sábado, 13 de maio de 2017

Fátima, um assunto que não me diz respeito

Alberto Gonçalves

É de notar que, com típica valentia e apreciável objetividade, o ateísmo militante não rejeita todas as religiões de igual modo. Na maioria dos casos, limita-se a rejeitar o cristianismo e o judaísmo

Primeiro, a declaração de desinteresses: exceto por um professor no ciclo preparatório, nunca conheci um padre. Já vi padres, sei que existem, mas nunca falei com um ou sequer lhe fui apresentado. Parece esquisito e, num país no fundo católico, se calhar é esquisito. Mas o facto ilustra a distância a que cresci da religião, organizada ou desorganizada. Nunca frequentei a catequese. Nunca assisti a uma missa “regular”, das que não são cerimónia matrimonial ou fúnebre. Nunca experimentei apelos espirituais. Nunca passei pela Cova da Iria. E nunca me julguei superior por isso.

Ser ateu, à semelhança de não ser sócio da Académica de Coimbra, é um acaso e um estado de omissão, que não implica qualquer opinião depreciativa sobre o seu oposto (antes que me peçam satisfações ou o escalpe, juro não sentir nenhuma repulsa pela Académica de Coimbra). Se tanto, o que a religião me suscita é indiferença. Curiosamente, inúmeros ateus discordam e transformam a mera ausência de fé numa fé inabalável, ia escrever cega, na razão deles. Nos tempos que correm, há gente altamente empenhada em enxovalhar os crentes e, possivelmente por ganharem à comissão, convertê-los à descrença.

É engraçado que o proselitismo ateu queira chamar a si pessoas que à partida considera rematados idiotas, um contrassenso que estranhamente escapa a criaturas tão brilhantes. É engraçado que muitos dos ateus em causa se aflijam com os crimes da Igreja e em simultâneo ignorem o rastro de sangue das variantes “clássicas” ou contemporâneas do credo marxista, das quais observam com rigor os respectivos dogmas e sacramentos. Porém, verdadeiramente hilariante é que o próprio ateísmo tenha assimilado os padrões, as regras e as estratégias da religião convencional. Quando bandos de ociosos decidem imitar os evangélicos e enfeitar autocarros de quinze países com a frase “There’s probably no God”, sabemos estar no limiar da comédia involuntária. Porém, quando a campanha apenas se circunscreve a países ocidentais, começamos a suspeitar que nem tudo aqui é cómico e involuntário.

Convém notar que, com típica valentia e apreciável objetividade, o ateísmo militante não rejeita todas as religiões de igual modo. Na maioria dos casos, limita-se a rejeitar o cristianismo e o judaísmo, leia-se os credos “familiares” à civilização que permite a militância. Os credos restantes, talvez a título de exóticos, talvez por receio de camiões desgovernados, são normalmente poupados à sobranceria. Se não fosse absurdo, uma pessoa ficaria com a impressão de que estes peculiares ateus se ofendem menos com o culto do divino do que com as sociedades em que o divino não é omnipresente na vida “material”. Se não fosse absurdo, uma pessoa ficaria com a impressão de que o problema destes peculiares ateus é com a liberdade. Se não fosse absurdo, uma pessoa ficaria com a impressão de que estes particulares ateus não prezam excessivamente o ateísmo.

Sendo absurdo, mesmo assim algum ateísmo não disfarça a aversão que lhe suscita um lugar como Fátima. Para um ateu comum, Fátima foi uma reação da Igreja ao anticlericalismo da época, aliás decalcada de Lourdes até à minúcia: o contexto jacobino, a área remota, as crianças pobres, a sincera ou simulada hesitação inicial das autoridades eclesiásticas, etc. – o resto é respeitável e é com cada um. Para um ateu militante, Fátima é uma exibição de primitivismo, um desfile de sacrifícios sem sentido, uma exploração de crendices, uma manipulação comercial, em suma um horror, palavra raramente aplicada ao misticismo oriental ou às cerimónias tribais da Papuásia. E sobre Meca, por motivos óbvios, a deferência impera.

No centenário das aparições, se quiserem sem aspas, Fátima recebe o Papa e, por cá, metade dos ateus militantes aproveita sem surpresas para se aliviar de desprezo e chalaças. Surpreendentemente ou não, a metade que sobra decidiu mostrar uma inédita “compreensão” do fenómeno. Porquê? Porque o rebuliço “jornalístico” alimenta a propaganda oficial e porque o Papa em questão ocasionalmente se deixa confundir com um esquerdista. Pelos vistos, e eis o quarto milagre de Fátima, certos ateus toleram a religião em prol do socialismo. Eu não tolero o socialismo a troco de nada: há dois dias que não ligo a televisão.

Notas de rodapé

1. Após incensar Rui Moreira durante quatro anos, bastaram algumas horas – e uma humilhação merecida – para que o PS invertesse o discurso e passasse a considerar o autarca um perigoso antidemocrata, cuja ação maligna reduzirá o Porto a cinzas. É sabido que a política é propícia à conveniência, à mentira e à falta de vergonha na cara. Mas isto é espetacular.

2. O presidente Marcelo confessa-se “apaixonado pelo Papa”. Sua Excelência, a acreditar em notícias soltas, também parece apaixonado pelos portugueses com sucesso, pelos portugueses sem abrigo, pelas imortais vitórias na bola, por Guterres, pelas feiras de enchidos, pelos falecidos comunistas Baptista-Bastos e Fidel Castro, pelo recém-nascido Macron, pela nova administração da CGD, pela comunidade islâmica indígena, pelas esposas de Cavaco e Sampaio, pelo Benfica, por Cabo Verde e Senegal, pelo espírito ecuménico da pátria, pelos bombeiros, pelo Teatro Aberto e, claro, pelo governo.

O governo, ainda que de modo mais comedido, mostra-se igualmente apaixonado por Marcelo, por Guterres, pela “aposta” na ciência, pelos parceiros de extrema-esquerda, pelos senhores da banca, pelas Águas do Ribatejo, pela função pública, pelo Benfica e por qualquer indivíduo ou instituição que não lhe cause maçadas. Os “media”, genericamente, estão apaixonados pelo Papa, por Marcelo, pelo governo, por tudo o que seja informação “positiva” e pelos portugueses. Os portugueses estão apaixonados pelo Papa, por Marcelo, pelo governo, por Guterres, pelo Benfica, por Cristiano Ronaldo, pelo intérprete de uma cantiga na Eurovisão, pela fisga de Joana Vasconcelos, pela “maior operação de segurança de sempre” e pelo que calha.

Quase todos, em suma, estão apaixonados por quase todos. Há imenso amor no ar. Comparado com isto, o mito de que a orquestra do Titanic tocava uma valsa em tom menor durante o naufrágio é brincadeira de crianças. Nós somos gente crescida, que cantará o fado e dançará o vira mesmo depois de o país afundar. O que é que os portugueses andam a tomar? Juízo não é, com certeza.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 13-5-2017

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