredores. E lá, justamente lá, reside a inquestionável figura do meu querido amigo Oswaldo Salazar Caldeira Marques, em cuja casa reside o requinte da cozinha lusitana, para não falar na forma mais castiça dada ao idioma de Camões. Como de costume, foi-me oferecido um banquete de alumbrar os alumbrados. De logo advirto, como diria a poetisa adiante citada, no seu poema em homenagem às praias de Nazaré, as surpresas “sucederam-se sucessivamente”.

Desta feita, o formoso casal Gabi-Salazar advertira-nos (Nêga e eu, claro) que seríamos prebendados por um prato raríssimo, de soberbo requinte e de difícil execução, receitado na inencontrável Enciclopédia Lusitana das Iguarias Perdidas. E mais, estaria presente um diplomata lusitano, acreditado adido cultural plenipotenciário às Ilhas Pago-Pago.

Segundo Salazar, verdade mais tarde de todos sabida, esse adido, Dom António Almeirão Rodrigues de Magalhães e Açorda, descendia quase que em linha reta da histórica figura de Dom João VI. Tratava-se de homem cultíssimo e de linguajar quase extinto. Enquanto as pessoas comuns do povo usam, no dia-a-dia, cerca de duas mil das palavras mais correntes de qualquer língua, essa figura sem precedentes se compraz em falar um circunscrito vocabulário de não mais de mil e quinhentas palavras das mais raras e desusadas dentre as mais de quatrocentas mil da língua portuguesa. É homem de não se perder na patuleia ignara.

As surpresas não paravam por aí. O prato de resistência seria uma iguaria praticamente extinta, criada no início do século passado, de feitura quase impossível de se realizar nos dias que correm. Além disso, estaria também presente a amiga e grande chefe Anna Leonor Magarão que, juntamente comigo e Nêga, além do casal anfitrião, comporia uma espécie de degustadores opinativos. Mas, meus amigos, não nos apressemos que, lusitanamente vos digo, as surpresas só se devem suceder sucessivamente. Assim, não vamos queimar etapas e tudo começaremos como deve ser, pelo começo.

Estamos de novo Nêga e eu frente ao condomínio do casal Caldeira Marques, no Bairro de Higienópolis. E, mais uma vez, lá estava ele, a figura desconfiada, como se recomenda sempre seja, do porteiro cearense, que em outro texto denominei de São Pedro de condomínio, nascido nos rincões de minha comadre Naélia.

Pois bem, o diligente porteiro, já influenciado pelo linguajar salazarense, indaga: “A quem ides visitar e a quem devo anunciar?” Como vocês já sabem, uso sempre, como uma espécie de password para acessar Salazar, como uma espécie de linguagem criptografada, o nome de uma figura acima de qualquer suspeita. Desta feita, disse que iria ao solar dos Caldeira Marques e que meu nome era João Vaccari Neto, o mais honesto dos honestíssimos tesoureiros peteenses.

Terminada a comunicação entre Salazar e o nosso já conhecido e querido São Pedro retirante, nosso acesso foi autorizado.

Paro aqui para fazer uma pequena digressão, para não deixar de lado a mania de sair temporariamente da estrada e ir para o acostamento.

Ao assistir a confabulação entre o porteiro e Salazar, postado nove andares acima, lembrei-me que há coisas que para mim não se explicam. Meu filho mais velho, o André, bastante entendido em física, já tentou explicar, mas em minha cachola não entra, a mágica de uma pessoa estando, por exemplo, nos Estados Unidos poder falar simultaneamente com outra no Brasil, principalmente agora que as pessoas dialogam de forma baldia, perambulando pelas ruas com um aparelhinho de que não se desgrudam. Outro mistério insondável é como um avião, com cerca de duzentas pessoas a bordo, mais bagagem, meus três quilos de excesso, ganhos em um mês no Brasil, além do peso do próprio avião, consegue voar por oito horas, a 12 quilômetros de altura e a uma velocidade de oitocentos quilômetros por hora. Não me venham com nenhuma explicação que não aceito. Para mim, o troço tá seguro pela mão de Deus. Mistério mais insondável do que isso só as leis feitas no Brasil, a interpretação que lhes dá o Supremo e as pegadinhas jurídicas do Satânico Doutor Chinnot, misto de juiz e promotor.

Dito isso, voltemos ao leito confortável da gastronomia.

Alçados ao nono andar, lá estava a figura de Salazar, sempre com o sorriso de Buda Feliz e braços abertos de um redivivo Cristo Redentor.

Trocados beijos e abraços, sou introduzido à figura sem par do adido cultural plenipotenciário. Homem magro, baixinho, paletó preto de riscado, camisa de colarinho engomado e pontas arrebitadas, chapéu pequeno, cinza escuro. Ao seu lado, a expandida esposa, excedendo-o em volume e tamanho, dona Maria-João dos Guimarães Albamonte, de ilustre família luso-espanhola.

Feitas as apresentações, ouvi do apresentado frases que não consegui entender na integralidade. Era um vocabulário que jamais ouvira ou lera, mesmo rememorando as páginas dos clássicos dos clássicos da língua portuguesa. Quando lhe disse muito prazer, respondeu-me “agavidoso aspenáculo”. Olhei para Salazar, que me sussurrou, ele disse “igualmente”.

Em seguida, sorvida a primeira talagada de um porto envelhecido 20 anos, Salazar anunciou que a augusta senhora dona Maria-João, poetisa e membro imortal da Academia de Letras de Trás-os-Montes declamaria uma poesia de sua autoria em homenagem às praias de Nazaré. Dona Maria-João não se fez de rogada e declamou:

“Nas praias de Nazaré, as ondas se sucedem sucessivamente;
As primeiras trazem peixe; as outras, principalmente.”

Batemos as palmas protocolares e, em seguida, após alguns acepipes e ter entornado duas taças de um legítimo Juca Pato, num blend de uva trincadeira e touriga nacional, dona Maria-João passou a descrever a delicadeza da iguaria a ser servida. Tratava-se de ovos de gansos açorianos, injetados, por fina agulha, de uma dose de gordura de porco da Albufeira, diluído em fino cognac francês Luís XIII. Os ovos, então envolvidos em fina massa de açorda, eram enterrados por três meses nos locais mais frios da Serra da Estrela.
Trasladados ao Brasil com todo o cuidado, foram levados a banho maria numa mistura de água e azeite virgem português, de acidez abaixo de 0,5%. Após o banho maria de não mais de cinco minutos, as cascas foram removidas e os ovos, fritos em manteiga de vacas apascentadas em gramíneas dos Alpes Dináricos, em altitude mínima de mil e quinhentos metros.

Um doce aroma invadiu a casa e já não víamos a hora de ajustar o nosso plebeu paladar a tão régia iguaria, por todos ansiada.

O introspecto adido plenipotenciário assumiu a palavra e explicou: “Os alavardes serão auglutidos na lavardez altecúmenas”, que Salazar traduziu como “os ovos serão apreciados sobre camadas de açordas entumecidas em azeite”.

Regalamo-nos. Nunca houvera provado nada igual. Todos estávamos meio lívidos e em transe. Parecíamos Moisés ao descer do Monte Sinai, após conversar com Deus.

A grande chefe Anna Magarão anotava tudo discretamente num pequeno caderno. Ao depois, concluiu ser praticamente impossível, pelas dificuldades de todas as etapas de preparo e pelos elevados custos incorridos, reproduzir tão requintado prato, cuja tendência era se perder na poeira do tempo. Era manjar somente para príncipes, milionários japoneses, ou talvez, quem sabe, chineses.

Indagado o nome do prato, a augusta dona Maria-João dos Guimarães Albamonte esclareceu que a iguaria levava o nome do seu criador, o mais famoso chefe português do início do último século, por isso era conhecida como “Ovos Galados a Gastão Busseta”.

Um bom “alvidaro” para todos. 
Obs: Perguntem ao tradutor Salazar o significado de “esquizopático” e “alvidaro”.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 1-9-2017

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