sábado, 1 de fevereiro de 2020

Os pais votam comunista e os filhos no Chega

O “muro” que António Costa se orgulha de ter derrubado abriu as comportas para uma mudança tectônica no sistema político, de que a ascensão do Chega é apenas a mais recente, e inevitável, manifestação


José Manuel Fernandes

Um dia Portugal ia deixar de ser exceção, e não falo daquilo que está na moda falar, da “exceção portuguesa à vaga populista”. Falo da exceção portuguesa que mantinha o sistema político arrumadinho e seguindo os padrões clássicos do século XX. Isso acabou, e se é por estes dias que muitos despertam para o fenômeno, quando veem o Chega a subir nas sondagens, é bom terem consciência que isso não acabou agora, acabou em 2015, com a “geringonça”.

O “muro” que António Costa se orgulha de ter derrubado abriu as comportas para uma mudança tectônica no sistema político, de que esta evolução recente é apenas mais uma manifestação. O derrube do “muro” teve dois efeitos de que agora começamos a ver as consequências.

A “geringonça” está a representar um beijo de morte para o PCP, e o PCP era a principal barreira ao crescimento da revolta inorgânica anti-elites.

O primeiro efeito foi puramente político. A “geringonça” tornou claro que em Portugal passaria a haver dois blocos a disputar o poder: um bloco “à esquerda”, em que o PS não tinha problemas em fazer acordos de governação com partidos extremistas e defensores de regimes autoritários (é bom não esquecermos o que defende abertamente o PCP e aquilo que disfarçadamente o Bloco pretende) e um outro bloco “à direita” onde, inicialmente, só existiam dois partidos tradicionais, o PSD e o CDS.

Hoje já não é assim. PSD e CDS deixaram de estar sozinhos e, no futuro, depois do precedente da “geringonça”, não terão pudor de realizar os acordos que tiverem de realizar para governarem autarquias ou o país. Esse caminho foi seguido à esquerda e à direita noutros países (olhem para Espanha, só para não irem mais longe, com os radicais do Unidas-Podemos sentados no Conselho de Ministros ao lado do PSOE e o Vox a viabilizar executivos regionais e municipais do PP).

O segundo efeito foi estrutural. A “geringonça” está a representar um beijo de morte para o PCP, e o PCP era a principal barreira ao crescimento da revolta inorgânica anti-elites. Desde que há “geringonça” o PCP já sofreu três dos piores desastres eleitorais da sua história (nas autárquicas de 2017 e nas europeias e legislativas de 2019) e está literalmente a desmoronar-se. Em algumas das áreas onde tinha tradicionalmente mais influência foi onde o Chega obteve melhores votações.

Ao contrário do Bloco, que não tem raízes populares, o PCP sabia chegar ao eleitorado de deserdados e esquecidos para quem fala André Ventura. O “muro” derrubado por Costa era também um dique contra o crescimento deste novo tipo de força política, mas com o PCP em queda esse dique desapareceu. Como uma jornalista me disse recentemente, “os pais votam comunista, os filhos Chega”. Em breve os pais também votarão Chega.

Mas o que mudou na política em Portugal não mudou apenas por efeito da “geringonça”. Também mudou porque começamos a assistir às primeiras manifestações do tipo de divisões que têm marcado as democracias desenvolvidas. Durante grande parte do século XX habituamo-nos a olhar para a sociedade e a lê-la em função dos interesses econômicos dos diferentes grupos sociais. Podíamos interpretá-la pela cartilha da “luta de classes” marxista ou pela do “corporativismo” salazarista, mas a matriz de base era a mesma, fossem quais fossem as variantes nacionais.

Um conjunto de fatores econômicos, sociais e culturais que não vou aqui desenvolver foram criando nas sociedades desenvolvidas outras linhas de clivagem. Vencedores da globalização contra os derrotados do globalismo. Elites cosmopolitas versus profissionais sem futuro. Comunidades antigas em choque com vagas migratórias. Velhas fidelidades partidárias, de gerações, quebradas de um dia para o outro. Identitários contra nativistas.

Esta mudança sísmica da velha ordem social e política ajuda a explicar a vitória de Trump na esquecida “cintura da ferrugem” dos Estados Unidos, a migração direta de eleitores comunistas para o partido de Marine Le Pen, a polarização entre o Podemos e o Vox que dilacera a Espanha, ou ainda o derrube por Boris Johnson da secular “red wall” trabalhista na Inglaterra que resta da revolução industrial.

A nova esquerda, urbana, classe média, instruída, bem na vida, deixou de conhecer os “de baixo”: não vive nos mesmos bairros, não andou nas mesmas escolas, não vê os mesmos programas de televisão, não anda nos mesmos transportes

Em quase todas estas mudanças as elites foram apanhadas de surpresa – porque se operou uma verdadeira clivagem social e política e porque a comunicação social também não conseguiu perceber o que se estava a passar. Em quase todas estas mudanças a nova esquerda, urbana, classe média, instruída, bem de vida, foi apanhada em contrapé: não vivia nos mesmos bairros, não tinha andado nas mesmas escolas, não via os mesmos programas de televisão, não andava nos mesmos transportes, no fundo não conhecia os “de baixo” que dizia representar. Sem surpresa, deixou de os representar. Deixou de ter as mesmas preocupações e inquietações, e trocou de agenda. Sendo que sua nova agenda, mais fracturante e mais identitária, nada diz à velha base social dos partidos da esquerda tradicional.

É assim que o Chega obtém os seus melhores resultados em freguesias suburbanas (e no Alentejo) enquanto o mais puro produto desta nova esquerda, o Livre, tem as suas melhores votações em freguesias como a do Bairro Alto, em Lisboa.

Uma boa forma de termos uma percepção deste divórcio é vermos como duas notícias foram tratadas no último fim de semana.

A primeira, que coincidiu com o momento em que o país virava os olhos para o congresso do CDS. É a história do motorista da camioneta que chamara o polícia por causa de uma altercação com a cidadã luso-angolana Cláudia Simões e que foi violentamente agredido em Massamá, tendo seguido para o hospital onde ficou internado alguns dias, com o maxilar fraturado. Ainda nada sabemos sobre os agressores, mas imaginamos, sobretudo depois de tudo o que se disse e escreveu sobre a forma como Cláudia Simões terá tido agredida pelo polícia que a deteve. Nada conhecemos também sobre as motivações da agressão, mas suspeitamos do pior. Contudo desta vez ninguém suspeitou de racismo.

Sensivelmente 24 horas depois noutro bairro periférico de Lisboa, a Quinta da Fonte, em Loures, uma patrulha da PSP foi recebida à pedrada quando lá entrou para recuperar um carro roubado. Uma vez que não havia possibilidade de pedir apoio ao Corpo de Intervenção, os responsáveis da polícia resolveram adiar a recuperação da viatura, que tinha sido roubada em Sacavém, para o dia seguinte. Mas no dia seguinte já não havia viatura: ela foi incendiada pelas 2h da madrugada. Como se a Quinta da Fonte fosse um dos muitos subúrbios de Paris onde a polícia não entra e onde ardem automóveis todos os fins-de-semana.

establishment acha que nestes subúrbios o único racismo que existe é o racismo branco – aliás para o establishment só há racismo branco – e é cego relativamente a todas as restantes realidades, de que o racismo faz parte, mas não é tudo.

Estes dois episódios não mereceram muita atenção mediática, nem nenhuma mobilização ativista. Mas receberam a atenção de um programa matinal de televisão, um daqueles programas “para o povo” que a elite não vê. Mas que vale a pena ver.

De resto são também episódios reveladores dos tempos que vivemos por existirem – isto é, por começarem a acontecer nos subúrbios de Lisboa episódios típicos daqueles que caracterizam os bairros segregados e degradados de outras grandes capitais europeias – e por serem quase invisíveis. Isto é, os quotidianos de que estes episódios violentos são apenas uma manifestação mais extrema são os quotidianos de centenas de milhares de portugueses que por uma razão ou outra não têm voz, nunca têm voz.

É assim que se cria um vazio político, que em tempos o PCP ainda conseguia ir preenchendo, mas que hoje só encontra expressão em quem desafia o sistema e o establishment – porque o establishment não quer sequer admitir que estes problemas existem. O establishment nunca anda nos autocarros da Vimeca. O establishment acha que nestes subúrbios o único racismo que existe é o racismo branco – aliás para o establishment só há racismo branco – e é cego relativamente a todas as restantes realidades, de que o racismo faz parte, mas não é tudo.

Assim chegamos à sondagem que surpreende: o Chega empatado nos 6% com o PCP e o PAN e já bem à frente do CDS. Mas uma sondagem que não devia surpreender. Estava escrito nos astros que ia acontecer.

Ninguém pode adivinhar como irá evoluir o sistema político português, mas hoje além de sabermos que a formação de qualquer Governo terá sempre de se ancorar num dos dois blocos que a primeira “geringonça” consolidou como modelo para a alternância política, também sabemos que muito dificilmente haverá partidos em condições de repetir maiorias absolutas.

A vigilância sobre a linguagem, antes um monopólio da esquerda, é hoje disputada pelos que recordam os excessos de linguagem a que essa mesma esquerda já se entregou

Os votos seguirão por isso ou “causas” – há menos fidelidade partidária, tal como há muito menos clareza do que havia no passado sobre o significado de modelos ideológicos distintos para a sociedade –, ou “revoltas” ou simplesmente lógicas de contribuir para a formação de maiorias plurais, tanto à esquerda como, no futuro, à direita.

Neste quadro o jogo é muito mais aberto e também muito menos condicionado por disciplinas de linguagem. Sobretudo a vigilância sobre a linguagem, antes um monopólio da esquerda, é hoje disputada pelos que recordam os excessos a que essa mesma esquerda já se entregou (o episódio relativo ao uso ou abuso do vocábulo “vergonha” no Parlamento foi bem elucidativo de como os tempos mudaram).

O que me leva a regressar ao ponto por onde comecei: quando se derrubam muros este nunca cai só para um lado, há sempre passagens que se abrem para os dois lados. Há flancos que ficam descobertos. E pode haver surpresas. A “geringonça” há quatro anos que anda a falar para os funcionários públicos e os rentistas do regime, esquecendo todos os portugueses “invisíveis”, os que têm ficado para trás, os que nunca são notícia e nunca fazem greves. Quando esses portugueses em vez de optarem pela abstenção forem votar é quase certo que teremos grandes surpresas.

Até porque um dia alguém acabaria por falar a mesma linguagem deles, como já está a suceder. Agora só falta que outro alguém que os descreva como um “cesto de deploráveis” para termos realmente o caldo entornado.
Título e Texto: José Manuel Fernandes, Observador, 31-1-2020, 20h35
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