quarta-feira, 21 de outubro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Quando a desculpa da muleta é o aleijado

Aparecido Raimundo de Souza 

O TELEFONE TOCOU DEZ VEZES. Na décima primeira, o sujeito atendeu: 
— Alôaaa... 
O que ligava estava agastado e super nervoso. Pê da vida. Chingou o cara para quem telefonava, dos pés a cabeça. Só não chamou o desgraçado de santo. O que atendeu, ao contrário, se achava super tranquilo e de bem com a vida: 
— Mexerica, seu filho de uma água. Por que demorou atender? Infeliz, você nem imagina a minha preocupação. Quase tenho um piripaque. 
— Fala ai, Polvilho. Fica calmo. Estava no banheiro. O que você manda? 
— Como o que eu mando? Tá me tirando? Fez o que pedi? 
— Fiz. Ontem mesmo. 
— Ah, ta. Deu tudo certo? 
— Deu. 
— Posso ficar tranquilo? 
— Deve. 

Polvilho ainda bufando de raiva e extremamente preocupado, procurou se acalmar: 
— Desculpe ter me alterado. Achou fácil o endereço? 
— Moleza! Com aquele mapa que me deu... 
— E como foi o encontro com o maldito Torresmo? 
— Correu tudo bem. Como, aliás, havíamos previsto. Ele pegou os cento e cinquenta mil reais, contou, recontou e chiou um pouco pelo fato de você ter demorado a dar sinais de vida. De resto, nada de novo. 
— Graças a Deus! Jesus Cristo seja louvado. 
— Só teve um detalhe que me pediu para lhe comunicar o mais urgente possível. 
— Detalhe? Que detalhe. 
— Você esqueceu os juros do mês passado. Ele quer que você mande para ontem. 
— Que inferno, Mexerica. Esqueci a droga dos juros. Você pediu um prazo? 
— Pedi. 
— E ele? 

— Foi meio imparcial. Deu até sábado. Nem um dia a mais, nem a menos. Caso você não se manifeste, ele irá lhe procurar pessoalmente ai no seu restaurante. 
— Diabos, Mexerica. Sábado agora? Espia, mano! Hoje é quarta. 
— Eu sei. Fiz das tripas coração. Pedi quinze dias, ele virou bicho. Tem que ser sábado agora. Deixou isto bem sintetizado. O valor você já sabe. Vinte e cinco por cento do capital de cento e cinquenta mil reais. 
— Com essa história de juros, acredito tenha pago e repago o capital do amaldiçoado umas quinze vêzes. 
— Bem, ele disse que sábado é o prazo final. Mandou que você desse seus pulos. Preciso estar com o Torresmo às duas horas em ponto. Polvilho, meu prezado, não tenho nada com a sua vida. Mesmo assim, vou lhe dar um conselho. Conselho de amigo. Acho que esta é a hora. Procura se virar nos tais juros e ai você fica livre da agiotagem desse espertalhão. 
— Farei isso, Mexerica. A propósito: você me ajudaria com um novo favor? 
— Se estiver ao meu alcance... 

— Por tudo quanto é sagrado. Não quero tornar a ver a fuça do Torresmo na minha frente. Você leva o dinheiro dos juros para mim? Sábado pela manhã, ai pelas oito, você vem aqui no restaurante e pega comigo o valor. Combinado? 
— Combinado, meu amigo. 
Assim que Polvilho saiu de cena, Mexerica ligou correndo para a Melissa, sua namorada: 
— Oi gatinha. Arrumou as malas? 
— Seu idiota. Claro que sim. Aliás, estão prontas tem mais de uma semana. E ai, quando vamos meter os pés na estrada? 
— Neste sábado. Estou com as passagens. 
— De verdade, amor? 
— De verdade. Passa a mão nos seus cacarecos e se encontra comigo na rodoviária. Vou esperar por você em frente ao guichê da empresa. Não se atrase. Vamos pegar o primeiro. Lembra. Onze horas. Esteja lá. 
— OK meu amor. É certo mesmo né? 
— Ainda duvida de mim, Melissa. Beijos. Não esquece. Sábado agora. Vamos embarcar às onze em ponto. Se cuida. 
— Você também, amor. Te amo! 

Sábado às sete horas da manhã, Polvilho tornou a ligar para o Mexerica. Como sempre, a demora da criatura em atender. Quando ia tocar pela décima sexta vez, Mexerica se fez ouvir:
— Bom dia. Fala, meu amigo.
— Filho do tinhoso. Por que demora tanto em atender a esse telefone? 
— Porque estava com a minha velha, Polvilho. Você sabe como é. Mamãe não sabe das minhas tretas. E ai, está com a grana? 
— Estou.
— Posso ir buscar? 
— Agora. 
— Está no restaurante? 
— Sim. Pode vir. 
— OK. Estou a caminho. Só o tempo de pegar um UBER. 
No estabelecimento comercial, sem mais delongas Polvilho passou a grana limpinha do tal do juro em aberto para o amigo Mexerica, como fez anteriormente com o capital: 
— Te devo mais esta. 
— Fique tranquilo. Você não me deve nada. Amigo é para estas coisas. 

— Confere, por favor. 
— Confio em você, Polvilho. Se não confiasse...
— Obrigado pela parte que me toca. Apesar do ladrão do Torresmo ter me arrancando as cuecas e as calças, agradeça a ele por ter me quebrado o galho. Alias, um galhão. Hoje, me livro desse verme para sempre. Tome aqui dois mil e quinhentos reais pelo transtorno que lhe causei. 
— Que isso, cara. Você é meu amigo. 
— Por isto quero que aceite. Sei que precia. É um presente. 
— Sempre vou estar às suas ordens, Polvilho. Se precisar, sabe onde me encontrar. A propósito: na volta tomamos uma cerveja? 
— Se for uma só, estou dentro. Estes juros extras me deixaram a ver navios. 
— Vamos fazer o seguinte. Eu pago uma e você promove a saideira. Fechado? 
— Fechado, amigão. Vai com Deus. Que os anjos do céu lhe acompanhem! Depois me dê notícias. 
Trocaram efusivos apertos de mãos e Mexerica pulou para dentro de um automóvel de aplicativo. Ligou para a Melissa imediatamente. A jovem atendeu, de pronto: 
— Amor, estou indo para a rodoviária. Voa, minha princesa. Tá quase na hora do ‘buzuzão’ partir. 
— Ok, lindo. Estou a caminho. Chego dentro de vinte minutos. 

Desde este sábado, Mexerica tomou chá de sumiço. Desapareceu do pedaço. Escafedeu, segundo amigos e vizinhos próximos, para lugar incerto e não sabido, levando a sua manorada Melissa, à tira colo. Como toda história que envolve grana alta nunca teve final feliz, esta não poderia fugir à regra. Uma semana depois Torresmo em carne e osso, baixou com a sua turma de guarda costas mal encarados no restaurante de Polvilho: 
— Olá meu amigo Torresmo. Quanta honra! A que devo a sua tão amável visita? — Vou mandar meus cozinheiros prepararem aquele almoço para você e seus amigos. Entrem, fiquem a vontade. 

Torresmo, forte como um touro, não se ateve à palanfrórios. Agarrou Polvilho pelo pescoço e o levantou no ar: 
— Vim receber meu dinheiro, seu safado e caloteiro. Quero minha grana agora. Eu disse agora. Ou paga, ou reza. 
Polvilho tentou falar... Sequer chegou a balbuciar: 
— Torres... Tor... Res... Torres... Mo... Eu te pa... Paguei tu... Tudo. 
— Verdade? 
— Mandei meu amigo Mexerica levar seu dinheiro. E ele... 
— Tratei com você. O Mexerica que se exploda. 

Foram suas últimas palavras. As extremas, a bem da verdade. Polvilho foi atirado carinhosamente dentro de um dos carros pretos que faziam parte da comitiva de Torresmo. Desde este dia, o coitado do Polvilho parece ter se dissolvido na água. Nunca mais foi visto. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha no Espírito Santo, 21-10-2020

Colunas anteriores:
Entre biscoitos e pirâmides
Enfim, uma notícia que interessa a todos os jornalistas
As Crianças da Minha Vida
Atitudes intempestivas
Sem as cores da vida

Um comentário:

  1. SEI QUE VOCÊ VAI ME COMER... CALMA, O FÍGADO... OU A ORELHA.
    DEIXEI PASSAR UM GATINHO.
    PODE ME XINGAR. EU NÃO 'CHINGO' VOCÊ.
    CARINA BRATT
    CA
    DO AEROPORTO INTERNACIONAL DE VIRACOPOS, EM CAMPINAS, SP

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