terça-feira, 30 de agosto de 2022

As marcas do voto

Alexandre Garcia

Meu amigo exigente me revelou que vai continuar escolhendo candidato pelo critério de “menos pior”. Diz que começa excluindo corrupto e mentiroso, depois faz um balanço das virtudes e defeitos dos demais candidatos e decide por aquele a quem ele consegue suportar. Não é novidade esse critério; ao contrário, parece ser um dos mais realistas para avaliar os que se metem na política. Também mais prático, porque o eleitor que não suporta a política e que exige perfeição de caráter, de princípios, de capacidade administrativa, de conhecimentos gerais, acaba se inclinando ao voto em branco, à anulação do voto ou à abstenção – o que é um desastre triplo. Primeiro, porque essa atitude em nada interfere na contagem de votos; segundo, porque o eleitor transfere aos outros o seu poder de escolha; e terceiro, porque o cidadão perde a razão para criticar aquele legislador ou governante escolhido num processo em que ele recusou participação.

Falta um mês para a eleição e é bom lembrar como lição o que está acontecendo no Chile. Sábado, os 15 milhões de eleitores chilenos irão obrigatoriamente às urnas para aprovar ou rejeitar uma nova constituição. Todas as pesquisas estão prevendo uma rejeição em torno de 60%. A constituição, de 388 artigos, extingue o Senado, cria Justiça indígena, diminui o poder da polícia e aumenta a possibilidade de aborto e atende a muitas inspirações de cunho marxista – tudo o que contraria um país de maioria conservadora. Como aconteceu? É que, sendo o voto facultativo, a maioria se absteve, ficou com preguiça de votar, e apenas cerca de um terço dos eleitores elegeram os 154 constituintes, dos quais uns 120 são de esquerda. Agora, no plebiscito, com voto obrigatório, tudo indica que os que se abstiveram vão inutilizar o trabalho de mais de ano dos constituintes.

Aqui, a campanha eleitoral está nas ruas, nas redes sociais, e nos meios de informação. Se a medida do interesse forem as entrevistas e os debates na tevê, até agora o engajamento do eleitor está baixo. Longas e entediantes perguntas nas entrevistas e excesso de luzes e de apresentadores no debate não conseguiram atrair mais gente para o show. Mas, se forem consideradas as manifestações nas redes sociais, os marqueteiros dos partidos vão acabar percebendo que os comícios do passado acontecem hoje nos celulares, com uma grande vantagem: a participação ativa dos eleitores. Os que não apenderam isso em 2018 vão ficar em desvantagem. Aqui o voto é obrigatório, mas as sanções são minúsculas. Mas fica o aviso: na Colômbia, 18 milhões se abstiveram e 11 milhões elegeram o presidente.

Nossa tendência é nos concentrarmos na escolha do chefe do Executivo; mas o presidente e o governador só conseguem realizar suas promessas se tiverem Senado, Câmara e Assembleia favoráveis.

Faltando um mês para o 2 de outubro, é hora de pensarmos em escolher – seja qual for o critério –, além do presidente e do governador, também o senador e os deputados. O bom uso do poder do voto influencia o futuro de seus filhos e netos bem além dos quatro anos de mandato. Administrações desastrosas deixam marcas nos nossos bolsos, no nosso bem-estar e no moral da nação.

Título e Texto: Alexandre Garcia, Gazeta do Povo, 30-8-2022, 14h00

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