quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Racismo social

Rivadávia Rosa
"Nos anos 30, a família foi até institucionalizada enquanto responsável solidária penal. Isso chegava ao ponto de que filhos, a partir de 12 anos, sob ameaça de pena capital, eram responsabilizados pelos atos de seus pais; o que significava que o Estado tomava crianças como reféns, ameaçando-as de fuzilamento se seus pais apresentassem atividades “contra-revolucionárias”. Também essas são medidas e leis inéditas na história humana. Em que conceito de “classes” queria se enquadrar isso? Quais categorias sociológicas poderiam mesmo ser encontradas para tanto? Obviamente tratava-se de grupos de pessoas que eram desmascaradas enquanto inimigos naturais hereditários, genéticos, do poder soviético, apenas ao longo do processo dos expurgos políticos, sendo por isso excluídos enquanto defeituosos, perigosos e nocivos.
Pontualmente isso beirava um racismo social. Um de seus ideólogos principais foi Máximo Gorki. Em várias cartas abertas, a intelectuais ocidentais, reunidas sob o revelador título Aos humanistas, denunciava, em locuções sempre renovadas e mais crassas, o “instinto animal de propriedade” e o “individualismo zoológico” dos culaques, que preferiam enterrar seus grãos ou abater seu gado a disponibilizá-lo ao universo proletário. Chamava os “burgueses” de “parasitas da humanidade”, assim como “também entre animais há feras que mais destroem do que conseguem comer”. Esses textos deviam provar ao mundo por que era justificado desbaratar tais “parasitas” e “vagabundos” para construir uma forte e saudável comunidade socialista e retirar cirurgicamente os focos de infecções por eles causados no corpo social.

Diante de todos esses aspectos, não é correto afirmar que uma política de liquidação de completas camadas sociais e categorias de pessoas “geneticamente” nocivas preenche os requisitos de genocídio? Michail Heller e muitos outros chamaram a eliminação dos culaques de um “genocídio socialista”. Os autores do Livro Negro vão ainda mais adiante denominando toda a prática histórica dos partidos comunistas governantes um único e prolongado “genocídio do próprio povo”. A questão não é se esta categoria é admissível em termos morais, mas se é precisa em termos históricos, se atinge o específico na prática dos bolchevistas bem como, depois, dos partidos comunistas que chegaram ao poder em outros países.
Isso pode justamente elucidar o olhar comparativo sobre o nacional-socialismo. O assassinato dos judeus europeus e, de forma similar, dos ciganos, certamente seguiu a pura lógica de um genocídio, isto é, de eliminação voluntária e, preferencialmente, completa, de determinado gene ou espécie de homens extraída, por definição, da comunidade humana. O processo decisório no sentido da “solução final da questão judaica” parece ter perpassado diversos graus de radicalização, mas desde seu início seguiu a lógica de tal plena declaração de inimigo.
Não foi, essa, a primeira nem a última tentativa de um genocídio no século 20. Já o assassinato maciço dos armênios, organizada pelos jovens turcos na Primeira Guerra Mundial, enquanto ato de justificativa político-ideológico friamente executado, tinha o caráter de genocídio. “Singular” foi o assassinato dos judeus também porque, e na medida em que representou a tentativa mais radical de um genocídio. Na base de argumentos pseudo-científicos, biológico-raciais, pretendia-se eliminar completamente, e sem deixar vestígios, por meios burocráticos e tecnológicos, toda uma espécie humana. A isso correspondiam as formas e circunstâncias enfim utilizadas: o envio de pessoas, de preferência desavisadas, entre crianças e senis, diretamente à morte, que deveria ser organizada de forma racional e “indolor”. Essa última escalada deu-se, após os fuzilamentos em massa da primeira fase de guerra, em razão da autocomiseração e do comodismo dos assassinos. Por isso a instalação de campos de extermínio fora das fronteiras do Reich – nos territórios de ninguém, do chamado Governo-geral – que possibilitou sua administração por um vergonhoso mínimo de pessoal. Por isso a invenção das câmaras de gás e dos grandes crematórios, em que se expressava tão claramente quanto possível a mera razão do aceleramento do assassinato em massa. E por isso o casulo do silenciar e do segredo formal enredado já com burocráticas regulamentações lingüísticas tais como “evacuação”, “tratamento especial” ou “solução final” em torno desse crime secular.
É, principalmente, esse caráter extremamente comprimido, em tempo e espaço, o extremamente organizado, burocrático, sem paixões, o abstrato, no fundo, do empreendimento que o torna inédito na História da Humanidade. Nesse sentido, o assassinato nacional-socialista dos judeus foi um extremo, um extremo na desumanização na comunidade humana. E, enquanto tal, fixou-se na memória da humanidade." (KOENEN, Gerd. Utopia do Expurgo – O que foi o comunismo? Ijuí/RS: Ed. Unijui, 2009, pp. 258-260)
Título e Texto: Rivadávia Rosa, 26-9-2012

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