Haroldo de Andrade, Sentinelas da Tupi, Apolinho e outras vozes que acompanharam o cotidiano doméstico, marcaram gerações e transformaram o rádio em presença constante nas casas cariocas
Bruna Castro
Muito antes de playlists, podcasts ou notificações no celular, havia um som constante que preenchia as casas do Rio de Janeiro. Um som que não exigia atenção total, mas que nunca desaparecia. Desde cedo, alguém girava o botão do rádio — e ele ficava ligado o dia inteiro. Na casa da avó, da tia, da vizinha. O rádio acompanhava a vida sem pedir licença, marcando o tempo da casa e, ao mesmo tempo, o ritmo da cidade.
Ele começava cedo, quase
sempre antes do café. A cozinha ainda acordando, a chaleira no fogo, o cheiro
de pão amanhecido — e a voz firme de Haroldo de Andrade ajudando
a organizar o mundo logo pela manhã. Aqueles debates discutiam absolutamente
tudo que se passava na cidade e no mundo. O rádio ficava em cima da geladeira,
no parapeito da janela ou num cantinho da área de serviço, ligado numa AM que
raramente mudava. Não era preciso escolher o programa certo: a casa
simplesmente vivia ao redor daquele som contínuo.
Ao longo do dia, o rádio atravessava tarefas domésticas quase invisíveis. Acompanhava o tanque de lavar roupa, o pano no chão, a panela no fogão. Havia um momento, porém, que todo mundo reconhecia. Quando começava o Sentinelas da Tupi, o rádio deixava de ser apenas companhia e passava a exigir silêncio. A conversa diminuía. A avó pedia para baixar a voz. A cidade entrava pela casa em forma de notícia, alerta, comentário. Era o Rio acontecendo em tempo real, ouvido da cozinha, da área, da sala com móveis escuros.
O rádio não falava de um Rio
distante. Falava do bairro, da rua, do que tinha acontecido poucas quadras
adiante. Da falta d’água, do caso policial. Era uma janela aberta para fora,
mas sem tirar ninguém de dentro de casa. Não por acaso, as vozes do rádio se
tornavam íntimas. Não eram comunicadores abstratos: eram presenças quase
familiares.
No fim da tarde, o tom
mudava. Washington Rodrigues falava como quem conhece o
ouvinte pelo nome, misturando informação e conversa, sem pressa. O rádio seguia
ligado enquanto o sol baixava, enquanto a casa mudava de ritmo, enquanto a
cidade esquentava lá fora.
Havia também o rádio da
indignação, do futebol, da paixão declarada pelo Rio. Apolinho entrava em
muitas casas como quem entra numa discussão de família: levantando a voz,
provocando, arrancando risos e reclamações. Mesmo quem dizia não gostar acabava
ouvindo. O rádio, afinal, não era democrático por escolha — era democrático por
presença.
À noite, para muita gente, a
casa só parecia realmente acordada quando o rádio continuava ligado. A voz
de Luiz de França – “rei” – marcava o fim do dia, acompanhava
o jantar simples, a louça sendo lavada, o descanso depois do trabalho. O rádio
ficava ali, resistindo ao silêncio, como se desligá-lo fosse admitir que o dia
tinha acabado de vez.
Mesmo quando a televisão já
dominava a sala, o rádio permanecia firme na cozinha ou na área. Ele não
competia com a imagem: cumpria outra função. Não exigia que ninguém parasse
para olhar. Permitía ouvir vivendo. Era um som que atravessava paredes, rotinas
e gerações.
Com o tempo, vieram novas
tecnologias, novas distrações e novas formas de consumir informação. Ainda
assim, algumas vozes mantiveram esse fio invisível entre casa e cidade. Clóvis
Monteiro e Roberto Canazio – “quem? O ator Peter
O’Toole?” – deram continuidade a essa tradição: a de um rádio que não
gritava para o ouvinte, mas conversava com ele, como quem sabe que está falando
para alguém que cozinha, varre, arruma, descansa.
O rádio ligado o dia inteiro
não era distração. Era contexto. Ele ensinava a ouvir o mundo enquanto se vivia
a própria vida. Criava uma paisagem sonora doméstica que hoje faz falta
justamente por ser invisível. Quando o rádio saiu do centro da casa, algo do
Rio também se deslocou. A cidade ficou mais silenciosa por dentro, mesmo
continuando barulhenta do lado de fora.
Talvez seja por isso que tanta
gente, ao ler sobre o rádio ligado o dia inteiro, pense imediatamente na casa
da avó. Porque ali o rádio não era nostalgia: era presença. Era companhia. Era
o Rio entrando devagar, sem alarde, pela porta da cozinha.
Título e Texto: Bruna Castro, Diário do Rio, 5-1-2026

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