segunda-feira, 25 de agosto de 2014

As taças, as vidas, os fundos de pensão e as vigas

José Manuel

A TAÇA JULES RIMET, que milhões adoraram, em 1972 fazia um tour pelo Brazil, e tive a honra de a levar sob a minha responsabilidade, para Belo Horizonte. Para os mais jovens que não tiveram a chance de a ver, pois lhes foi roubada a oportunidade de a conhecerem, era um pequeno troféu com 30 cm de altura, peso de 3,8 Kg, e com 1,8 kg de ouro maciço em um pedestal de lápis-lazúli com a inscrição dos países ganhadores das copas mundiais de futebol desde 1930. O Brazil teve o direito à sua posse definitiva com as conquistas após o tri-campeonato em 58, 62 e 70, e a taça, apesar de pequena, era linda, e uma joia com um passado incrível.

Durante a segunda guerra mundial, o troféu esteve sempre guardado dentro de uma caixa de sapatos, embaixo da  cama de um dirigente da Fifa, pois havia o temor de  que  fosse roubada pelos nazistas.

Em 1966, em uma exposição em Londres, ela foi roubada e sete dias depois devolvida, acreditando-se que tenha sido alguma jogada sensacionalista, pois a competição  desse ano foi exatamente realizada na Inglaterra quatro meses depois.

Mas foi no Brazil em 19 de dezembro de 1983, mais precisamente no Rio de Janeiro, que a carreira da pequena taça, mas de uma importância enorme para o esporte brasileiro, teve a sua apoteose triste e  uma mancha negra na sua longa história esportiva.

Ela e mais três taças, portanto quatro, foram roubadas de dentro da sede da  CBF pelos nossos Nóbeis em miserabilidade, Peralta, Barbudo, Bigode e Broa, que pelas alcunhas podemos reconhecer que tipos de pessoas eram e com que facilidades tiveram acesso à Confederação Brasileira de Futebol, pois para praticarem o delito, o " nobre Peralta " era dirigente esportivo e com acesso fácil ao prédio.

Não contentes com o roubo de tão importante troféu, ainda a derreteram jogando às chamas e ao lixo da história, 53 anos de glórias, suor e lágrimas.

Agora, em 22-08-2014, portanto 31 anos depois, a síndrome da pobreza de espírito e da miséria declarada voltou a atacar, quando foram roubadas desta vez as taças dos campeonatos mundiais de vôlei masculino e feminino, que nem nossas sequer são, pois apenas estavam aqui no Brazil, em um tour mundial de demonstração.

Portanto os campeões do próximo mundial de vôlei podem ficar sem as taças para levantar, graças aos nossos peritos técnicos, formados nas várias escolas de indigência, espalhadas pelo país.

Em 1983 nós éramos tri-campeões do mundo em futebol e desapareceram com o nosso troféu máximo. Em 2014 sediamos uma copa e perdemos feio, mas em 2016 será a vez das Olimpíadas e talvez não haja taças para entregar.

AS VIDAS neste país são roubadas diariamente aos milhares, e a impressão que se tem é a de que estamos em uma guerra civil permanente.

Segundo o portal ONU BR, 50 mil pessoas foram assassinadas no Brazil em 2012. Isto equivale a 10% dos homicídios no mundo o que é uma taxa elevadíssima para um país não declaradamente em guerra.
Nós não estamos na Síria, Iraque, Gaza ou países Africanos, mas as notícias do dia a dia são civilizadamente inaceitáveis em um país que se declara a sexta economia do mundo, gasta o que gastou sediando uma Copa, mas continua com índices alarmantes de miserabilidade.

Foi publicada esta semana a notícia dos gastos de turistas brasileiros no exterior em julho, que chegaram a impressionantes 2,415 bilhões de dólares.

Há algo inacreditavelmente errado por aqui, porque ao mesmo tempo em que se permite que roubem a vida de milhares de cidadãos inclusive a grande maioria sendo jovens, gastamos em turismo no exterior a escandalosa cifra de  cinco bilhões de Reais.

Que país é este? Não há como desenvolver um país com tamanho desperdício e é impossível a um país sério continuar com tamanha evasão de divisas, sem entrar em colapso econômico.

Não há horizontes de progresso aos jovens, as taxas de delinquência são altíssimas e, durante a copa do mundo houve uma perda de postos de trabalho da ordem de 86.000 vagas.

A indústria e o comércio estão sendo lentamente sucateados, retornando a níveis da década de 50, com apenas algumas " ilhas" multinacionais segurando a crise econômica.

Esse cenário devastador à sociedade pode ser percebido agora, que estamos em época de eleições, pelo número de jovens de comunidades pobres nas esquinas das ruas de nossas cidades, agitando bandeiras de partidos políticos, e isto nada mais é do que sub- trabalho, sub-utilização de mão de obra, sub-tudo.

Se o país quisesse realmente se desenvolver esses jovens estariam direcionados ao trabalho em condições desejáveis, produzindo riqueza para o país e tendo a sua condição social elevada a níveis de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)  satisfatórios. Ao contrário, estão sendo levados ao tráfico, a empregos ultrajantes, a condições inumanas de vida, caindo na ilegalidade, na informalidade, fazendo com que a criminalidade fique fora de controle.
Nosso ranking de IDH em níveis mundiais está em 79º lugar e isso é desanimador.

Um dos maiores problemas do Brazil, é o voto obrigatório, em que o cidadão não exerce o voto com consciência cidadã, pois desconhece o que seja isso, e não o sabe fazer. A pobreza espalhada pelo país, é um vasto campo para assistencialismos de todas as espécies, criando verdadeiros votos de cabresto entre essas populações pobres. Hoje em dia o voto obrigatório apenas existe em 31 países em um universo de 195 países reconhecidos pela ONU e, prática e democraticamente está em extinção.

Países como Portugal, de mesmo idioma, e Estados Unidos são exemplos de votos facultativos.
No voto facultativo, a indústria perniciosa do voto de cabresto simplesmente desaparece, pois o cidadão vota conscientemente ao saber o que determinado candidato fez ou vai realmente fazer pela sua sociedade. Coincidentemente, a criminalidade nesses países é baixíssima e as vidas dos seus cidadãos, ao contrário, são  altamente protegidas.

Os FUNDOS DE PENSÃO  tanto estatais como privados, onde o AERUS se encaixa, são exemplos calamitosos de como se gerencia mal um país em termos de poupança interna. A impressão que se tem é a de que os nossos alquimistas em economia nunca ouviram falar, nem tampouco saberiam aplicar, o que se segue abaixo;

A geração de um volume mínimo de poupança interna de forma continuada é um dos principais fatores de sustentabilidade do crescimento de uma economia. Esta poupança viabiliza os investimentos, que são canalizados ao setor produtivo por meio do sistema financeiro. Nesse contexto, devido à magnitude das somas administradas, os investidores institucionais, agrupados em fundos mútuos de investimentos, seguradoras e entidades fechadas de previdência privada, desempenham importante papel na formação de poupança interna.

Nos países considerados ricos, desenvolvidos, os fundos de pensão são as minas de Salomão de suas economias, as joias da coroa de seu desenvolvimento.
Aqui no Brazil, milhões desaparecem desses fundos, da noite para o dia, sem que o governo que é o principal ator na condução exemplar de medidas que visem a sua proteção, atue eficazmente. O fundo AERUS é um dos exemplos mais aberrantes e conhecidos dessa calamidade financeira.

Cidadãos  são orientados, incentivados, tanto pelo governo quanto por instituições financeiras, a participar de Fundos de Pensão, e ao final de uma vida de trabalho são pegos de surpresa, como os participantes do AERUS o foram, caindo numa armadilha torpe e covarde, e na maioria das vezes tendo que se desfazer de tudo que amealharam ao longo de seu processo laboral. Isto tem nome e chama-se roubo, nada mais que roubo qualificado e a justiça está aí para provar o que aqui está escrito, pelas atitudes que vem tomando, frente a esses problemas.

E  AS VIGAS DA PERIMETRAL?

Seis vigas de aço tiradas da Perimetral, com 40 metros e 20 toneladas cada, são roubadas. Foto: Estefan Radovicz/Agência O Dia

No início de 2013, a população Rio de Janeiro foi surpreendida pela notícia de que seis vigas da perimetral haviam desaparecido.
São seis vigas, cada uma com 20 toneladas, num total de 120 toneladas, fabricadas com um raro tipo de aço chamado " Aço Corten ", uma nobre mistura de aço, nióbio e cromo, feitas para durar 400 anos e com valor altíssimo em diversos mercados industriais.

Um ano depois, ninguém consegue saber ou explicar como elas "sumiram" sem deixar vestígios. Isso obviamente é roubo e o alcaide do momento não consegue explicar a seus cidadãos, como isso aconteceu dentro de um pátio da própria prefeitura.

Esse material é valiosíssimo e tem múltiplas utilidades, sendo inclusive utilizado em larga escala em obras de arte, pela sua beleza e patina natural.
Nunca mais foram vistas, mas ainda resta uma esperança. David Copperfield, o mágico que faz desaparecer coisas enormes, talvez tenha a solução, para o retorno delas.

O Brazil é um país extremamente interessante, pois foge com voluptuosidade do Brasil, e isso fica patente quando por exemplo sedia uma Copa de Futebol ou uma Olimpíada, mas não consegue ser Brazil, quando não dá aos seus cidadãos as condições para uma vida melhor, dentro de uma sociedade moderna, desenvolvida e justa. Os roubos se sucedem no Brasil em todos os setores, do político ao privado, em um crescente assustador e aqueles que podem muito, somados a um  funcionalismo público federal que ganha demais ou seja os que vivem no Brazil, não fazem compras no Brasil porque só se sentem cidadãos de primeira categoria quando compram em excesso no exterior exaurindo assim um pobre Brasil, que se encontra de volta a um passado longínquo e deitado eternamento em berço esplêndido.

Pobre Brasil, que se fantasia de Brazil quando empresta a quem não vai pagar ou perdoa as dívidas dos que deveria cobrar, para desfilar na passarela do primeiro mundo, aparecer por apenas alguns momentos e acorda novamente Brasil, fazendo com que os seus cidadãos vivam em uma constante e perene ressaca de valores tanto éticos como também morais.
As taças roubadas foram seis, as vigas roubadas também foram seis, e talvez a "cabala" consiga explicar o porquê desse número, mas uma coisa é certa. Somos Hexa, de carteirinha.
Título e Texto: José Manuel, ex-tripulante Varig, 25-08-2014

Um comentário:

  1. Meu caro amiguru JM, é sempre um prazer ler seus textos.

    Não sabia que você tinha levado a Jules Rimet para passear em Beagá.
    Devia ter tirado umas fotos com ela; hoje seriam verdadeiras relíquias. Imagine-se na foto, levantando taça e gritando: QUEREMOS O NOSSO DINHEIRO DO AERUS!!!

    ... "e derreterem a taça na maior cara de pau..." dizia um trecho do Samba Enredo da Caprichosos de Pilares de 1985. A pergunta é: Quem vai cunhar as medalhas de ouro e prata das Olim-piadas 2016? Deverá ser a Casa da Moeda mas certamente ficarão "guardadas" na Robauto da Feira de Acari, à disposição de qualquer aventureiro que queira lançar mão.

    Quem foi que disse que não estamos em guerra? Estamos em guerra sim, só que é uma guerra surda onde as balas vão sem bula, mas com endereço certo, "adereçando" corpos. Algumas, devido à inépcia e falta de acuidade visual dos não tão francos atiradores, se perdem mas, por ordem do "Chefe" criaram um tal de L&L do crime (Lost and Found), e então algumas são"achadas", infelizmente em pessoas que não tem nada à ver com as disputas territoriais de "bocas de fumo".

    Quanto ao turismo no exterior, especialmente em Miami, que é Flórida, como dizia o Dedo de Cobra; parece que criarão logo após as eleições, o Cheque Escandâlo e o Cartão Bobagens ambos com a bandeira "Woodface's" que não dá "bandeira" pois é dedicado à uma pequena fatia da população que empreende muitas compras no estrangeiro, incluindo refinarias "on sale", é claro.

    Aqui, as compras estão mais voltadas aos políticos que são os mais vendidos. Outras profissões também tem tido um bom preço mas, regateando sempre se tem um desconto maior. Lembranças e bugigangas são melhores compradas lá fora; afinal... dá status!!!

    Pois é, não lemos a bula do Aerus e sequer imaginávamos os efeitos colaterais que nos causaria a falta dele. Atualmente, leio até papel de bala para saber as informações. Será que o
    Aerus tinha prazo de validade e nós não demos conta de que expiraria e todo mundo "piraria" em 12.04.2006?

    Todas as vigas tem uma silhueta que chamam de "perfil" e estes seis "pequeninos" perfis em "H" de aço tipo Cortem já foram cortadas aliás, o nome estava pedindo e já fazem parte de um outro "portfólio", melhor dizendo acervo. Há "cervo" nisso? Viga sem vigia não vinga!!! Viga-rices à parte... tem de se ter é nervos de aço, né?

    O amigo nem precisou cursar Jornalismo ou Comunicação mas, seus textos são muito bem elaborados, pois desde o prólogo até o encerramento, nos prende à narrativa de um jeito jornalístico que expõe os fatos numa linguagem deveras instigante e inteligente, com o talento literário que lhe é peculiar.
    Parabéns por mais esse e que venham outros mais !!!
    Com a admiração do amigo, aquele abraço fraterno,
    Jonathas Filho

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