segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O abanão

O Estado falha clamorosamente, mas António Costa sente “que era preciso haver um abanão na sociedade." E os portugueses, quem devem abanar para que o governo enfrente a realidade?

Helena Matos 

António Costa quer abanar os portugueses para que estes mudem os seus comportamentos. Longe vão os tempos em que o governo saltava e o PR pulava. Agora o abanão tornou-se uma forma de fazer política. Porque se o governo for de esquerda o Estado nunca falha. As pessoas é que não cumprem. Logo precisam de ser abanadas. 


Abanar três vezes. 

A 4 de Outubro de 2020 fomos informados que “A região de Lisboa e Vale do Tejo vai passar a ter coordenação de vagas nos hospitais no que diz respeito a doentes internados com covid-19″ Note-se que foi a 4 de Outubro. Não foi a 4 de março, nem a 4 de abril, nem a 4 de maio… foi sim a 4 de outubro. Ou seja, oito meses depois de nos vermos a braços com a pandemia, cinco meses depois de as medidas de confinamento terem começado a ser levantadas e um mês após a constatação da chegada da segunda vaga. Se por acaso o leitor sente alguma estranheza perante o tempo que as alegadas autoridades da alegada saúde demoraram a anunciar que vão tomar esta medida (e entre o anunciar a medida e tomá-la de facto pode decorrer um prazo indeterminado), é porque ainda não foi suficientemente abanado. Mais um ou dois abanões e fica-se em condições de perceber que se o governo for de esquerda é a sociedade que precisa de ser abanada quando o Estado falha. Ao fim de três abanões as perguntas inconvenientes desaparecem. 

Abanar até cair.

O socialismo tem uma fé ilimitada nas potencialidades económicas do abanão às empresas: abanando-as alguma coisa há de cair. Sintomática dessa versão do socialismo-abanão tivemos nos últimos dias a proposta da “proibição de despedimentos por grandes empresas que tenham lucros em 2020, sob pena de perderem acesso a incentivos fiscais e às linhas de crédito com garantia pública” (em 1975, a mesma crença no papel miraculoso da legislação levou Portugal a proibir as empresas de falir. Como se calcula as empresas visadas por esta legislação acabaram todas falidas). À proibição de despedir juntar-se-á o aumento do salário mínimo que em sectores como a restauração pode gerar ainda mais falências e, caso seja necessário o voto da deputada do PAN para aprovar o orçamento, teremos ainda a concessão aos trabalhadores por conta de outrem de um dia de luto pelos animais de companhia e até sete dias por ano para prestar assistência “inadiável e imprescindível” aos mesmos animais de companhia. Para a semana mais medidas ditas de proteção aos trabalhadores e de apoio às empresas surgirão. A diferença entre o anunciado e o sucedido é cada vez maior, mas o que conta é que se anuncia. 

Com as empresas transformadas no espaço ideológico-recreativo de políticos que acreditam que a realidade é criada por decretos-lei, a burocracia e seu léxico tornaram-se um prolongamento da ideologia: neste domínio veja-se um documento com que muitas empresas andam agora às voltas, o  Guião para a Elaboração dos Planos para a Igualdade que as empresas são obrigadas a apresentar todos os anos por esta altura. Trata-se de um arrazoado de lugares-comuns que não serve para mais nada além de justificar a existência e o ordenado dos comissários da dita igualdade. 

As empresas são o objeto privilegiado da política abanão. Até que muitas delas caiam é apenas uma questão de tempo. 

Abanões à medida de cada português. 

A oferta de transportes públicos não é suficiente de modo a evitar a sobrelotação em determinadas horas? Não é o Estado que falha, são as pessoas que não se sabem comportar. Por exemplo, não olham todas em frente como, segundo explica a Dra Graça Freitas, acontece nos aviões. À porta dos serviços públicos, que continuam em semi-clausura, formam-se filas de cidadãos à espera de serem atendidos. Mais uma vez não é o Estado que falha são sim as pessoas que não aderiram à aplicação que lhes diria se estiveram junto de alguém com Covid. Os centros de saúde permanecem mais ou menos inacessíveis. Mas não existe nisso qualquer falha: se as pessoas usarem todas máscara não apanham Covid e como não existem outras doenças além do Covid elas não precisam de ir aos centros de saúde. 

As crianças continuam sem poder ir aos parques infantis e muitas passam os intervalos escolares dentro das salas? Não há aqui qualquer falha de planeamento. Faz parte da estratégia do abanão. Quem não sabe que as crianças enquanto fechadas se abanam com muito mais genica umas às outras? As cirurgias estão a ser adiadas? Os exames de diagnóstico não acontecem? Abanemo-nos enquanto esperamos – o abanão faz bem à saúde – desde que não se empurre a infelizmente senhora ministra da Saúde para uma situação que obrigue a responder a esta pergunta: porque têm os cuidados prestados pelo SNS de ser assegurados por prestadores públicos? Mesmo que essa obrigatoriedade implique atrasar diagnósticos, inviabilizar tratamentos, adiar o que não pode ser adiado? 

O socialismo começou por querer fazer avançar as sociedades. Era o tempo dos saltos, das marchas, dos caminhos… Quando o socialismo falha (e falha sempre) sobra-lhe o abanão. É aí que estamos. 

PS. Um professor francês, Samuel Paty [foto], foi decapitado em Paris há dois dias, por um cidadão muçulmano que se sentiu ofendido por Samuel Paty ter mostrado caricaturas de Maomé numa aula (note-se que a aula era dedicada ao tema da liberdade de expressão e que Samuel Paty permitiu saírem da sala os alunos que se considerassem chocados com aquelas imagens). Como acontece aquando de cada um destes atentados a França diz-se chocada e anuncia homenagens com aquela grandeza que lhe sobrou doutros tempos. Na rotina da desvalorização da barbárie a que o multiculturalismo nos conduziu, estes atentados são cada vez menos destacados. Simultaneamente cada vez mais são omitidas a identidade e motivações dos seus autores. Das vítimas também vamos vendo cada vez menos o rosto e em muitas notícias os atentados passam a incidentes. Em Portugal o assassínio de Samuel Paty não gerou nem solidariedades nem comoções nem palavra de dor. O silenciamento é quase total a começar pelo dos seus pares: a FENPROF que na sua página reserva espaço para manifestar a sua preocupação com a “Situação dos trabalhadores no Saara Ocidental ocupado” não tem até agora uma linha sobre o assassínio do professor Samuel Paty.

Título e Texto: Helena Matos, Observador, 18-10-2020

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