sábado, 20 de agosto de 2022

[Versos de través] Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto, 
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.


Adélia Prado

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Vou-me embora pra Pasárgada 
Contrariedades 
O recreio 
Quando eu não te tinha 
Porto Sentido 
A um poeta 

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