sábado, 12 de outubro de 2019

Quem fala assim é de extrema-esquerda

No fundo, e à superfície, o Livre mistura os horrores do BE com as abominações do PAN, mantendo o ressentimento, o moralismo, o revisionismo, a vocação proibicionista e a natureza totalitária de ambos


Alberto Gonçalves

Houve quem achasse escandaloso que Joacine Katar Moreira festejasse a eleição para o parlamento junto à bandeira da Guiné. Eu achei ridículo, mas sou suspeito. Acho sempre ridículo que alguém exalte o país a cuja miséria fugiu em detrimento do país que lhe permitiu prosperar.

E sim, isso inclui aqueles portugueses e descendentes de portugueses que agitam o estandarte do Partido Republicano ou celebram o Bacalhau à Brás enquanto gozam dos níveis salariais da Suíça, dos EUA ou da Austrália. Suponho que muitos dos que assinam petições contra a dra. Joacine se comovem imenso com as manifestações de patriotismo dos nossos compatriotas emigrados. Não querendo ser picuinhas, a incoerência tira-lhes razão.

Aliás, as razões de certos críticos da dra. Joacine são tão absurdas quanto as razões dos simpatizantes da senhora. O êxito dela, segundo uma sondagem a candidata mais popular, fez-se sobre critérios totalmente alheios aos que deviam influenciar a escolha dos deputados. E foi a própria dra. Joacine a submeter esses critérios à avaliação do público, ativa ou passivamente.

No primeiro caso, a dra. Joacine declarou que as “legislativas” iriam medir a capacidade do eleitorado em aceitar uma mulher negra na Assembleia da República. Com o devido respeito, hã? A que título é que o eleitorado, que já “aceitou” em S. Bento resmas de mulheres brancas e dois ou três homens negros, não estaria preparado para uma mulher negra? A presunção tem graça. Por um lado, porque é mentira: a primeira deputada negra aconteceu ainda antes de 1974, chamava-se Sinclética Soares Santos e vinha de Angola (e a primeira deputada negra da democracia, Nilza Mouzinho de Sena, pertence ao PSD e chegou à AR em 2015). Por outro lado, porque a presunção é estúpida. Depois das quotas singulares, faltava-nos entrar na era das quotas combinadas: de futuro, convém reservar uns banquinhos no proverbial “hemiciclo” para transsexuais nórdicos, esquimós pernetas e anões que fazem bolinhas em cima dos “ii”. Ou para mulheres negras e gagas.

A dra. Joacine não precisou de explicitar o último critério. De resto, é justamente a incapacidade de o fazer que o torna evidente. Não existe maneira diferente de o dizer (ou existe, mas nunca mais saíamos daqui): a dra. Joacine é gaga. Às vezes, é um bocado gaga. Às vezes, é bastante gaga. Às vezes, é gaga para lá de qualquer hipótese de comunicação. Por causa da referida característica, alguns gozam com a dra. Joacine, e alguns acreditam que a dra. Joacine goza com eles. Não são melhores nem piores do que os que lhe elogiam a “coragem” por “assumir”. A propósito disto, gostaria de informar os deslumbrados que não há coragem em se assumir um defeito impossível de ocultar. Um sujeito com 15 dioptrias não é um herói: é um pitosga.

Não me entendam mal. Eu votaria num zulu cego e cocainómano empenhado na redução drástica dos impostos, na abolição de dois terços dos ministérios e no sagrado princípio de que a vida dos cidadãos é assunto deles. Salvo prova em contrário, a dra. Joacine viu-se eleita apenas por ser mulher, negra e gaga, tudo em simultâneo, tudo enfiado num bonito pacote de atributos “minoritários”. Se acumulasse com uma orientação sexual esdrúxula, seria o “jackpot” da vitimização. Nos sifilíticos tempos que correm, o estatuto de vítima, real ou imaginária, é uma proeza e uma virtude. Por azar, é uma virtude que não esclarece coisa nenhuma acerca do que a dra. Joacine pensa e, principalmente, do programa que defenderá na AR.

Quanto ao que, sob o culto da “discriminação”, a dra. Joacine de facto pensa, não tenciono alargar-me. Por motivos que é escusado repisar, ouvi-la falar não é uma experiência particularmente elucidativa. Lê-la também não ajuda: a escrita da dra. Joacine não se distingue da do académico indígena médio, logo é insuportável após três parágrafos. Resta o programa do partido que a dra. Joacine representa. O partido é o Livre, criado pelo grande pensador Rui Tavares para arranjar um emprego ao grande pensador Rui Tavares. Em sucessivas eleições, a empreitada falhou. Funcionou agora, embora com o emprego atribuído à dra. Joacine. E o que fará a dra. Joacine no emprego?

Não queiram saber. O programa do Livre, que espreitei na diagonal e na vertical, consta de 53 páginas divididas em 21 temas. Os temas incluem “Economia circular”, “Igualdade, Justiça Social e Liberdade” e “Soberania Digital”, além de 6 ou 7 capítulos “ambientais” (“Emergência climática”, “Desenvolvimento ecológico e solidário” etc.). Ou seja, marxismo clássico e marxismo “moderno”. No fundo, e à superfície, o Livre mistura os horrores do BE com as abominações do PAN, preservando o ressentimento, o moralismo, o revisionismo, a vocação proibicionista e a natureza totalitária de ambos. Parece-me impecável.

E parece-me justo dar um exemplo enternecedor: “Limitar o transporte aéreo às ligações onde é efetivamente necessário”. A pequena frase reúne todos os predicados acima, e deixa uma pessoa a pensar. Uma pessoa pensa na ingenuidade das companhias aéreas que mantêm ligações pelos vistos desnecessárias. Uma pessoa pensa na incúria dos viajantes que rumam a destinos que não necessitam visitar. Uma pessoa pensa na comissão de génios que decidiria a necessidade das ligações. Uma pessoa pensa na necessidade da rota bidiária Lisboa-Bissau. Uma pessoa pensa se estas ideias ocorrem a adultos ou são produzidas por metástases da pequena Greta. Quando uma pessoa não pensa, acaba a eleger a dra. Joacine, mulher, negra, gaga e parlamentar da extrema-esquerda, uma entre três ou quatro dezenas. Naturalmente, por estes dias, o país dedica-se a recear, exorcizar e promover o único deputado da extrema-direita.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 12-10-2019

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