domingo, 17 de maio de 2020

Supremo tribunal viral

O STF surfou no surto da covid para disparar um Mandamento Raul Seixas a cada governador e prefeito brasileiro: faz o que tu queres, há de ser tudo da lei


Guilherme Fiuza

O STF está fazendo política, como sempre. Pelo menos como tem sido com essa corte aí, ungida pelo Lula. Depois de meter a caneta de forma ditatorial numa nomeação do presidente da República, está conduzindo de forma circense (com os devidos vazamentos especulativos) a investigação sobre suposta interferência presidencial na Polícia Federal. Logo o STF, que interfere até em capa de revista. Mas de sua pior interferência ninguém mais fala.

O Brasil está impedido de ter uma política de enfrentamento da epidemia de coronavírus graças a um ato bizarro do STF. A corte máxima do país tirou do governo nacional o poder de conduzir o país durante a crise de saúde — como se a epidemia fosse estadual. Ou seria ela municipal?

Como se estivesse em mais uma dessas piruetas de Marco Aurélio para encenar o impeachment de Bolsonaro, ou de Alexandre de Moraes para decidir quem pode dirigir a PF, ou de Gilmar Mendes para soltar Lula no grito, o STF surfou no surto da covid para disparar um Mandamento Raul Seixas a cada governador e prefeito brasileiro: faz o que tu queres, há de ser tudo da lei.

E eles fizeram. Ou melhor, estão fazendo. Nem todos, mas numa farra dessas bastaria meia dúzia de aloprados para operar um belo estrago — e temos mais, muito mais que meia dúzia botando para quebrar.

Nem vamos falar aqui das inúmeras investigações sobre equipamentos de saúde superfaturados. Deixemos essa parte com a polícia. Falemos do que esses aloprados estão fazendo diretamente com a vida da população, o que é ainda pior do que roubar.

Milhares de municípios brasileiros sem um único caso de coronavírus estão com tudo fechado. Está sendo gestada uma ruína social sem precedentes — já convertida em tragédia humanitária, na cara de todo mundo.

Quem vocês estão esperando que venha libertá-los dessa sina? O papa?

Podem esperar sentados, ele não virá. A própria Organização Mundial da Saúde já deixou claro que em áreas menos atingidas pela epidemia e com vulnerabilidade social pode e deve haver circulação — isolados os grupos de risco e os sintomáticos — com o devido distanciamento pessoal e higienização. E você acha que os aloprados locais vão seguir as diretrizes da OMS ou o Mandamento Raul Seixas?

A OMS serviu no começo, quando propagou o “fica em casa” (e cala a boca). Aí os tiranetes diziam que estavam seguindo a ciência. Depois as autoridades que ainda têm algum juízo foram vendo que a coisa era mais complicada — e o confinamento totalitário não era uma panaceia. Mas quando Tedros Adhanom avisou, no início de abril, que o lockdown precisava ser relativo às circunstâncias de cada localidade, e que o contágio estava se dando de forma massiva dentro das residências, ninguém mais tinha ouvidos para o diretor-geral da OMS. Saiu cada um decretando a própria ciência.

O prefeito de São Paulo, por exemplo, inventou um rodízio de carros que causa aglomerações de pessoas. É uma ciência que nem o Tiririca consegue decifrar.

Já o governador de São Paulo inventou uma equação matemática entre porcentual de confinados e demanda por leitos — fórmula que nenhum cientista sério do mundo conhece, e que foi abalroada pela realidade exposta em Nova York: 84% dos hospitalizados com covid-19 no Estado norte-americano mais atingido pela epidemia estavam cumprindo o confinamento horizontal.

A ciência não tem certezas absolutas sobre o lockdown e a forma mais eficaz de adotar o isolamento, mas João Doria, Bruno Covas e aloprados associados têm.

Não vamos cansar sua beleza com rodeios: esses tiranetes estão fazendo política e vão manter o garrote máximo possível, pelo prazo mais longo que puderem, prolongando a epidemia e adiando o próprio treinamento da população para as novas formas de circulação restrita e distanciada. E vão continuar descendo o sarrafo na população trabalhadora, como se medidas sanitárias autorizassem a boçalidade.

Veja um androide como Wilson Witzel barbarizando mulheres e crianças na orla do Rio de Janeiro enquanto, na mesma cidade, pessoas se aglomeram para receber o auxílio emergencial — sem nenhum meganha do governador para ao menos organizar a distância entre os ocupantes das filas. Quem aí está preocupado com contágio e com a preservação de vidas?

O STF é o padrinho dessa tragédia. Fez isso por politicagem contra o governo federal. Vamos ver até quando os brasileiros sequestrados vão esperar para rugir contra os falsos protetores que estão devastando o país.
Título e Texto: Guilherme Fiuza, revista Oeste, 15-5-2020, 10h23

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