domingo, 17 de maio de 2020

Como a cloroquina ajudou a Prevent Senior a controlar a epidemia

Como a operadora de saúde criticada pelas autoridades desenvolveu um protocolo eficiente de tratamento da covid-19, a ponto de garantir que a doença está sob controle entre seus beneficiários, integrantes do principal grupo de risco

Paula Leal

Com um modelo de negócio voltado para o público idoso, a operadora de saúde Prevent Senior foi na contramão da lógica do setor. Enquanto os planos de saúde convencionais enxergam a população idosa como de elevado risco para justificar a cobrança de mensalidades cada vez mais altas, a Prevent Senior resolveu apostar justamente nesse público ao oferecer planos com preço médio de R$ 1.140,00 por mês para pessoas acima de 59 anos. A empresa atua há 23 anos no mercado e conta hoje com quase meio milhão de beneficiários, uma estrutura com oito hospitais próprios e vinte credenciados.


Desde a chegada da pandemia do novo coronavírus ao Brasil, a Prevent Senior ganhou atenção da mídia por adotar políticas não propriamente ortodoxas, como a utilização de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes em fase inicial da covid-19, não apenas nos casos graves. A operadora foi alvo de críticas publicamente, até do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Acusada de subnotificação de casos de infecção e de irregularidade na condução dos estudos com a hidroxicloroquina, a empresa rebate as alegações e informa que até o momento nenhum hospital da rede foi fechado. Ainda garante que, entre seus beneficiários, a epidemia está sob controle.

Em entrevista à Revista Oeste, Fernando Parrillo, de 52 anos, presidente da Prevent Senior, e Pedro Benedito Batista Júnior, 36, médico cirurgião-geral e diretor-executivo, relatam os aprendizados durante a crise, o protocolo adotado com os pacientes e as intrincadas questões políticas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

(...)

Por que a discussão do uso da hidroxicloroquina ganhou tanta repercussão e foi tão criticada, inclusive pela comunidade médica?
Batista Júnior: Muitos estudos científicos estão saindo agora e mostram que a hidroxicloroquina não é eficaz para casos graves. Mas isso nós já sabemos há mais de um mês. Os profissionais também não conheciam a medicação. Se um paciente contaminado liga para seu médico de confiança e ouve dele que nunca prescreveu o remédio, essa resposta vai gerar desconfiança. Mas, se você ligar para um reumatologista, ele vai dizer que sempre receitou a hidroxicloroquina sem pedir nem um exame sequer, inclusive sem necessidade de receita médica para a compra em farmácia.

Fernando Parrillo: Foi um erro o Ministério da Saúde [MS] proibir o uso da medicação na fase precoce da doença. [Em 27 de março, o MS permitiu o uso do remédio em pacientes graves. Em 7 de abril, uma mudança no protocolo do ministério permitiu ao médico prescrever a hidroxicloroquina em qualquer fase da doença.] Houve uma pressão psicológica muito grande em cima dos médicos. Porque o profissional até poderia prescrever, mas a gente sentiu, inclusive aqui dentro da empresa, que os médicos estavam inseguros em receitar, por conta do Conselho de Medicina. [Em 23 de abril, o Conselho Federal de Medicina liberou o uso da hidroxicloroquina no tratamento de pessoas com sintomas leves da covid-19.] Outra questão grave é que não existe a medicação no mercado. Quando saíram os primeiros estudos, nós fomos direto à indústria e compramos tudo o que pudemos. Só que ninguém fez isso na época. Não adianta ir a público e falar que a hidroxicloroquina funciona se o paciente chega ao hospital da esquina e não há a medicação para dar.

É possível que a discussão sobre o uso precoce da hidroxicloroquina tenha relação com o debate sobre a flexibilização do isolamento social?
Batista Júnior: Tudo tem a ver com tudo. É possível que daqui a um mês surja uma solução mais cara, já que um comprimido de hidroxicloroquina custa R$ 1. A medicação que alguns estudos consideram hoje como a mais efetiva no tratamento de pacientes graves custa R$ 10 mil. Existe toda uma situação dos laboratórios, além de diversas questões políticas, sociais e econômicas envolvidas. Por exemplo, a pneumonia é uma doença que se trata no começo da infecção. O que acontece se o médico esperar sete dias para iniciar o tratamento? Claro que o paciente vai piorar. Se estamos diante de uma epidemia que tem um processo de evolução tão característico quanto o de uma pneumonia, se a linha do tempo é tão parecida, por que não tratar desde o começo da mesma forma como tratamos uma pneumonia? 

Fernando Parrillo: O problema é que a discussão se restringiu a casos de paciente em estágios avançados da doença. Porque existe todo um interesse em cobrar por esse tratamento. Se havia uma solução tão simples e barata na frente, por que o Ministério da Saúde não comprou a matéria-prima para fabricar o medicamento? Compra o negócio, salva as pessoas. Em vez de investir em hospitais de campanha para atender o paciente doente, o governo de São Paulo poderia investir menos e de maneira mais efetiva na prevenção da doença.

Em 27 de março, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo pediu intervenção em três hospitais da Prevent Senior porque a rede teria deixado de informar casos de infecção por coronavírus.  Ainda, a Prevent foi criticada pelo alto número de mortes registrado pela operadora. Qual é a situação hoje? 
Batista Júnior: Houve campanha contra nós desde o início. Todos os laudos epidemiológicos e da Vigilância Sanitária vieram favoráveis à Prevent e não provaram nada. [A reportagem da Revista Oeste teve acesso aos laudos.] Em doze dias, foram quatro fiscalizações e nenhum hospital da rede foi fechado. Já registramos a alta de 735 pacientes com resultado positivo para covid-19 e que precisaram de internação. Além disso, 75% da população idosa que tem plano de saúde na cidade de São Paulo é nossa beneficiária. Temos 80 mil segurados acima de 80 anos, uma população extremamente frágil. Nossa taxa de mortalidade nessa faixa etária é de 8%, abaixo da taxa média divulgada pela OMS, de 15%.
Paula Leal, revista Oeste, 15-5-2020, 17h15

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