quinta-feira, 21 de maio de 2020

[O cão tabagista conversou com...] Mithá: “O meu destino ficou traçado pelo processo de transição da era colonial para a independência de Moçambique, em 1974-1975. Foi no final da minha infância.”

Nome completo: Gabriel Sérgio Mithá Ribeiro

Nome de Guerra: Mithá. Provém do hindi e quer dizer doce.

Mithá é o sobrenome acarinhado na família e proveniente do lado materno. O meu avô chamava-se Omar Mitha. Nasceu em Jamnagar (Estado Gujarate, Índia), provavelmente originário do Paquistão, justamente do Estado paquistanês Mitha, próximo do território indiano. Pertencia à minoria islâmica em terra de hindus e emigrou da Índia para a África nos inícios dos anos trinta, provavelmente em direção a uma das colónias inglesas (Rodésia do Sul/Zimbabwe ou Rodésia do Norte/Zâmbia).

Suponho ter sido uma das vítimas da Grande Depressão iniciada em Nova Iorque, em 1929. Mas como aportou na costa moçambicana do Índico e pretendia rumar ao interior do continente em direção às colônias inglesas, os portugueses, como chegaram primeiro que os ingleses, ficaram com o litoral Atlântico e Índico, esse meu avô acabou por se fixar do lado de cá da fronteira, ainda em Moçambique.

Levou com ele duas filhas, depois enviadas para familiares fixados na Rodésia do Sul.

Solitário no lado moçambicano, no Fingoè, interior da província de Tete, montou o seu negócio, construiu uma loja/casa e casou-se com a minha avó materna, Mariamo Ismael Taíbo, miscigenada entre africanos e gentes do Índico.


A minha mãe, Juleca Omar Mithá, foi a primogênita (1934-2008). Não conheci esse avô materno do nome doce por ter falecido em 1958. Quando a minha mãe, as suas duas irmãs e o seu irmão mais novo foram registados pela então administração colonial portuguesa, em Moçambique, o sobrenome passou de Mitha a Mithá. A nova sonoridade não ficou pior e, mais não seja por isso, não foi opressão colonial.

Ou único problema de tal linhagem materna é viver debaixo da ameaça do furor cancerígeno. Por aí estou ferrado. Sempre que regressei a Moçambique depois de 1997 e pude ir ao Fingoè, procuro a campa do meu avô e faço-lhe a devida homenagem.

Numa das ocasiões fui com o meu tio, Ismael Mithá, falecido recentemente, que me mostrou os restos das fundações da casa onde nasceram e viveram, o que então me emocionou.

Toda aquela terra fértil e próspera para a agricultura e para os negócios foi simplesmente varrida do mapa pela guerra civil entre comunistas (Frelimo) e tradicionalistas (Renamo) que gerou a mais dramática hecatombe moçambicana de sempre, entre 1976/1977 e 1992. No mínimo um milhão de mortos e uma destruição humana e material sem precedentes, quando a guerra colonial anterior entre os portugueses e a Frelimo (1964-1974) tinha matado cerca três mil militares e instigado o maior desenvolvimento de sempre da colônia, apesar do chinfrim da esquerda orquestrada pelos soviéticos e americanos progressistas. Não há palavras para o comunismo. Criminosos à solta.
Onde e quando nasceu?
Nasci em Lourenço Marques [foto], no extremo sul de Moçambique, em 1965. Era laurentino na origem. Os revolucionários marxistas da Frelimo, em 1976, mudaram o nome da minha cidade natal para Maputo. Passei a maputinho ou maputense. Alguns da velha cepa ainda se indignam com o rebatismo. Mas não faz mal.


O meu pai nasceu na cidade da Beira (1927-2018), no centro de Moçambique, um descendente de sírio e de uma negra moçambicana. É a minha ascendência católica. A minha mãe é o meu lado islâmico.

Como os pais e as avós paternas mandavam formalmente, mas as mães e as avós maternas mandavam efetivamente, fui batizado católico e cresci entre muçulmanos. Daí admitir que serei para a vida católico-apostólico-muçulmano, tal como um dos meus irmãos, meio a brincar para simplificarmos o que é sério.

Onde estudou?
Comecei a primária nas periferias de Lourenço Marques, na escola primária do Bairro Professor Silva Cunha, ainda no tempo colonial, em 1971. Com a radicalização da ditadura comunista a partir de 1974-1975, ironicamente esse bairro onde morava passou a chamar-se Bairro da Liberdade, época em que implementaram grupos dinamizadores e organizaram a área residencial em unidades, quarteirões e células controladas pelos camaradas do Partido-Estado-Frelimo, ao mesmo tempo que a população branca debandava.


O novo poder moçambicano garantiu uma liberdade muito apertadinha, como o colono nunca se havia atrevido naquele mesmo bairro. Mas foi bom para eu passar a gostar de política e perceber a razão da esquerda ser sinônimo de trapaça.

Depois, estudei, no ciclo preparatório, na cidade de Maputo, numa escola antes chamada Escola Preparatória Joaquim de Araújo que passou a Estrela Vermelha.

Em 1980, mudei-me de Moçambique para Portugal onde recomecei a frequentar o oitavo ano do ensino básico. Primeiro, na Moita do Ribatejo, depois continuei os estudos no Liceu Gil Vicente (Graça, em Lisboa) e terminei o ensino secundário na Escola Secundária da Amora (concelho do Seixal, na Margem Sul do Tejo).

Na Faculdade, fiz o primeiro ano da licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e o restante curso na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aí comecei um mestrado em História Contemporânea, mas que não concluí, posto que me transferi para os Estudos Africanos do ISCTE-IUL, ali perto, onde fiz o mestrado e doutoramento.

Onde passou a infância e juventude?
Em Moçambique, durante a infância e a adolescência, vivi nos arredores de Lourenço Marques/Maputo (sul), e na própria cidade onde ia com frequência pelas mais variadas razões.

Nas férias escolares grandes, ia visitar os familiares do meu pai (na cidade da Beira e arredores, no centro do país), da minha mãe (na cidade de Tete e arredores, também no centro), na cidade de Lichinga (onde vivia uma tia materna, no extremo-norte) e Nampula/Nacala (onde o meu pai trabalhou nos inícios dos anos setenta).

Já a viver em Portugal, quando comecei a fazer investigação que implicava a realização de trabalhos de campo, entre 1997 e 2015 (em anos intermitentes) acabei por conhecer, ao todo, oito das dez províncias de Moçambique, nuns casos melhor do que noutros. Usei e abusei da paciência dos meus conterrâneos moçambicanos para jogarem conversa fora e eu fazer disso matéria-prima de conhecimento acadêmico ou intelectual.

No resto da adolescência e juventude, vivi em Portugal. Primeiro relativamente fechado, em termos de contatos sociais e de amizades, no gueto imigrante dos antigos colonizados ou retornados (moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos), depois fui-me aportuguesando. Faz parte.

Acabou por ser também a minha escola de vida. Quando olho para o meu filho, de 19 anos – nascido, criado e vivido na classe média portuguesa –, considero-me um felizardo por ter beneficiado de uma vida empurrada pelo furacão da história do século XX, em muito destrutiva e idiota. Mas também teve o inverso.

Muitas vezes recorro ao exemplo da minha mãe para me retratar a mim mesmo, mas ela foi o espelho ampliado. Poderia também ser o caso do meu pai, que referia que o meu avô sírio (que também não conheci) tinha ascendentes escoceses.

Voltando à minha mãe, nasceu no mato, no interior mais recôndito moçambicano, no Fingoè, depois foi viver para a capital da sua província natal, a cidade de Tete. Com o casamento, passou a viver na segunda cidade mais importante de Moçambique, a Beira. Mais tarde, mudou-se para Lourenço Marques/Maputo, a capital da colônia e depois do país independente.


Na última etapa, fez-se imigrante na antiga metrópole, Lisboa, para acabar sepultada no talhão islâmico do cemitério do Feijó (em Almada). Foi uma peregrinação migrante ao longo da vida sempre da periferia para o centro, uma forma de pensar os impérios coloniais europeus que a esquerda interdita. Não lhe dá jeito.

Se pensarmos que os antepassados da minha mãe são provavelmente do Paquistão, e que ela tem parentes indianos ou com essa ascendência que acabaram por se fixar no Reino Unido, o novelo dá uma ideia da revolução civilizacional imposta pelo século XX. Depois, eu mesmo acrescentei qualquer coisa casando-me com uma portuguesa. A minha irmã mais velha fez antes o mesmo.

A outra gerou descendência com um moçambicano e depois com um senegalês de ascendência cabo-verdiana, com parentes em França.

E um outro irmão, com uma moçambicana de ascendência goesa, tal como o primeiro-ministro, António Costa.

Entretanto, ainda outro irmão meu, o segundo na hierarquia, lembrou-se de falecer antes do tempo (1958-1986), e acabou por servir de batismo do enterro dos nossos restos mortais familiares em terras lusitanas, o que não deixa de ser uma semente de um novo patriotismo que, com o tempo, descobri. Mas que jamais apagará a minha identidade moçambicana. A identidade portuguesa passou a sobrepor-se sem atropelos e é um processo intergeracional. A vida não para.

Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?
O meu destino ficou traçado pelo processo de transição da era colonial para a independência de Moçambique, em 1974-1975. Foi no final da minha infância.

De um dia para o outro, a tranquilidade da vida habitual no bairro onde vivia, nos arredores de Lourenço Marques (depois Maputo a partir de 1976), foi trocada pelo medo; a porta aberta da moradia térrea da minha família perdeu o velho significado amistoso, assim como o mato que ficava do outro lado da rua que ia ter à linha de caminhos de caminhos-de-ferro; o meu pai e a minha mãe, tal como os mais velhos, passaram a sussurrar em vez de falarem abertamente e apercebi-me que as noites, para eles, não eram mais tranquilas; um pouco de arroz ou feijão acumulados eram escondidos dentro de casa e geravam um sentimento de crime público, com as crianças prevenidas para a manterem a boca calada; os vizinhos portugueses de sempre passaram a inimigos do povo, logo obrigatoriamente nossos inimigos, desaparecendo rapidamente do bairro por causa da insegurança e da lei 24/20, de inícios de 1975: tinham de abandonar o país onde viviam, às vezes por mais de uma geração, em 24 horas com direito a 20 quilogramas de bagagem por pessoa, o limite máximo de carga permitido nos voos de Lourenço Marques para Lisboa, a isso se resumindo os seus direitos de propriedade, eles que transformaram matos em bairros e cidades, uma expulsão sumária com aplausos dos marxistas moçambicanos, portugueses, europeus e mundiais, sendo que até hoje é proibido admitir a carga genocida dessa violência contra muitos que até viviam na sua própria terra, e nem mestiços, mulatos e alguns negros escaparam, posto que todos eles viviam também no bairro, mesmo que dominantemente branco; os novos vizinhos negros valiam como polícias em busca de detalhes incriminatórios, de um e de outro lado do muro da minha casa, como de outras.

Eram nuvens ameaçadoras que desciam à terra. Até a minha avó negra desconfiava, para escândalo inicial do meu pai e irmãos: Agora com os pretos a mandar é que vamos passar mal!

Ainda assim, nos primeiros momentos a euforia abrupta da independência, e um certo romantismo, pareciam compensar tudo o que se sentia ser errado. Ilusão de pouca dura. O mal tinha vindo para ficar. Multiplicou-se em obrigações espúrias, como os moradores terem de se juntar ao domingo de manhã para cultivarem um qualquer terreno estéril, o teste para apurar as famílias fiéis e as traidoras; as lojas iam ficando vazias e fechando, ou os comerciantes a desaparecerem para não serem sumariamente sentenciados como açambarcadores; um ou outro familiar nosso neófito no entusiamo frelimista-revolucionário tão depressa subia na vida, ocupando cargos deixados vagos pelos portugueses, quanto acabava recambiado para uma prisão ou para um campo de reeducação para se curar dos vícios do colonialismo, desaparecendo para sempre ou regressando para sobreviver mais uns poucos anos carregado de tipo de doenças más; os castigos públicos humilhantes iam aparecendo, por dá-cá-aquela-palha, com muitos negros libertados a serem chamboqueados, isto é, chicoteados como nos piores e há muito ultrapassados tempos primeiros da colonização;

havia rumores de fuzilamentos sumários; uma população autóctone africana, que os portugueses souberam manter pacífica ou mesmo fazer dela pacífica, agora via-se desarmada nas mãos de loucos; nas escolas os alunos podiam seguir, em poucas semanas, para o paraíso cubano ou para a magnífica Europa de Leste, ou ainda desaparecem no interior do país em dos projetos de desenvolvimento revolucionário, e sem que a opinião dos progenitores valesse o que quer que fosse; os cooperantes cubanos iam chegando; as novas rusgas da polícia do povo contra o inimigo interno, às vezes a pretexto de um simples esquecimento do bilhete de identidade em casa, poderiam tornar num instante qualquer destino num martírio funesto; em um-dois anos passaram a ouvir-se rumores de uma nova guerra, agora provocada pelos bandidos armados, como se as populações não tivessem direito de reagir ao serem compulsivamente confinadas em aldeias comunais socialistas para passarem fome e serem-lhes arrancados os poucos que possuíam em benefício da cooperativa, como umas quantas cabeças de gado, populações que sempre tinham vivido nos seus espaços e ritmos ancestrais, que nem sequer desgastavam os solos e os recursos naturais.

Apesar dos seus crimes, Salazar, Franco ou Pinochet, comparadas com aquela loucura marxista, foram uns santos.

Ao mesmo tempo, a família – a minha e outras – iam-se descontrolando nos valores e hábitos e, a conta-gotas, lá por casa, um-por-um ia fazendo as malas e fugia como podia para Portugal, mesmo sem garantias de amparo no destino para não ser engolido para sempre por um monstro que ia nacionalizando tudo, dando cabo da economia e de tudo quanto era instituição: Estado, Igreja, Família, o que seja. Debandávamos simplesmente para Portugal.

Aconteceu comigo e com o meu irmão gémeo, em 1980, que seguimos sem pai nem mãe. Estes continuaram a tentar resistir. Depois logo se via.

Ao longo da década seguinte, a de oitenta, com perda de património, de condições de vida e traumas pesados – e nenhum de nós se preocupara antes em saber de onde vinha e para onde ia a colonização portuguesa – a família teve de se refazer na antiga metrópole, em Portugal. Felizmente, não durou muito para que os laços familiares ficassem fortemente reforçados até hoje, e nem as ligações com Moçambique foram perdidas, com primos, tios direitos e demais parentes. Mas nem todas as famílias conseguiram tal proeza, atravessadas por divórcios, desemprego, toxicodependência, perda de dignidade, alcoolismo, abandono escolar como se isso não tivesse responsáveis, os revolucionários portugueses e moçambicanos.

Quando o meu pai, o último da família a abandonar o barco moçambicano, partiu em 1984 – ele que foi atravessando de comboio as zonas dos novos tiros desde os inícios da guerra civil com a sorte de ir escapando com vida – já a guerrilha da Renamo começava a passear a sua violência nas ruas do bairro pacífico dos arredores de Maputo onde morávamos, desde 1968.

Moçambique estava a ser mergulhado, pelos comunistas que ainda hoje, polidos, continuam no poder num ciclo de horrores que deixará sequelas nos próximos séculos: morais, intelectuais, sociais, econômicas, culturais, religiosas, degradação urbanística, eterna insegurança, famílias desestruturadas e outras desgraças que se possam imaginar. É como olhar para um jovem na flor da idade e a caminho da prosperidade e, de repente, esse jovem ser atingido por uma doença crónica altamente incapacitante e sem ter quem lhe possa valer para a eternidade.

Nunca fui nem serei contra a justiça e a dignidade da independência moçambicana. Mas quando se transita do abstrato para o concreto, tudo se resume a crimes e imbecilidades. Costumo até fazer uma comparação para defender que Moçambique, no tempo colonial terminado em 1974-1975, foi muito melhor em termos de miscigenação do que o Brasil, em si notável, mas a minha terra era um raríssimo exemplo de tranquilidade e funcionalidade, um chão que tudo misturava pacificamente e tornava fértil.

No tempo colonial que vivi, era como se o conselho de administração fosse português, os investidores fossem ingleses (dada a influência dos regimes brancos da África do Sul e da Rodésia do Sul, hoje Zimbabwe), a mão de obra especializada viesse do Índico (pela influência de goeses/canecos, hindus/baneanes e islâmicos/monhés) e, na base, estivesse uma tão extensa quanto heterogénea mão de obra africana que, raramente se refere, o sistema colonial foi miscigenando diluindo eficazmente as violências e tensões étnicas ancestrais que, depois de 1975, o marxismo frelimista reativou com uma virulência inaudita. Naquele meio colonial havia cultos tradicionais, uma parte miscigenada com o Islão, havia islâmicos propriamente ditos, católicos e outros cristãos, hindus e o mais que viesse.

De criminalidade urbana, e muito menos de intolerância religiosa, nem se falava. Não faziam sentido. A diversidade era absolutamente normal.

A perseguição religiosa, humilhante para islâmicos (por exemplo, em tom jocoso pelo presidente, Samora Machel [foto], perguntando em público se queriam morrer de fome ou comer carne de porco, embora esta citação seja baseada no disse-que-disse) e católicos (cujas igrejas foram usurpadas para práticas culturais não-religiosas, revolucionárias), e violenta para as testemunhas de Jeová (enviadas praticamente para a morte em campos de reeducação) – foi trazida pela mão comunista, com a independência.


Além do que tinha vivido, colhi muitas dessas memórias nas minhas entrevistas com pessoas comuns, entre 1997 e 2015. Embora numa zona localizada, na terra do meu pai, na cidade da Beira havia, no tempo colonial, uma comunidade de chineses, uma outra variante da diversidade social da época. Por outro lado, eram os monhés quem mais avançava para o interior do território para instalarem os seus negócios promovendo uma colonização indireta assente em muitos símbolos do Índico (vestuário/capulana, caril, etc.), como fez o meu avô materno, monhés que se miscigenavam com africanos. Os canecos católicos, goeses, faziam o papel de mais brancos que os brancos, a fina flor da hierarquia colonial. Toda essa mistura era extraordinariamente fértil e funcional, e tinha uma enorme autonomia em relação à intervenção direta dos portugueses, sem atropelos sobretudo a partir de inícios dos anos sessenta. Eu não tinha grandes entraves em entrar numa mesquita ou numa igreja. E não era caso único. Nem os padres católicos, nas zonas do interior, padeciam de bloqueios a esse nível.

Conta-se até que o pai do atual presidente da República Portuguesa, o católico português Baltazar Rebelo de Sousa, quando governava Moçambique financiava a ida de líderes islâmicos moçambicanos em peregrinação a Meca. Toda essa diversidade num único território, rara na história universal, foi simplesmente jogada ao lixo pelos revolucionários marxistas, os que mais falam em tolerância e globalismo.

Na época colonial moçambicana quem vinha de fora depressa se adaptava a Moçambique e poderia, sem esforço, cortar o cordão umbilical com a terra de origem. A sociedade colonial que conheci absorvia o que vinha de fora para tornar pacificamente funcional. Antes de eu nascer, em 1962, os meus pais e três irmãos mais velhos tiveram direito, como ele era funcionário, a uma licença graciosa de seis meses de férias em Lisboa com boas condições. Pouco depois estavam desejosos de regressar a Lourenço Marques, à sua casa e vidas, que não trocavam por viver, à época, em Lisboa. Foi isso a terrível colonização portuguesa? Hoje quem pensa assim, quem troca a Europa por África? Depois da independência, em 1975, começou e até hoje continua o caminho daquele país em sentido contrário, o do progressismo.

Uma sociedade tornada agressivamente negra nas suas elites, alguns até sem papas na língua a defendem a pretização do poder político e econômico; uma sociedade tornada violenta, fechada, disfuncional, avessa a quem vem de fora, a tudo o que seja diferente, patologicamente marxista. Em nenhum momento do século XX a sociedade colonial dominada pelos portugueses se assemelhou a tal coisa. Quantas vezes não recolhi, nas entrevistas com negros comuns estq frase: «Naquele tempo (colonial) quem levava porrada eram esses que provocavam, que não respeitam, eu nunca dormi na cadeia!» Mesmo quando se fala da guerra colonial (para os colonos) ou luta de libertação nacional (para a Frelimo), travada entre 1964 e 1974, já não tenho paciência para tanta mentira sobre Moçambique.

O país é extenso, tem dez províncias, e a guerra ficou acantonada numa província do extremo-norte (Cabo Delgado) e depois desceu para algumas zonas da província natal da minha mãe (Tete). Num país com inúmeros dialetos, extenso, quase sem rádio ou sem televisão, e sem que houvesse uma verdadeira língua franca, quando comecei a fazer trabalho de campo, em 1997, na maior parte das zonas do país, e mesmo na província de Tete onde houve guerra, posso inferir que a esmagadora maioria das pessoas comuns não tinha ideia de que era colonizada e de que havia uma guerra. Muitos referiam que o zunzum da guerra era uma coisa distante e que não sabiam quem eram os turras. Só no final da guerra, em 1974, perceberam que a mesma era para libertá-los e que os turras (como os designavam os portugueses) eram a Frelimo. Claro que muitos refizeram os discursos sobre a colonização a partir de 1974, sendo que a nova versão foi compulsivamente imposta pelo ensino, mas com uma ingenuidade que o meu trabalho de campo permitiu detetar incongruências na memória social a olho nu.

Um idoso islâmico inteligente, negro, que entrevistei em 1998 no norte de Moçambique, em Angoche (antiga António Enes), na província de Nampula, e que sempre viveu ali, disse-me qualquer coisa como: «Nós olhávamos para a placa que dizia ‘Companhia Colonial’ e nunca pensámos o que era isso de ‘Colonial’. Só em 1974 é que descobrimos que, afinal, esta terra não era dos portugueses, era nossa, e estávamos a ser libertados.» Toda a aldrabice histórica fabricada por comunistas do ‘povo em luta’, exímios sequestradores da memória dos povos, um dia tem de ser desfeita, posto que impuseram que se refizesse o sentido habitual da anterior vida quotidiana colonial desde 1974.

Tal como os russos que, a partir de 1917, refizeram o sentido da relação das pessoas comuns com a vida habitual anterior, na época czarista. Quem lê Tolstói ou Dostóievsky não custa percebe isso.

Imagine qual o impacto, no sul do Brasil, de uma guerra passada no extremo norte do Brasil que as pessoas simplesmente ignoravam porque viviam pacificamente e, mais, se entre um e outro extremo do Brasil as pessoas falassem uma miríade de idiomas muito distintos e não houvesse uma língua franca ou mídia? Nenhum!

Em suma, existe quem tenha direito a arrasar países, sociedades ou o mundo com uma enorme cara de pau porque mente, e todos sabemos que mente. O problema é que estas matérias são impossíveis de ser conversadas, e muito menos ensinadas nos meios universitários africanistas que infestam tudo quanto é sítio com o seu veneno mental: Portugal, Brasil, África. Simplesmente burros, mentirosos, perversos. Mas carregados de diplomas.

Quando começou a trabalhar?
Tinha uma vida de classe média em Moçambique e, aos 14/15 anos, comecei a trabalhar nas obras em Portugal, o servente que carrega baldes de massa e sacos de cimento às costas.


Quando a minha mãe chegou a Portugal, tivemos de viver cerca de um ano numa barraca, no Vale do Jamor (nos anos noventa todo esse espaço urbano miserável desapareceu do mapa, dadas as novas construções permitidas pelos financiamentos garantidos pela adesão de Portugal à comunidade europeia, em 1986).

Hoje olho para esse passado pessoal como muitíssimo bom. Nunca tive tantas boas experiências, amigos, nunca a vida me ensinou tanto. A minha família conseguiu sair desse buraco depressa sem subsídios do Estado, por ser essa a nossa ambição, e sem que os filhos interrompessem os estudos ou se furtassem a ter de trabalhar. Por isso foi fácil. Desde essa idade, eu trabalhava sempre nas férias grandes e, às vezes, nas pequenas. Com o passar dos anos, transitei em voo direto das obras para a sala de aula, para a docência, desde 1991, no ensino básico e secundário. Depois com algumas passagens pelo ensino superior, em Portugal, mas sem pouso definido.

Nos meios acadêmicos africanistas, onde tenho formação especializada, não existem condições mínimas para manter a sanidade mental. Quando, em 1996, entrei nos Estudos Africanos, em Lisboa, havia algum pluralismo e liberdade que, na década seguinte, vi esfumar-se a cada dia. O núcleo africanista tornou-se num antro de radicais esquerdistas que se fecharam a sua redoma de carreiras universitárias, tanto piores quanto menor a experiência vivencial de África.

Foi nessa época que começaram a aparecer, em Lisboa, bolseiros brasileiros financiados pelo PT, e que julgavam saber mais de África do que os próprios africanos, por vezes sem sequer passarem por lá. Alguns dos pesquisadores seniores esquerdistas portugueses recomendavam-me, em modo quase compulsivo, que seguisse as teses utópicas desses africanistas esquerdistas brasileiros formados em África por telepatia e ao ritmo das idiotices do Chico Buarque.

Paulo Freire, por exemplo, nunca teve réstias de consciência para perceber o quanto as suas teorias destruíram o ensino em África, eu que vivi o ensino no tempo colonial e no tempo pós-colonial e vi os africanos afastarem-se dos velhos métodos do ensino colonial em busca das novidades pedagógicas libertadoras, e Paulo Freire tinha a vantagem da língua portuguesa.

Destruir o ensino em África foi sinônimo de destruir África. Não há palavras para esse rol de criminosos intelectuais, ou tão-só criminosos. É hoje quase impossível haver vida inteligente no campo africanista nos meios universitários.

Descontado o Brasil, o que mais faz falta a Portugal e a todo o espaço da língua portuguesa é um Olavo de Carvalho. Ele será a versão positiva, para o século XXI, sendo a influência de Marx o inverso negativo que se abateu sobre o martirizado século XX. Um dia espero comprovar essa tese em defesa de Olavo de Carvalho e do Novo Brasil, aquele muitíssimo mais do que um intelectual, um verdadeiro sábio.

Obrigado, Professor!

A conversa vai continuar. Aguarde, por favor. 


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3 comentários:

  1. Gostei do texto, hoje à noite lerei com mais calma!
    Até para que possa entender direito o espirito de que estava imbuído o autor.
    Uma imagem me veio a mente ao fim quando fala do Olavo de Carvalho, me vi frente a um Grigori Rasputin ,da era moderna. Ou não?

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  2. Muito bom, aula de história da Africa.
    Bom finde,
    Ellen

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