sábado, 24 de outubro de 2020

O Dia dos Mortos e os dias dos mortos-vivos

Ao alimentar o pânico face à Covid, os senhores que mandam não estão unicamente a medir o grau de humilhação que as massas suportam: estão a distraí-las do saque organizado pelo PS e seus aliados. 

Alberto Gonçalves 

O Governo quer homenagear as vítimas da Covid, através de um dia de luto nacional a 2 de novembro. É justo. Se ignorarmos o pormenor de a vasta maioria de mortos “com” Covid não terem morrido “de” Covid e sim das doenças bem mais graves de que padeciam, sempre são duas mil e tantas pessoas. Ainda assim, são cerca de um terço das pessoas que morreram em excesso face a anos anteriores, não “de” ou “com” Covid, mas provavelmente por causa do desleixo a que foram votadas a pretexto da Covid. 

Seis mil mortos, contas por baixo. Sete mil, noutras contas. Seis ou sete mil criaturas que não merecem agora a homenagem do Governo, como não mereceram durante meses os cuidados de que necessitavam e que poderiam ter-lhes prolongado as vidas por um, cinco ou trinta anos. É justo. Seria repulsivo que os principais responsáveis pelo adiamento e cancelamento de consultas, tratamentos e cirurgias viessem, post mortem, fingir mágoa pelas perdas em causa. Seis ou sete mil. Nisso o Governo foi coerente.

E coerente mantém-se. Ao proibir as deslocações entre concelhos no fim-de-semana de finados (e fechar indiretamente cemitérios), o Governo impede os familiares de homenagearem esses seis ou sete mil mortos. É verdade que também impede os familiares dos mortos “com” e “de” Covid de fazerem o mesmo. Porém, estes já beneficiam da homenagem do próprio Governo, assaz sincera e respeitosa. 

Os mortos restantes não beneficiam de nada, nunca beneficiaram. Dado que, por ordens superiores e histeria geral, os hospitais praticamente se dedicaram em exclusivo aos pacientes “com” Covid, os mortos restantes não tiveram direito aos serviços de saúde que os poderiam ter salvo. 

Dado que os funerais não são festarolas comunistas ou variedades burlescas (passe a redundância), os mortos restantes não tiveram direito a cortejo fúnebre (a menos que três indivíduos sejam um cortejo fúnebre). 

Dado que os seus familiares e amigos não são políticos, polícias e demais agentes da subjugação e da punição (os privilegiados que gozam de liberdade de movimentos), os mortos restantes não terão direito a ser lembrados da maneira que tanta gente gostaria de lembrá-los. Visto que ninguém os lembra ou vinga, os mortos restantes nem sequer chegam a seres humanos. Deve ser por isso que o respectivo homicídio, só relativamente involuntário, não é considerado crime. 

Pelo contrário, os autores desses seis ou sete mil crimes são chamados de “autoridades”. E a população obedece-lhes de facto, brutalmente indiferente aos milhares de compatriotas que morreram longe das notícias. 

Não contente em desgraçar-lhes a vida com clausura e miséria, o Governo apropria-se da morte dos portugueses. E da ligeira dignidade que lhes sobrava. Na semana passada, previ aqui duas coisinhas. A primeira era que a famosa “app” não passava de um isco para implantar a máscara. A segunda era que a imposição de proibições e obrigações delirantes aumentaria exponencialmente, fosse na frequência, fosse na dimensão do delírio. É tão fácil prever o comportamento dos tiranetes: logo após o anúncio do confinamento concelhio para o Dia de Finados, o Parlamento aprovou o uso constante da máscara ao ar livre, com penas de centenas de euros para os hereges. 

Por acaso, e certamente estratégia combinada, a proposta veio do PSD. É indiferente: tirando o da Iniciativa Liberal, não houve votos contrários – pelo evidente motivo de que, no regime em que entrámos, já não há oposição ou vestígio de escrutínio, há os espantalhos necessários a um simulacro, desconchavado e reles, de uma democracia. 

Para a semana, a pedido do PS, do PAN ou do BE, será interditada a partilha de sofás, o tabaco na varanda ou o consumo de sangria à tardinha. Malucos não faltam e, a julgar pelo número de sujeitos que se mascaram em automóveis sem passageiros, não faltam malucos prontos a segui-los. 

Não discuto a utilidade ou a benignidade da máscara: por todo o mundo, incontáveis especialistas condenam a utilização com argumentos que, no mínimo, são tão respeitáveis quanto os da ortodoxia dos “telejornais”. O que me intriga é a submissão dos portugueses a “autoridades” que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Ou fazem, o que é bastante pior. 

Ao alimentar o pânico face à Covid, os senhores que mandam não estão unicamente a medir o grau de infantilização e humilhação que as massas suportam: estão a distraí-las do saque organizado pelo PS e seus múltiplos aliados. O saque era apetitoso antes do vírus, e tornou-se um regalo depois, com o “fundo de recuperação” que a nomenclatura raspará até ao dito. 

É curioso, no sentido de absolutamente asqueroso, que os dinheiros da “Europa” não patrocinem um SNS em frangalhos (ou a ajuda dos, cruz-credo, hospitais privados), mas deslizem para as negociatas do costume, embora mais às claras do que de costume. Se alimentar o medo da Covid encerra algum simbolismo, o materialismo é decisivo. 

Entretanto, continuarão inevitavelmente a morrer pessoas “de” ou “com” Covid, um terço das pessoas que evitavelmente morrerão sem Covid nenhum. Vêm aí muitos dias de finados, uns sob a terra, outros em cima dela, reverentes e pobres de pedir, os rostos ocultos como ladrões, a cumprir ordens de criminosos e a imaginar que a vida é isto. Não é. 

Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 24-10-2020

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