segunda-feira, 6 de junho de 2016

O fascismo tem mesmo origem no marxismo

O grande cisma dos ‘ismos’ tem novo capítulo. O autor português mais vendido na atualidade responde ao historiador António Araújo. No centro da discussão estão dois conceitos que marcaram o século XX

José Rodrigues dos Santos


O debate sobre as origens do fascismo, desencadeado pelos romances “As Flores de Lótus” e “O Pavilhão Púrpura”, mostra a importância da ficção na discussão de ideias. A literatura quer-se amiúde provocadora, capaz de nos interpelar e fazer pensar, pois por vezes obriga-nos a questionar a realidade, a pôr em causa noções e até valores, a concordar ou a discordar, a clarificar e a esclarecer conceitos e preconceitos. Flaubert fê-lo em “Madame Bovary”, Eça em “O Crime do Padre Amaro”, Orwell em “1984” e “Animal Farm”, D.H. Lawrence em “O Amante de Lady Chaterlley”, Saramago em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Caim”.

Os debates suscitados pela literatura têm tendência a ser apaixonados, e este a que assistimos não escapa à regra. Nada de anormal, pois, nas reações que os meus dois últimos romances têm suscitado. Já sei que vão aproveitar para dizer “olhem para ele, a equiparar-se a Eça e a Saramago e a Orwell” e mais não sei quê, mas é evidente que não tenho a menor pretensão de me comparar. Se os menciono é apenas para sublinhar que é normal os romances desafiarem consensos e suscitarem polémica. Já aconteceu no passado, está a acontecer agora e acontecerá no futuro. Ainda bem.

A isso há a acrescentar o facto de que estamos a lidar com conceitos que não são rigorosos nem consensuais, nem sequer entre os académicos. O que é exatamente o marxismo? É unicamente a tese inicial de Marx e Engels? As sucessivas revisões, protagonizadas por Bernstein, Kautsky, Sorel, Bauer, Lenine, Trotsky, Estaline, Mao e tantos outros, apresentando tantas e cada vez maiores diferenças entre elas e cada uma a reivindicar-se a legítima sucessora, podem ser consideradas marxismos? O que é o leninismo? O leninismo prevê a passagem direta do feudalismo para comunismo, como defendia Lenine até certa altura, ou prevê a fase intermediária do capitalismo, como Lenine pareceu defender quando posteriormente criou a NEP? E o que é o fascismo? Até que ponto um revisionismo ainda é marxista e a partir de que ponto deixa de o ser? A verdade é que nem os académicos se entendem sobre todas estas definições e catalogações.

O terreno é, por conseguinte, fértil para discussão. Encaro com naturalidade reações exaltadas de pessoas que tenham fé no sistema de ideias que qualquer livro coloque em causa, quer se trate de um sistema de natureza moral, religiosa ou ideológica, até porque os “crentes”, por assim dizer, têm um investimento emocional em tais assuntos e não é impunemente que se toca neles. De resto, conheci essa faceta pessoalmente quando o meu romance “O Último Segredo” questionou o Cristo apresentado aos fiéis e foi criticado com violência pela Igreja.

De todas as intervenções neste debate, a única que verdadeiramente me surpreendeu foi a do historiador António Araújo. Quando leio o texto de um académico, confesso estar mais à espera de uma exposição desapaixonada, lógica e estruturada, não de um panfleto inflamado com expressões a roçar o acinte (“tóxico”, “mitómano”, “pavorosa bibliografia”, etc.). Os debates intelectuais requerem elevação e podemos estar em desacordo sobre as ideias sem andarmos a achincalhar-nos uns aos outros. Poderia aliás neste particular António Araújo aprender com Francisco Louçã, que também me dirigiu um texto muito crítico, mas com elegância, graça e inteligência.

Agora as questões de substância, começando pelas acessórias.

António Araújo diz que num recente artigo que assinei para o “Público sustentei” que “o ‘fascismo alemão’ se chamava ‘nacional-socialismo’ por uma razão muito simples: o sufixo ‘socialismo’ significa que o nazismo é um movimento de origem marxista.” Além de ser uma tentativa pouco hábil de desviar a conversa para o nazismo, não me parece correto pôr-me na boca (ou no teclado) afirmações que não produzi. A associação entre socialismo e nacionalismo foi pela primeira vez feita pelo marxista Otto Bauer e a minha referência ao nacional-socialismo em fecho de artigo serviu para lembrar que a associação entre as duas palavras não é um acaso. Os fascistas opunham-se aos marxistas por vários motivos, mas não devido ao socialismo, que perfilhavam na versão nacionalista como o próprio Mussolini esclareceu e que consta da expressão nacional-socialismo.

Quanto às origens do nazismo, elas são variadas e tema de uma outra discussão que não me parece caber aqui. Mencionei numa entrevista ao “i” a eugenia como desempenhando um importantíssimo papel e Francisco Louçã, com a fineza e argúcia que lhe reconheço, logo insinuou haver aí uma contradição — ou o nazismo tinha as origens no marxismo ou na eugenia. Ora, as origens de um sistema de pensamento são em geral múltiplas e variadas, como acontece com o nazismo, sendo que esta ideologia não foi buscar a questão racial ao fascismo, mas à eugenia então em voga e ainda ao esoterismo e a tradições volkische alemãs.

Mas isso é outra conversa que nos afasta da questão central: tem ou não o fascismo origem no marxismo? Os críticos continuam sem desmentir os factos que expus na minha obra e que sucintamente mencionei no meu artigo no “Público” sobre este assunto. António Araújo acha que fiz aí uma “amálgama confusa de referências e factos históricos”, sem aliás negar um único desses factos e referências.

Devo dizer que se há alguma coisa de que me orgulho é de escrever de uma forma clara, mas se António Araújo ficou confuso vou fazer um esforço de ser ainda mais claro e assinalar esquematicamente os principais pontos da viagem intelectual do marxismo para o fascismo, um percurso feito em etapas, com sucessivas mutações, revisões e sínteses.

1. O marxista Georges Sorel defendeu que a revolução do proletariado prevista por Marx e Engels teria de ser provocada por uma vanguarda com recurso à violência.

2. A ideia de Sorel foi acolhida por alguns movimentos marxistas, como os bolcheviques na Rússia e os sindicalistas revolucionários em Itália.

3. O marxista Otto Bauer concluiu que o sentimento de nação era mais galvanizador do proletariado do que o sentimento de classe e propôs que se incutisse nacionalismo nos operários para os convencer a derrubar o capitalismo.

4. As ideias de Bauer entraram em Itália pela pena do marxista Roberto Michels e foram adotadas pelos sindicalistas revolucionários de Labriola.

5. Mussolini era um marxista elogiado por Lenine e diretor do “Avanti!”, órgão oficial do partido socialista italiano. Descreveu Marx como “o maior teórico do socialismo” e o marxismo como “a doutrina científica da revolução das classes”.

6. O entusiasmo manifestado em 1911 pelos operários italianos com as vitórias de Itália na guerra ítalo-otomana pela Tripolitânia convenceram Mussolini de que, de facto, o nacionalismo galvanizava mais os operários do que o conceito de classe.

7. Quando a Grande Guerra começou, em 1914, os sindicalistas revolucionários quiseram que a Itália entrasse no conflito pois acreditavam que seria ele que levaria o proletariado a desencadear a revolução. Ou seja, a guerra era revolucionária.

8. A 1 de outubro de 1914 os socialistas pró-guerra criaram o Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, o primeiro movimento fascista.

9. Mussolini começou por se manter fiel à linha do partido socialista italiano e opor-se à entrada de Itália na guerra, mas acabou por aderir às ideias dos sindicalistas revolucionários e advogar a guerra (a exemplo do que faziam os marxistas alemães, franceses e britânicos), o que lhe valeu a saída do partido e a adesão ao Fascio.

10. Depois da guerra, Mussolini e os sindicalistas revolucionários pró-guerra regressaram a casa e enfrentaram a hostilidade dos socialistas antiguerra.

11. Os socialistas pró-guerra empenharam-se então nos Fascios Italianos de Combate, que misturava nacionalismo com socialismo e juntava outros ex-combatentes, incluindo os arditi.

12. Os Fascios Italianos de Combate reivindicaram logo em 1919 o salário mínimo, o horário laboral de oito horas, o direito de voto para as mulheres, a participação dos trabalhadores na gestão das fábricas, a reforma aos 55 anos e a confiscação dos bens das congregações religiosas, reivindicações de clara origem marxista.

13. Os fascistas estabeleceram que a luta de classes não fazia sentido numa nação proletária (a Itália) que era explorada por nações capitalistas, e que, sendo a nação a “classe das classes”, a luta de classes apenas a enfraqueceria, pelo que em vez de luta teria de haver cooperação entre classes.

14. O Biennio Rosso de 1919-1920, com ocupações selvagens de fábricas e propriedades rurais, agravou o antagonismo entre as duas fações, ao ponto de os sindicalistas revolucionários evoluírem ainda mais e se apresentarem abertamente como sindicalistas nacionalistas e antimarxistas.

15. Mussolini esclareceu que o fascismo se opunha ao marxismo não por este ser socialista, mas por ser antinacional.

A pergunta é muito simples: qual destes pontos é falso? Como nenhum deles foi desmentido, presumo que sejam todos dados como verdadeiros. António Araújo limitou-se a argumentar que a exposição destes factos “pode conduzir a conclusões erradas”. Conclusões erradas? Não. Os factos conduzem às conclusões certas — e esse é que é o problema.

Que os sindicalistas revolucionários, provenientes do partido socialista italiano marxista, estão na génese do fascismo é um facto indesmentível. Historiadores como Sternhell, Sznajder e Ashéri, depois de passarem centenas de páginas de “Naissance de l’idéologie fasciste” a analisarem os sucessivos revisionismos que a partir de uma corrente marxista criaram o fascismo, não hesitam em dizer que “é o sindicalismo revolucionário que fornece ao fascismo nascente o seu conteúdo ideológico.” O mesmo constatou James Gregor em Marxism, Fascism and Totalitarianism. “O apelo de Mussolini ao sentimento nacional (...) baseia-se num corpo de literatura no qual Mussolini estava familiarizado — literatura essencialmente marxista na origem”, escreveu este historiador, concluindo: “Por 1925, tanto o leninismo como o fascismo, variantes do marxismo, tinham criado sistemas políticos e económicos que partilhavam propriedades singulares” (itálico meu). Está claro?

Como a questão das origens marxistas do fascismo cria desconforto, pois limitei-me a dizer uma verdade inconveniente, procurou-se a todo o custo transportar o debate para a fase madura do movimento fascista, insistindo-se que o fascismo não era marxista (como se eu alguma vez tivesse defendido que era). Estou de acordo que na sua fase madura não era — mas é uma mera opinião.

Há historiadores que consideram que o fascismo, mesmo nessa fase quando já se declarava antimarxista, continuava a ser uma corrente marxista revisionista. Acham esses historiadores que não existe um marxismo mas muitos marxismos, uns mais revisionistas do que outros em relação à tese original de Marx e Engels, e que o fascismo é apenas uma das versões mais heréticas do marxismo. Ainda que aceitando a legitimidade de tal conclusão e reconhecendo que as duas correntes mantinham de facto pontos em comum, os argumentos aduzidos não me parecem convincentes, razão pela qual não acho, nem nunca afirmei, que na sua fase madura o fascismo fosse marxista.

O que eu afirmei, e mantenho, é que as origens do fascismo estão no marxismo. Depois de proclamar que julgo ter feito “descobertas revolucionárias, assombrosas” sobre o assunto, António Araújo constatou, e referindo-se a mim, que afinal... afinal... “nada apresenta de novo”. Ah! Estamos de acordo! O estabelecimento do marxismo como origem do fascismo não é de facto novo, pois a ligação é feita pelos próprios historiadores, não por mim. Quando digo que estas matérias são novas, são-no apenas para o público em geral (e pelos vistos também para alguns “intelectuais” da nossa praça), que só agora deve ter ouvido dizer que Mussolini era originalmente um marxista elogiado por Lenine ou que o fascismo tem as suas origens no marxismo. Como sempre, sou um divulgador — e eficaz, como se vê.

Então qual a prova dos factos? Ao fim de toda uma esforçada argumentação a expor dados que nunca pus em causa e disfarçando com graçolas sobre as influências de Newton no nazismo e penáltis do Beira-Mar, e ainda alusões despropositadas à Wikipedia, que pelos vistos é uma das suas referências bibliográficas, e alegando que isso não quer dizer nada “do ponto de vista historiográfico ou poliotológico”, António Araújo lá acabou por reconhecer que “dizer que ‘o fascismo tem origem no marxismo’ estará correto, num certo sentido”.

Ah!
Título, Imagem e Texto: José Rodrigues dos Santos, Expresso, 5-6-2016

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7 comentários:

  1. Belíssimo texto.
    Como sou chato vou discordar das origens do marxismo e do fascismo aqui relatadas.
    Eu gostaria de saber porque respeitam tanto a religião?
    Porque se negam a ver suas mazelas na humanidade?
    As reduções dos jesuítas pelo mundo foram as primeiras comunas formadas.
    Escravizando povos incultos da época em nome de deus e enriquecendo as burras eclesiásticas.
    O início do socialismo está no empirismo de Francis Bacon, religioso por demais, contrariou os princípios aristotélicos e platônicos.
    Dizia Bacon:
    Para se evitarem revoluções. "O meio mais seguro de evitar sedições é afastar a causa; porque se o combustível estiver preparado, é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo. Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é, da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas; porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los, e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação. A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento.
    As causas e motivos das sedições são as inovações na religião; os impostos; as modificações de leis e costumes; o cancelamento de privilégios; a opressão generalizada; o progresso de pessoas indignas, estranhas, as privações; soldados desmobilizados; facções desesperadas; e tudo aquilo que, ao ofender um povo, faz com que ele se una em uma casa comum.
    "A sugestão de todos os líderes, claro, é dividir seus inimigos e unir os amigos. "De modo geral, é dividir e enfraquecer todas as facções contrárias ao Estado, e colocá-las longe uma das outras, ou pelo menos semear a desconfiança entre elas, não é um dos piores remédios; porque é desesperador o caso em que aqueles que apoiam o governo estão cheios de discórdia e cisões, e os que estão contra ele estão inteiros e unidos." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma distribuição equitativa da riqueza:
    "O dinheiro é como o esterco, só é bom se for espalhado."Mas isso não significa socialismo ou, mesmo, democracia;
    Bacon não confia no povo, que na sua época praticamente não tinha acesso à educação; "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo".
    O que Bacon quer é, primeiro, uma pequena burguesia de proprietários rurais; depois, uma aristocracia para a administração; e acima de todos, um rei-filósofo. "Quando não há exemplos de que um governo não tenha prosperado com governos cultos."

    Quero dizer que a filosofia socialista já era pregada pela Igreja católica desde os anos 1600.
    Mais ou menos o que fazem todos partidos socialista.
    Para o partido e para a Igreja e seus apaniguados tudo, para o povo inculto, escravizado e pobre as quirelas.
    Se não é do estado é contra.
    Fui...

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  2. O primeiro livro "As Flores de Lótus" recomendo.
    http://www.caoquefuma.com/2015/11/as-flores-de-lotus.html

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  3. Ainda sobre a convergência entre comunismo e fascismo

    Receio ter de recordar que não existe nada de novo na asserção de que são comuns as origens intelectuais do comunismo, do fascismo e, já agora, do nacional-socialismo nazi.

    Creio que deve ser bem-vindo o debate que tem ocorrido entre nós sobre a relação intelectual entre comunismo e fascismo. É um dos raros debates sobre teoria política que adquiriu alguma permanência na nossa comunicação social. Esta raridade pode ser preciosa. Mas é também seguramente muito reveladora.

    Um dos aspectos mais reveladores — e até certo ponto intrigantes — reside na surpresa, até indignação, de tantos comentadores perante a alegada “novidade”: como é possível “inventar” uma comum genealogia intelectual entre comunismo e fascismo? Na verdade, este tem sido o motivo principal da indignação: a hipótese de existir uma comum origem intelectual entre fascismo e comunismo (mais, com efeito, do que a questão bizarra de saber qual deles veio primeiro, se o ovo se a galinha).

    Receio ter de recordar que não existe nada de novo na asserção de que são comuns as origens intelectuais do comunismo, do fascismo e, já agora, do nacional-socialismo nazi. Essa era e é a visão clássica sobre os totalitarismos na cultura política dos povos que mais lhes fizeram frente: os povos de língua inglesa.

    Infindável bibliografia podia ser citada para ilustrar essa denúncia das raízes comuns do comunismo e do fascismo. Três livros são no entanto incontornáveis: The Good Society, de Walter Lippmann, em 1938; O Caminho para a Servidão, de F. A. Hayek, em 1944; e A Sociedade Aberta e os seus Inimigos, de Karl Popper, em 1945 (os dois últimos foram recentemente publicados entre nós, pelas Edições 70, e tive o privilégio de os prefaciar).

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    1. Mas, em termos directamente políticos, foi Winston Churchill quem no século XX melhor exprimiu essa comum acusação contra os totalitarismos. Churchill foi anti-comunista feroz desde pelo menos a revolução soviética de 1917 e, como se sabe, anti-nazi feroz desde os primeiros sinais do nazismo alemão. Em 1924, quando abandonou a bancada Liberal para regressar à Conservadora (de onde saíra em 1904), apresentou como principal motivo a crescente hesitação dos liberais face ao colectivismo de esquerda.

      No início da guerra civil em Espanha, em 1936, declarou no Parlamento que se recusava a tomar partido por qualquer dos lados, que acusou de serem igualmente despóticos. Ao longo da década de 1930, fez inúmeros discursos contra os dois totalitarismos, comunista e nacional-socialista. Após a II Guerra, em 1946, foi o primeiro a denunciar publicamente a “Cortina de Ferro” soviética.

      Em 1932, vendo crescer os dois movimentos totalitários no continente europeu, Churchill decidiu começar a escrever Uma História dos Povos de Língua Inglesa. Só conseguiu terminar a obra (em quatro volumes) em 1956. Foi o último dos seus mais de 40 livros. E foi o que demorou mais tempo a escrever. Mas nunca desistiu de o concluir. Numa carta a um dos seus colaboradores em 1938, observou:

      “No essencial, o tema central do livro está a emergir: o crescimento [entre os povos de língua inglesa] da liberdade e da lei, dos direitos do indivíduo, da subordinação do Estado às concepções morais fundamentais da comunidade. […] Por isso eu condeno a tirania, qualquer que seja a versão em que se apresente. E isso tem obviamente aplicações directas na situação política actual”.

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    2. Recordemos, apenas a título de exemplo contrastante, as palavras de Marx e Engels no Manifesto Comunista de 1848:

      “A abolição [da sociedade burguesa] é chamada pelo burguês como abolição da individualidade e da liberdade. Com toda a razão. O que temos em vista é a abolição da individualidade burguesa, da independência burguesa e da liberdade burguesa. Nas presentes condições de produção burguesas, liberdade significa comércio livre, liberdade de vender e de comprar. […] O proletariado usará a sua supremacia política para retirar gradualmente todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante.”

      Oiçamos agora Mussolini, no seu artigo de 1932 na Enciclopédia Italiana, sobre “A doutrina do fascismo”:

      “A concepção fascista é a favor do Estado; e é a favor do indivíduo na medida em que este coincide com o Estado, que é a consciência e vontade universal do homem na sua existência histórica. […] O fascismo é a favor da liberdade, da única liberdade que pode ser real, a liberdade do Estado e do indivíduo no seio do Estado. […] Por isso, para o fascista, tudo está no Estado e nada de humano ou espiritual existe, muito menos tem valor, fora do Estado. Neste sentido, o Fascismo é totalitário e o Estado Fascista — a síntese e unidade de todos os valores — interpreta, desenvolve e dá força à totalidade da vida do povo.”

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    3. Estas breves passagens de Marx/Engels e Mussolini recordam um dos pontos cruciais que uniu os totalitarismos do século XX: o culto do Estado, do poder ilimitado do Estado. Contra esse culto do Estado, disse Churchill em 1938:

      “Não temos nós também uma ideologia própria — se tivermos de usar essa palavra horrível, “ideologia” — na liberdade, numa Constituição liberal, no governo democrático e Parlamentar, na Magna Carta e na Petição de Direitos?”

      Como procuro argumentar mais detalhadamente num livro que será dentro de dias publicado pela Routledge de Londres (The Anglo-American Tradition of Liberty: A view from Europe), não penso que a principal questão que levou Churchill a opor-se ao comunismo e ao nazismo tivesse sido em primeiro lugar uma questão de “doutrina ideológica”.

      O que chocou Churchill foi precisamente a ambição revolucionária — tanto do nacional-socialismo e do fascismo, como do comunismo — de reorganizarem a vida social a partir do Estado, impondo aos modos de vida existentes um plano dedutivo, baseado numa ideologia total, um esquema de perfeição. No cabo Hitler, no ex-socialista Mussolini, e nos ideólogos comunistas Lenine e Estaline, o aristocrata Winston Churchill viu o fanatismo grosseiro daqueles que queriam destruir todas as barreiras ao exercício da vontade arbitrária: barreiras do Governo Constitucional, da religião judaico-cristã, do cavalheirismo, das liberdades cívicas, políticas e económicas, da propriedade privada, da família, e de outras instituições civis descentralizadas.

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    4. Neste, como aliás em muitos outros aspectos, Churchill foi sobretudo um representante e um porta-voz da cultura política dos povos de língua inglesa. Por esse motivo, os partidos comunistas nunca elegeram um único deputado nacional nos EUA, na Austrália ou na Nova Zelândia. No Canadá, terão eleito um (Fred Rose, mais tarde detectado como espião soviético). Em toda a história parlamentar do Reino Unido, conseguiram eleger cinco deputados (dois em 1922, um em 1935, dois em 1945), num Parlamento com mais de seiscentos lugares. Quanto aos partidos fascistas, nunca elegeram um único deputado nacional naqueles países.

      Eis, creio eu, o que poderia constituir um tema verdadeiramente intrigante entre nós…
      Título e Texto: João Carlos Espada, Observador, 13-6-2016

      http://observador.pt/opiniao/ainda-sobre-a-convergencia-entre-comunismo-e-fascismo/

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