quarta-feira, 28 de outubro de 2020

[Foco no fosso] Fritando o lombinho

Haroldo Barboza 

O incêndio do hospital de Bonsucesso (RJ), será mais um esquecido (principalmente por não termos vítimas fatais) pela população em menos de 3 semanas. 

Se nosso povo tivesse memória para tragédias deste (e piores) porte, bem como gana para exigir que a segurança da cidade fosse colocada em primeiro plano, certamente nossa qualidade de vida valeria os impostos que pagamos com alto sacrifício. 

Num rápido exercício de recapitulação, entre centenas de ocorrências, elencamos poucos eventos trágicos que denigrem nosso cuidado com nossas vidas, que não foram piores por conta do destino. 

- Edifício Joelma (1974);

- Edifício Andorinha (1986);

- Restaurante Filé Carioca (2011);

- Boate Kiss (2013);

- Museu da Quinta da Boa Vista (2018);

- Hospital Badin (2019). 

Em qualquer destes eventos, volta à tona o velho problema que aflige o aglomerado de construções edificadas sem planejamento de segurança nas grandes cidades. A preocupação dos construtores é aproveitar cada metro quadrado para mais um cômodo do condomínio ou mais espaço para clientes aglomerados em teatros, boates e shoppings, em detrimento de uma área de escape em caso de acidentes perigosos. Pouco se importam com a vida dos que frequentarão o futuro prédio. O desleixo da administração pública que concede "habite-se" sem maiores exigências (rotas de fuga apropriadas e desimpedidas) e altera gabaritos de alturas irresponsavelmente fica evidente a cada dia. 

E o perigo potencial aumenta pela ganância dos proprietários que permitem que o local seja ocupado acima da capacidade prevista. Além de “depósitos” de materiais que obstruem as fugas e chegada aos equipamentos de segurança. Não há fiscalização e quando acontece, qualquer “galo” na cueca é suficiente para o “zeloso” fiscal carimbar a guia de inspeção com a frase “aprovado sem restrições”. 

A tragédia torna-se normal por nossa acomodação (não boicotamos tal prática) ao longo do tempo e num belo dia somos filmados e exibidos ao mundo, com nossos corajosos bombeiros numa luta desigual contra o fogo, sem equipamentos modernos, com mangueiras furadas, hidrantes entupidos e obstruídos por carros e outros obstáculos que triplicam o tempo de atuação dos valorosos soldados. 

Na semana seguinte às tragédias, as “ortoridades” afirmam que rígidas normas serão adotadas e a fiscalização será aprimorada. Dois meses depois, com o BBBB chegando ao final de sua edição, a população perde o interesse pela segurança (sua e de seus familiares) e o cenário para novas tragédias permanece intocável. 

Poucas empresas realizam simulações semestrais para que seus funcionários tenham um mínimo de orientação num momento de pânico. 

Na verdade, a salvação de cada pessoa, vai depender em grande escala de seu próprio raciocínio (que na hora do pânico fica comprometido) e de sua calma no instante do sinistro. 

Sabemos que no momento de um incêndio em locais fechados, uma grande parcela de pessoas morre ou se machuca gravemente se atropelando pela ânsia de salvar a própria pele. E o atropelo aumenta por um erro grave de projeto nas construções dos altos prédios nas cidades. As escadas (o primeiro pensamento de fuga das vítimas) possuem a MESMA largura desde o primeiro até o último andar. Mais fácil culpar o inocente destino que não tem advogado para defendê-lo quando ocorre uma catástrofe com vítimas fatais. 

Se a tragédia ocorre 3 meses antes de uma eleição, logo torna-se trampolim para os candidatos de todas as facções. 

Quem vai impedir que um Sérgio Naia coloque em atividade seus prédios de baixa qualidade tão logo os elevadores estejam funcionando? O incêndio que destruiu 4 ou 6 apartamentos no luxuoso condomínio Novo Leblon na Barra em 2004, expõe uma realidade contundente não observada no momento em que se adquire o caro imóvel: não existe sistema de tratamento de esgoto na maioria dos condomínios. Os dejetos são lançados “in natura” na lagoa mais perto. O caro sistema de segurança não atinge a 70% de eficácia. 

Passamos a vida imaginando que nas cidades podemos nos defender contra os perigos(?) que a Natureza nos reserva. Ledo engano. Nós criamos as maiores situações de risco por desconhecimento, desatenção e acomodação. Nossas cidades estão repletas de monumentais churrasqueiras de concreto e vidro para fritar suculenta carne ... humana. 

Título e Texto: Haroldo Barboza, 20-10-2020 

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