terça-feira, 27 de outubro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Imprevisto inesperado

Aparecido Raimundo de Souza 

APERTEI O BOTÃO E ACIONEI o elevador social. Pelo painel dos andares, percebi que ele estava no sétimo e em decesso. Esperei até que a porta se abrisse no hall principal e ingressei. Meu destino final, o vigésimo. Antes que a porta se fechasse totalmente, uma jovem dos cabelos compridos e um sorriso elegante num rosto encantador chegou correndo. 

Segurei o mecanismo no rol do painel impedindo o fechamento, para que ela conseguisse embarcar. Me agradeceu e listou o décimo sétimo. Porta fechada, nos colocamos à caminho. Algo inusitado ocorreu neste momento. Apesar de termos calcado de forma correta os mostradores de nossos andares correspondentes, por algum motivo inexplicável a geringonça passou direito indo finalizar seu itinerário no trigésimo, sem escala. 

No topo da torre, resolvemos não abandonar a cabine. Reprogramamos novamente os nossos pisos, e a porta, ato contínuo, se fechou. De novo, na revinda, idêntico fato se repetiu. A cabine desceu direta, como um avião em queda livre, sem se deter no meu andar e no dela, pontofinalizando a nossa curta viagem, no térreo. 

Apesar deste inusitado, não apeamos no saguão. Resolvemos tentar a sorte, clicando, de novo, o dezessete e o vinte. A porta se fechou e, desta vez, um novo incidente entrou na brincadeira. Em todos os pavimentos, do térreo ao dezesseis, o elevador fez a gentileza de se abrir igual mala velha, e pior, sem que ninguém tivesse solicitado. 

Fechada a porta no dezesseis, obviamente ele se catrafilaria no subsequente. Qual o quê! Ledo engano. Do dezesseis, ele seguiu direto para o trigésimo. Lá nas alturas, eu e a garota, os rostos além de cansados e descontentes, achamos por bem trocarmos de cabine. Passamos para a de serviço. Incrivelmente, a mesma história se sucedeu. 

O elator desembestou direto, sem obedecer aos entraves por nós pleiteados. Desta forma, fomos, de novo, rebaixados ao nível inferior e a darmos de nariz com o vestíbulo. Procuramos pelo funcionário, um tal de Gregório (conhecido pelo apelido de ‘Bigodinho’), que nos informou estarem ambos os aparelhos funcionando normalmente. Confiantes em suas palavras, reingressamos no social. 

Desta feita, entretanto, com o porteiro fazendo a gentileza de agendar as gravações dos andares nos quais pretendíamos desfrutar do aconchego de nossos lares. ‘Se não parar no dezessete, nem no vinte, me chamem pelo telefone. De qualquer forma, nem será preciso. Estarei monitorando vocês pela câmera interna’. Lá fomos nós, de novo, prédio acima. 

Se estivesse sozinho, qualquer um que ouvisse o meu relato, diria que eu estaria mentindo. Não estava. O bendito dispositivo, que trafega sem fazer curvas (fosse subindo ou descendo), só poderia estar de gozação com a minha cara e com a da minha companheira de infortúnio. O desgraçado se assomou direto, literalmente. Passou pelo dezessete, em seguida pelo vinte, sem obedecer ao comando de nos deixar onde desejávamos. 

De novo, no cume do trigésimo, à solicitação do porteiro, pelo intercomunicador, convocando que mudássemos para o de serviço. Obedecemos. Dentro dele, regredimos, mais uma vez, aos pés do átrio, sem lograrmos encerrar o cansaço do dia estafante, onde tínhamos nossos apartamentos. O ‘Bigodinho’, ou melhor, o Gregório, desta feita, resolveu nos acompanhar. 

Ele mesmo fez questão de enfiar o dedo indicador no dezessete, da moradora, seguido do meu vigésimo. Apesar disto, nada mudou neste pingue-pongue estranho. O bicho se invocou e subiu com força e direto, sem obedecer as nossas pretensões. Atendendo agora, ao convite do porteiro, não desembarcamos e ele, gentilmente, cochou o vigésimo e o décimo sétimo, com raiva, como se pretendesse amarrar os botões do mostrador, para que obedecessem a sua fúria. Conclusão: aportamos como três babacas, na portaria, pela terceira vez. 

Sentenciamos, eu e a chateada e furiosa inquilina, rompermos as nossas necessidades, pelas escadas. Com este pensamento à baila, demos inicio na peregrinação penosa, que demoraria um tempo considerável: ‘A gente continua conversando — disse ela quando passávamos pelo terceiro — e o tempo se esvairá mais rápido’. Concordei, e sem mais delongas, iniciamos a enervante caminhada. 

Neste interregno, fiquei sabendo que a linda se chamava Rosana e morava no 1701 há seis meses. De degrau em degrau, à medida em que ganhávamos mais cansaço suor e altura, trocávamos impressões as mais variadas. Falamos de músicas, de filmes, de novelas, de comidas, de nossas vidas particulares e até de política. No quinto para o sexto, gravamos os números de nossos telefones celulares para contatos futuros, via WhatsApp. 

No sétimo fiquei sabendo que Rosana se formara advogada. Era divorciada e mãe de uma filhinha de doze anos que ficava com a empregada. Prestava serviços jurídicos à uma firma famosa no mercado que comercializava produtos importados. Tinha trinta anos e adorava Fernando Pessoa. Quando me dispunha a falar de mim, quase a galgarmos o nono, um novo imprevisto pintou na nossa suada e prostrante jornada: as escadas enguiçaram. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Belo Horizonte Minas Gerais. 27-10-2020 

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