quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Metamorfose irreversível

Aparecido Raimundo de Souza

No nosso tempo de grupo escolar, ou mais precisamente no primário, nos cafundós de 1963, aos dez anos, ficávamos felizes quando, antes de entrarmos para as salas de aulas, os professores reuniam todas as turmas da manhã (horário que começava às sete horas e encerrava ao meio dia em ponto, com meia hora de intervalo) no pátio, para o hasteamento da Bandeira Nacional.

Empertigados, em posição de sentido, parecíamos soldados formados em enormes tropas miliares tais e quais víamos nas datas comemorativas do 7 de setembro.  Não era permitido desviar as vistas para os lados, rir, fazer piadas, gracinhas, ou errar uma estrofe que fosse do inimitável e soberbo Hino Nacional.

Ai daqueles destrambelhados que trocassem as margens plácidas por “margens prácidas”, ou um desce por um “dece”. Com certeza, castigos na certa. Naqueles idos, senhoras e senhores, prevaleciam as vozes dos professores. As suas figuras de educadores eram por demais respeitadas. O que falavam se transformava em leis. Por esse motivo, para alguns moleques, o ir e vir da escola, se constituía num encanto, para outros, um inferno.

Uma série de castigos se faziam presentes, se a criatura fizesse algo que não estivesse dentro dos conformes. Por exemplo, promover algazarras na hora das chamadas. Brincar durante os horários das aulas, ou quando algum professor estivesse explicando uma matéria nova. Essas “maculações”, ou dito de outra forma, essas “punições” variavam, dependendo do grau das desobediências.

Uma vez, ficamos a aula inteira do professor Roberto (que lecionava artes) com as butucas fixas nas paredes, porque escondemos as chaves do seu fusquinha e um coleguinha filho da puta nos delatou. Nesse dia, o professor Roberto precisou interromper a aula, para socorrer a esposa, que entrara em trabalho de parto do primeiro filho. De outra feita, sem recreio, uma hora de joelhos sobre grãos de milho, por sermos pegos em flagrante espiando as garotas pelos vitrôs que acessavam os banheiros femininos.

Bons tempos! Momentos que não voltam mais. Instantes saudosos que se perderam nas voragens do inexorável. Em dias atuais, os mentores não passam de figuras cênicas. Não são respeitados, pelo contrário, se levantarem a voz um pouco além do normal, apanham, são espancados. 


Os antigos “mestres” perderam suas autoridades. O brilho eloquente das suas manifestações, em salas de aula, escorreu pelo ralo. A razão de viverem em prol de uma causa, somada a vontade de ensinarem, tudo se transformou, infelizmente, em vagas lembranças.

A imprensa (escrita, falada e televisada) dá conta, todos os dias, dos maus tratos aos professores. Vivemos um caos nas escolas, onde os alunos se transformaram em bandidos. Quantos professores chegaram a óbito dentro de seus locais de trabalho?


No nosso ontem (voltando ao Hino Nacional), ao ouvirmos, fosse onde fosse, nos colocávamos, imediatamente, em posição de sentido. Fazia parte do nosso rito, da nossa honra, do nosso patriotismo. Sobretudo, da nossa moral. Afinal de contas, senhoras e senhores, aquelas estrofes cantavam com sentimento elevado, as belezas e os enfeitiços da nossa terra.  

Sessenta e três anos depois, kikiki, o Hino pátrio virou, para nós, uma merda só.   Em face, evidentemente, desses quadros repletos de falcatruas que vemos todos os dias espalhados por aí, notadamente no Epicentro Brasília. Hoje temos um Brasil de vândalos, de pilantras, de sanguessugas da pior espécie. Atrelados nessa certeza, ingerimos uma garrafa inteira de coragem.

Munidos dela, partimos para uma entrevista com os autores do Hino Nacional. Pedimos, após longo papo, autorização, por escrito, aos autores, para darmos uma ajeitadinha na letra, adequando os versos à nossa realidade. Para as senhoras e os senhores, em primeira mão, o nosso “INO IRRACIONAL”. Esperemos que apreciem.        

“Inoh Irracional”

Música: Joaquim Suspensório Duque Avenida.
Letra: Seu Chico Malnãoel da Silva. 

EM TEMPO: COMO DISSEMOS, AS PEQUENAS E QUASE INVISÍVEIS MODIFICAÇÕES aqui introduzidas na letra (não na música) do Hino Nacional, foram autorizadas, por escrito, por seus autores. Do contrário, não teríamos como, nem nos assistiriam porquês, trazê-las ao conhecimento do grande público. Esperemos, pois, que as pessoas gostem, alertando que aceitamos outras opiniões, desde que estas não contrariem o bom senso da obra em sua originalidade.

Ouviram do Ipiranga as margens cheias de balas perdidas
De um povo de mãos atadas o brado estressante,
E o sol da Sacanagem, em raios amarelos
Brilhou no céu do inferno neste instante.

Se o penhor da desigualdade
Conseguimos conquistar com braços magros,
Em teu seio, ó Fragilidade
Desafia a nossa paciência até a morte!
Ó Pátria americanizada,
Esfomeada,
Salve! Salve-se quem puder!

Brasil, um sonho morto, um raio que os parta
De amor e de Fernandinhos Beira Mar a terra enlouquece,
Se em teu formoso céu tristonho e sujo,
A imagem da fome negra resplandece.

Gigante pela própria incerteza
És belo, és forte impávido Titanic,
E o teu futuro espelha tantas mortes infantis

Terra esfomeada
Entre outras mil,
És tu, Brasil, o Pátria despatriada!
Dos filhos deste solo és mãe inútil
Pátria esfomeada
Brasil.

Deitado eternamente em berço donde nascem pilantras
Ao som do mar e a luz de um céu sem cores,
Fulguras, ó Brasil, florão de Bush
Iluminado ao sol do eterno FMI!

Do que a terra mais empobrecida
Teus risonhos lindos campos têm mais invasões do MST;
“Nossos bosques têm mais bandoleiros e espiões”
“Nossa vida” no teu seio tantos horrores.
Ó Pátria falida,
Esfomeada,
Salve! Salve-se quem puder!

Brasil, das falcatruas eternas, sejas símbolo
Dos colarinhos brancos que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro José desta flâmula
- Mais corrupção no futuro e viva os Lalaus que atuaram no passado.

Mas, se ergue da justiça a clava da propina
Verás que um deputado teu não dorme sem uma puta,
Nem teme, quem te vigie a própria sobrevivência,
Terra pisoteada
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria despatriada
Dos filhos deste solo é mãe inútil
Pátria esfomeada
Sacanearam tanto... Que sumiu...

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Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souzajornalista, Rio de Janeiro, 25-1-2017

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Um comentário:

  1. Sinto saudade desse tempo também, onde imperava o respeito, mas hoje tudo, virou um desrespeito total, nossa pátria amada Brasil, hoje esta exatamente como vc descreve nessas palavras na versão do hino nacional, parabéns excelente texto Aparecido abrs. Carla

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