terça-feira, 27 de outubro de 2020

[Diário de uma caminhada] O conto do vigário chinês


Gabriel Mithá Ribeiro 

Quando falamos da China, falamos de um país que é um continente, dimensão que se transforma num pau de dois bicos. Para além das notícias, se conseguirmos antever o quotidiano das pessoas comuns é quase certo que o Ocidente só tem razões para temer a China se insistir na sua paranoia mental. Quando os ocidentais se curarem da ditadura mental esquerdista vão (finalmente!) compreender que são muitíssimo mais os governantes comunistas chineses que temem o seu próprio povo. Aí reside o âmago das relações do mundo com a China e vice-versa. 

Se não fosse essa a questão crucial, o regime comunista não viveria na ansiedade constante de isolar o mundo chinês do resto do mundo. Veremos até quando aguentará. Não é possível que o nível de vida na China tenha mudado tanto desde os anos setenta com a chegada ao poder de Deng Xiaoping e, ao mesmo tempo, os chineses comuns continuarem mentalmente os mesmos submissos da era maoísta. Um povo que alimentou uma revolução violenta iniciada em 1949, nada garante que não gere algo equiparável num futuro imprevisível, uma vez que o fosso entre a elite governativa e as pessoas comuns ainda está por resolver, chame-se essa elite tradicional ou comunista. 

Ainda que a pobreza tenha sido suavizada nas décadas recentes em termos estatísticos, isso pode significar bem menos do que a interpretação subjetiva dessa transformação no senso comum, o elemento mais importante das sociedades para o qual os analistas insistem no olho cego. Revoltas e revoluções acontecem justamente porque as sociedades mudam, uma vez que estas nunca são estáticas no tempo, enquanto as lógicas de poder se mantêm estáticas, marca indiscutível das ditaduras comunistas. Até porque algum sucesso social pode gerar expetativas de melhoria do nível de vida e de ambições de riqueza que, paradoxalmente, agravam os sentimentos de desigualdade social ou de dominação opressiva de uns sobre outros, de injustiça social. Costuma ser apenas uma questão do tempo mental dos povos até o caldo transbordar. 

Todos os sinais indicam que o contexto social chinês continua muito mais próximo de um vulcão do que de um oceano relativamente tranquilo. O detalhe que funciona como válvula de escape do vulcão é a ingenuidade paranoica dos ocidentais, também subjugados à mesma família da ditadura chinesa, uma fonte de poder e riqueza extraordinária para quem sabe aproveitá-la, o chico-esperto comunista chinês. Por cima, isso resultou no empobrecimento e humilhação do Ocidente. Estamos, por isso, para além da paranoia, quase no reino da loucura. 

Bastava que mudassem os pressupostos da vida mental no Ocidente para que os seus povos mudassem muitíssimo mais a China, e por dentro, do que o contrário. A direita ocidental tem aqui, por isso, um campo de afirmação bastante fértil contando que saiba renovar e congregar o olhar sobre o mundo de povos de diferentes contextos: Europa, América do Norte, Brasil, Austrália, por aí adiante. Isso é fundamental porque do outro lado está um país enorme, tão fundamental quanto possível. 

Mudar a predisposição mental do mundo ocidental seria mais do que suficiente para esfrangalhar o papão chinês pela via legítima, a da frontalidade e sinceridade da crítica, para mais num momento que se arrasta no tempo em que o vírus chinês fez perder parte substantiva do crédito dos comunistas chineses, mesmo entre os ocidentais mais ingénuos. É por isso que a China não é, para o Ocidente, uma questão de guerra económica, muito menos de guerra militar. Tudo se resume à recuperação da sanidade mental coletiva do mundo ocidental após décadas e décadas de esquerdismo. 

Como todos os novos-ricos, o regime chinês ficará atarantado se confrontado com o regresso da liberdade crítica ao mundo ocidental. Embora congelada nos dias que correm, a liberdade é e continuará a ser a fonte de prosperidade de europeus e ocidentais, enquanto os chineses só prosperarão enquanto essa fonte estancada (ela nunca seca) por ação das universidades, escolas, comunicação social ou meios artísticos do Ocidente. 

Para se ter um contraponto, a África deixa muito evidente as enormes fragilidades do show off chinês, um país predador que, por isso, desgasta rapidamente as relações com os outros povos. Isso basta para percebermos que a China anda muitíssimo longe de algum dia poder dominar o mundo, uma vez que esse domínio é sempre bem mais do que económico. Dominar o mundo sustenta-se e alimenta-se, acima de tudo, do lado afetivo, emocional, cultural, do mimetismo dos outros em relação ao estilo de vida quotidiano da população do país dominante. 

A China possui uma parcela necessária, o poder económico, mas é o aspecto mais vulnerável e menos decisivo. Naquilo que é fundamental para dominar hoje o mundo, seduzir civilizacionalmente os outros povos, os chineses geraram anticorpos crescentes quando mais aumentam a sua influência económica, um beco sem saída. O escudo que lhes é oferecido pelas esquerdas – o de acusarem de racismo, xenofobia, discriminação a torto e a direito sempre que os ocidentais se desejam afirmar – não funcionou em África, por isso aí tudo foi ficando rapidamente difícil para os chineses, e no Ocidente começa também a ter os dias contados com o feliz regresso dos nacionalismos. 

Desde o tempo das lutas de libertação que os maoístas chineses se aproximaram dos movimentos independentistas africanos. Décadas depois, a China limitou-se a sugar sofregamente os recursos naturais de África, sem legar em troca nada de qualidade, seja material seja cultural. Arrasou florestas e zonas arborizadas, sugou recursos minerais e naturais, e não deixou construções de qualidade que se vejam, muito menos valores morais e civilizacionais, cultura, língua, conhecimentos, novas formas de trabalho, ensino ou governo. Só quinquilharia mental e material. 

Como hoje as sociedades africanas são cada vez mais autónomas na relação com os seus governos, as críticas dos indivíduos comuns à presença dos chineses em África são crescentes, uma rejeição social que já não se resolverá agradando ou subornando uns quantos líderes africanos. Assim sendo, a hostilização anti-chinesa em África tem campo social aberto. 

Até porque os africanos já podem comparar a presença chinesa no continente com o legado dos antigos colonos europeus e fazer os respetivos balanços. Nesse sentido, basta a direita ocidental cumprir o seu dever de dignificar a história colonial europeia e o legado deixado em África para os comunistas chineses terem de enfrentar um sério problema de rejeição em África, e a própria África internamente iniciar um processo de reinvenção profunda. 

Portanto, no âmago dos reequilíbrios do sistema internacional estão processos mentais coletivos e só num plano muito secundário estão as disputas económicas ou estratégicas propriamente ditas. Isso é por demais óbvio. De resto, a saúde mental de muitos dos outros povos asiáticos, traduzida no seu poder económico crescente, permite-lhes resistirem muitíssimo melhor ao conto do vigário chinês ao contrário da Europa paranoica que definha. 

Título e Texto: Gabriel Mithá Ribeiro, 27-10-2020 

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