Encostado num canto da casa, pingando gota a gota, ele atravessou gerações, refrescou verões cariocas sem eletricidade e virou memória afetiva de um tempo em que a água, a casa e a vida tinham outro ritmo
Bruna Castro
O filtro de barro pode
parecer hoje um objeto modesto, esquecido nos cantos da cozinha, mas ele foi —
e em muitos lares ainda é — um dos protagonistas silenciosos da vida doméstica
carioca. Não apenas um utensílio: um relicário de memórias e um símbolo sem
querer da brasilidade cotidiana. Tenho que admitir isso embora tenha horror
aquela água fresca com sabor de barro.
O filtro de barro que a
maioria dos cariocas conhece é feito de argila vermelha moldada e cozida, com
dois compartimentos: no superior a água “larga” lentamente, gota a gota, para o
recipiente inferior, onde fica fresca e pronta para beber. Essa simplicidade é
também sua magia. A porosidade da cerâmica mantém a água tipicamente cerca de
cinco graus mais fria que a temperatura ambiente, sem precisar de energia
elétrica — um luxo silencioso em tardes de calor que marcavam as rotinas de
casa, em todos os cantos da cidade.
Essa peça aparentemente simples tem origens essencialmente brasileiras: embora técnicas de cerâmica e velas filtrantes tenham vindo de imigrantes italianos e portugueses, foi no interior de São Paulo, ainda no início do século XX, que a forma que conhecemos começou a ganhar corpo. O tradicional “filtro São João”, de barro vermelho com vela porosa, surgiu na década de 1920 e logo se espalhou pelo país, chegando às cozinhas cariocas, paulistas, mineiras e nordestinas. Mas no Rio ele se tornou antológico, muito antes dessa onda de comprar água mineral, que hoje virou uma espécie de mania.
E cada filtro era mais do que um objeto funcional: era marca de afeto e rotina. O som lento e quase hipnótico das gotas, o copo de alumínio sempre pronto no gargalo ou apoiado de lado, a conversa interrompida para “beber uma água fresca”. Ele acompanha gerações: foi presença constante nas cozinhas de casas com quintal, nas coloridas copas com azulejos coloridos dos apartamentos antigos, nos dias de visita de parentes, nas tardes pós-praia, nos verões intermináveis cariocas. Lembro do barulhinho enquanto fazia dever de casa na mesa da copa, com a toalha de plástico florida.
O design do filtro chegou a ser celebrado como ícone afetivo e funcional da produção nacional, um objeto que reúne sustância, história e memórias. Sem nunca ter sido pensado como peça de luxo, acabou virando símbolo de brasilidade — e, nos últimos anos, até ganhou versões repensadas por jovens ceramistas e apaixonados por design sustentável. Mas o que conhecemos é gauche, com faixas vermelhas, sinônimo de casa de vó.
Havia também o ritual. Trocar
a vela do filtro. Lavar com cuidado para não deixar gosto. Desconfiar da
primeira água depois da limpeza. E a certeza quase mística: “essa água é
melhor”. Melhor que a da torneira, melhor que a da geladeira, melhor até
que a engarrafada que viria depois. Melhor porque tinha confiança.
Hoje, com a ubiquidade de
purificadores elétricos, água mineral engarrafada e modernidades tecnológicas,
o filtro de barro passou a ocupar um lugar diferente: o de nostalgia viva. Não
apenas pela eficácia ou pela água fresca que ainda pode oferecer, mas pelas
lembranças que evoca: da casa da tia, da conversa ao redor da cozinha, da
espera tranquila pelo próximo gole.
No Rio, poucos objetos
cotidianos conseguem tão bem encapsular o velho adágio: não é sobre o que a
gente tinha… é sobre como a gente viveu com aquilo. Talvez por isso ele
desperte tanta nostalgia. Porque o filtro de barro não gelava só a água —
esfriava o dia, organizava a rotina, criava pausas. Num Rio cada vez mais
rápido, barulhento e quente, lembrar do filtro é lembrar de um tempo em que até
a sede precisava esperar.
Título, Imagem e Texto: Bruna Castro, Diário do Rio, 7-1-2026


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-