quinta-feira, 7 de maio de 2020

Mais vale cair em graça que ser engraçado

José Miguel Roque Martins

Graves me parecem as declarações de António Costa [foto] que li no Observador e no Diário de Notícias na semana passada: “Questionado sobre se não partilha da ideia de que podíamos controlar apenas as pessoas mais velhas e quem cuida deles, deixando os restantes ser contaminados e curar-se naturalmente, Costa diz que em Portugal ‘essa estratégia não seria socialmente compreendida’. Prova disso é que antes mesmo das ordens de encerramento, o povo português teve um sentimento geral de autoproteção. ‘Não podemos adotar uma estratégia que não consiga mobilizar os portugueses’, explica.” “O que eu acho que era a estratégia correta para mobilizar o conjunto do país era a ideia de que temos de nos proteger uns aos outros”, diz.

Noutra entrevista, no Diário de Notícias, defendia que, ao contrário do que aconteceu no Estado de emergência, era tempo de deixar de tratar de forma diferenciada os mais velhos, já que poderia provocar a estigmatização deste grupo.

Aparentemente, para António Costa, não importam os reais méritos de diferentes opções de políticas sanitárias (que nem se discutem), importa apenas o que ele sente serem os humores do povo, aquilo que o possa “mobilizar”. Estratégias mais eficazes não merecem ser seguidas, defendidas ou até apresentadas, se não corresponderem à ideia que o Governo tem do que o povo mais aprecia. A governação é então a arte de ter bons palpites relativamente ao que motiva o votante, desconsiderando a valia intrínseca de opções disponíveis. Compete ao Governo ir legalizando o que sente ser o desejo popular.

Sugere António Costa que, “protegermo-nos uns aos outros” é inconciliável com qualquer outra estratégia senão o confinamento.  A medida que o Povo escolheu e que o Governo implementou. Um ser provavelmente mais instintivo e primário que racional, o homem do povo, é também particularmente teimoso. Uma vez decidido que o seu caminho é a autoproteção, escolhe a forma como esta será exercida (o confinamento) e não admite alterações, mesmo que tudo o resto se altere. Não competirá ao governo, nem alertar para as opções aconselháveis, nem escolher ou sugerir novos caminhos. Há que respeitar o autismo do povo. Desde que ele começou a pretender mais do que pão e circo, é difícil motivá-lo e não se pode contrariá-lo (a não ser com novos impostos).


Finalmente, António Costa, elimina tratamentos diferenciados aos mais velhos, o grupo de maior risco, para que estes não se sintam estigmatizados. Uma ideia que estabelece que o princípio de igualdade, tem que ser aplicado sem consideração por diferenças objetivas de circunstâncias. A seu tempo, parece-me que chegaremos à prescrição do mesmo medicamento para todos, independentemente da doença que aflija cada um, atingindo-se a igualdade plena e nenhuma estigmatização.

Em Portugal e no Mundo, mais de 95% das mortes registadas são de maiores de 60 anos, que, no nosso país, correspondem a menos de 30% da população.

Ignorar factos e diferenças objetivas implica uma variante, para pior, da tradicional política socialista, que costuma concentrar benefícios em alguns e distribuir os custos por todos. Neste caso, distribui-se e multiplica-se o ónus por todos, sem beneficiar ou isentar ninguém.

Institui-se, então, uma pretensa igualdade acéfala e que só existe nas eventuais intenções do Governo e no seu formidável discurso político: o “estarmos todos no mesmo barco”. 

Que igualdade existe entre os que têm 20% de taxa de mortalidade e aqueles que têm uma taxa próxima de zero? Que igualdade existe entre os que continuam a trabalhar fora das suas casas, expostos ao vírus, e aqueles que ficam confinados em sua casa, supostamente protegidos? Que igualdade existe entre os que têm o seu rendimento intocado, aqueles que mantêm uma parcela do seu rendimento, aqueles que perderam todo o seu rendimento, aqueles que faliram e aqueles que já passam fome?

Cada vez mais, em Portugal e no Mundo, parece que mais vale cair em graça do que ser engraçado.

PS:  Não nos podemos esquecer que o confinamento, em termos de sustentabilidade, é muito próximo da solução de suster a respiração e fechar os olhos, para não se ser infectado:  funciona, até ser necessário voltar a respirar. Pelo que parece estar na altura de medidas responsáveis, mesmo que não populares.
Título e Texto: José Miguel Roque Martins, Corta-fitas, 7-5-2020

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