sexta-feira, 9 de outubro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Atitudes intempestivas

Aparecido Raimundo de Souza 

PERSISTE, COM CERTA  RELUTÂNCIA, UMA TRISTEZA grande e insana na minha alma. Uma espécie de melancolia doente que não desgruda. Na verdade, é como se um feitiço muito forte se fizesse permanente sobre a minha ‘carência de alguma coisa’ que não consigo atinar com o que possa ser. Falta algum ingrediente  fundamental e imperioso para que eu seja completamente feliz e realizado. 

Em face disto, me questiono, a toda hora: seria, por acaso, os efeitos da idade se manifestando no meu agora e consternando, como um peso morto, que não me deixa deslanchar? Insisto em afirmar que a bruxaria, ou o despacho, ou seja lá o nome que as pessoas costumam dar para este tipo de situação, a mazela que me denigre o sossego se fez maior, quase intransponível na minha insensatez. 

O meu aluamento, ou o meu despautério, por algum tempo atrás, por pouco não me tirou o foco que eu tentava seguir. A senda previamente traçada com  um objetivo definido antecipadamente. Tomei alguns  sustos tremendos, vez que, por causa deste desconforto de perder o eixo, na sua integralidade faltou um tantinho assim para eu me estabacar de vez, no chão. 

Por sendas e ruelas as mais diversas, segui perseverando, mantendo viva a veleidade dos meus sonhos e desejos. Apesar da plenitude da certeza que demonstrava, na maioria das vezes, querer se desfazer em nada, tipo assim, mergulhar num  buraco enorme, quase abissal, não desisti. Intransigente, segui em frente, tocando o barco. 

Tocar o barco, aqui deve ser entendido como a luta incessante e desigual, a contenda acirrada à custa de unhas e dentes, a peleja escaramuçada e invulgar para seguir, de cabeça erguida, mantendo os pés firmes nos meus objetivos mais primordiais. 

No mesmo tom, centrado corpo e espírito nessa  meta idealizada como intuito imorredouro, desejo a cobiça  para sair, de vez, dos desatinos da solidão, segui firme e forte. A solidão é uma amiga ingrata que nos quer ver derrotados.  A infeliz, de todas as maneiras (se formos fracos e abatidos, nos levará para o mais obscuro do tenebroso. O tétrico e o mefistofélico é, sem duvida alguma, o fracasso total. 

O infortúnio, por sua vez, comendo pelas beiradas, tentou, igualmente,  me arrastar, a qualquer preço para a selvageria do naufrágio e da calamidade. Objetivava, de todas as maneiras, tentar  me pegar num flagra, me dar cartão vermelho, me tirar da jogada, me fazer sofrer no banco de escanteio. Deu errado. 

Por algum tempo, vivi uma história de horror, onde o personagem central da desgraça se fazia firme e forte na figura de um gênio malvado que eu não conseguia colocar de volta dentro da lâmpada. Dessa forma, com o coração em frangalhos e a alma efervescendo em emoções desvairadas, uma parte do meu medo se agigantou, enquanto a outra, também com a intensidade de uma luz muito forte, me deixou ao acaso da linha, como um trem parado num desvio incerto. 

Soltei gritos de pavor, em cada estupefação vivida, em cada  paralizia temporária alimentada. Entretanto,  com eles, me libertei, me despreguei, me ví mais livre e solto, em cada tentativa. Ponto positivo  a meu favor. O fato é que em algum lugar dessa estrada longa e penosa, não me tornei um perdido dentro de uma inconsequência que juro por tudo quanto é sagrado, jamais dei causa. 

Aos trancos e barrancos, sigo lutando. A luta é constante, diária e interminável. Com ela, purgo meus dissabores e seus respectivos efeitos. Desastrosos, por sinal, mas, todavia,  o objetivo principal é um só: jamais me entregar, de bandeja, ou me dar por vencido ou derrotado. Pensar em  jogar a toalha e desistir, JAMAIS. 

Tem dado certo. Apesar dos pesares, expurgo da minha vida cotidianamente, os momentos ruíns. Parei de punir a mim mesmo por momentos fúteis e inúteis, momentos os quais pretendo manter bem longe da minha vida. Da minha vida, para sempre. Estou, na verdade, em busca de um milagre. O milagre sou eu mesmo e fim de papo.   

Quero ser, ou melhor, aliás, eu sou o melhor... Eu sou o melhor. Eu sou, na prática do dia a dia, o milagre, ou  a Teoria ao Tributo da Quase perfeição. Quase?! Sim, quase! Perfeito, Perfeito, em todos os sentidos,  só Deus. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Viracopos, Campinas, interior de São Paulo. 

Colunas anteriores:
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A hora é chegada. Agora ou nunca. Reação em cadeia, já!
Como buracos na parede
Um ‘pato’ entre os espinhos da morgaça
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