quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O filtro de barro: quando até a sede aprendia a esperar nas cozinhas do Rio

Encostado num canto da casa, pingando gota a gota, ele atravessou gerações, refrescou verões cariocas sem eletricidade e virou memória afetiva de um tempo em que a água, a casa e a vida tinham outro ritmo


Bruna Castro

filtro de barro pode parecer hoje um objeto modesto, esquecido nos cantos da cozinha, mas ele foi — e em muitos lares ainda é — um dos protagonistas silenciosos da vida doméstica carioca. Não apenas um utensílio: um relicário de memórias e um símbolo sem querer da brasilidade cotidiana. Tenho que admitir isso embora tenha horror aquela água fresca com sabor de barro.

O filtro de barro que a maioria dos cariocas conhece é feito de argila vermelha moldada e cozida, com dois compartimentos: no superior a água “larga” lentamente, gota a gota, para o recipiente inferior, onde fica fresca e pronta para beber. Essa simplicidade é também sua magia. A porosidade da cerâmica mantém a água tipicamente cerca de cinco graus mais fria que a temperatura ambiente, sem precisar de energia elétrica — um luxo silencioso em tardes de calor que marcavam as rotinas de casa, em todos os cantos da cidade.

Essa peça aparentemente simples tem origens essencialmente brasileiras: embora técnicas de cerâmica e velas filtrantes tenham vindo de imigrantes italianos e portugueses, foi no interior de São Paulo, ainda no início do século XX, que a forma que conhecemos começou a ganhar corpo. O tradicional “filtro São João”, de barro vermelho com vela porosa, surgiu na década de 1920 e logo se espalhou pelo país, chegando às cozinhas cariocas, paulistas, mineiras e nordestinas. Mas no Rio ele se tornou antológico, muito antes dessa onda de comprar água mineral, que hoje virou uma espécie de mania.

E cada filtro era mais do que um objeto funcional: era marca de afeto e rotina. O som lento e quase hipnótico das gotas, o copo de alumínio sempre pronto no gargalo ou apoiado de lado, a conversa interrompida para “beber uma água fresca”. Ele acompanha gerações: foi presença constante nas cozinhas de casas com quintal, nas coloridas copas com azulejos coloridos dos apartamentos antigos, nos dias de visita de parentes, nas tardes pós-praia, nos verões intermináveis cariocas. Lembro do barulhinho enquanto fazia dever de casa na mesa da copa, com a toalha de plástico florida.

O design do filtro chegou a ser celebrado como ícone afetivo e funcional da produção nacional, um objeto que reúne sustância, história e memórias. Sem nunca ter sido pensado como peça de luxo, acabou virando símbolo de brasilidade — e, nos últimos anos, até ganhou versões repensadas por jovens ceramistas e apaixonados por design sustentável.  Mas o que conhecemos é gauche, com faixas vermelhas, sinônimo de casa de vó. 

Havia também o ritual. Trocar a vela do filtro. Lavar com cuidado para não deixar gosto. Desconfiar da primeira água depois da limpeza. E a certeza quase mística: “essa água é melhor”. Melhor que a da torneira, melhor que a da geladeira, melhor até que a engarrafada que viria depois. Melhor porque tinha confiança.

Hoje, com a ubiquidade de purificadores elétricos, água mineral engarrafada e modernidades tecnológicas, o filtro de barro passou a ocupar um lugar diferente: o de nostalgia viva. Não apenas pela eficácia ou pela água fresca que ainda pode oferecer, mas pelas lembranças que evoca: da casa da tia, da conversa ao redor da cozinha, da espera tranquila pelo próximo gole.

No Rio, poucos objetos cotidianos conseguem tão bem encapsular o velho adágio: não é sobre o que a gente tinha… é sobre como a gente viveu com aquilo. Talvez por isso ele desperte tanta nostalgia. Porque o filtro de barro não gelava só a água — esfriava o dia, organizava a rotina, criava pausas. Num Rio cada vez mais rápido, barulhento e quente, lembrar do filtro é lembrar de um tempo em que até a sede precisava esperar.

Título, Imagem e Texto: Bruna Castro, Diário do Rio, 7-1-2026 

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