domingo, 14 de agosto de 2022

A gramática da servidão

Quando no final dos aos 80 assistimos ao ayatollah Khomeini a lançar a "fatwa" sobre Rushdie ignorávamos que a gramática da servidão faria de todos nós blasfemos.

Helena Matos

Salman Rushdie [foto] incendiou parte do mundo muçulmano com a publicação, em setembro de 1988, do livro “Os Versículos Satânicos”, levando o fundador da República Islâmica, ayatollah Rouhollah Khomeini, a emitir uma “fatwa” (decreto religioso) em 1989 apelando ao seu assassínio…” – Recapitulemos: “Salman Rushdie incendiou parte do mundo muçulmano com a publicação, em setembro de 1988, do livro Os Versículos Satânicos“. Portanto não foi “parte do mundo muçulmano” que foi intolerante, mas sim Salman Rushdie que, qual pirómano, a incendiou com esse seu livro. Não tivesse ele escrito tal livro e não tinha havido incêndio algum, certo? Mas prossigamos que não acaba aqui este exercício ideológico-gramatical da Lusa, logo replicado em vários sites. Se repararmos nesta notícia Salman Rushdie não se limitou a incendiar parte do mundo muçulmano com a publicação do livro Os Versículos Satânicos, é também  ele quem leva Khomeini (quiçá contrariado, acrescento eu) a emitir a “fatwa” que o condenava a ele mesmo Salman Rushdie: “Salman Rushdie incendiou parte do mundo muçulmano com a publicação, em setembro de 1988, do livro “Os Versículos Satânicos”, levando o fundador da República Islâmica, ayatollah Rouhollah Khomeini, a emitir uma “fatwa” (decreto religioso) em 1989 apelando ao seu assassínio…” Regra nº 1 da gramática da servidão: o mundo muçulmano, da rua aos dirigentes, limita-se a reagir!

O que é a gramática da servidão? Aquela que não tem por fim registar e fixar as regras da comunicação oral e escrita, mas sim instituir uma grelha sectária sobre o mundo. Por isso não interessa que as regras sejam absurdas e muitas delas só se consigam usar em contextos artificiais. Por exemplo, ninguém, a não ser em momentos criados para o efeito, diz todas, todes e todos para chamar os outros, mas o propósito da gramática da servidão não é, como acontece nas gramáticas comuns, facilitar a comunicação, mas sim criar ângulos que permitam avaliar ideologicamente os falantes: o orador da conferência disse todos em vez de todas e todos? E disse ou não todes? Esqueceu-se ou propositamente não escreveu tod@s na comunicação?… Como cada uma destas grelhas vem acompanhada de uma rotulagem de intenções – no caso dos todas, todes, e todos será linguagem inclusiva – de imediato se passa a avaliar não apenas se o orador usa ou não linguagem inclusiva, mas também e sobretudo se ele é contra a inclusão. É claro que este falejar não é nem deixa de ser inclusivo, nem a inclusão passa por tal destrambelho, mas isso não interessa. Aquilo que interessa é que esta gramática da servidão permite que as palavras a que recorremos sejam usadas não para avaliar o que dizemos, mas sim o que moralmente somos ou, mais rigorosamente, qual o grau de servidão que mostramos perante os nossos inquisidores-ayatollahs.

Não é por uma questão de eficácia de comunicação que recorro à imagem dos inquisidores-ayatollahs. Na gramática da servidão o erro é pecado e os zelos arrebatados da blasfémia esconjuraram o raciocínio, por isso o que choca e causa escândalo não é aquilo que alguém diz ou escreve, mas sim a ofensa que outros experimentam perante aquelas palavras. Não por acaso todos os dias atores, cantores, jornalistas… se desfazem em desculpas perante as fúrias de gente que se diz ofendida:

Agir pede desculpa pelo tema “Filha da Tuga”. Depois da polémica com o tema “Filha da Tuga”, interpretado por Irma Ribeiro, Agir pediu desculpa publicamente e explicou a canção. O produtor da música, que está a dar que falar pela frase “sou branca para os pretos/Para os brancos sou preta”, recorreu ao perfil de Instagram para explicar a forma como foi composta.” (depois de tudo lido não se sabe se rir ou chorar!);  “Shawn Mendes pede desculpa a Sam Smith por se referir ao cantor por “ele”. Em março de 2019, Smith explicou que não se considerava homem nem mulher, flutuava “algures no meio”, anunciando depois nas redes sociais o estatuto de não binário.” (na gramática da servidão as formas de tratamento funcionam como um teste ao grau de servidão dos falantes);  “Beyoncé vai mudar letra da canção “Heated” por causa de termo considerado ofensivo. Um termo que pode ser usado de forma pejorativa contra pessoas com deficiência consta na nova música de Beyoncé e está a causar reações de desagrado. A artista já anunciou que vai mudar a letra” (amanhã será o tom que é considerado ofensivo; depois o sotaque, depois a acentuação…)

Este paradoxo “tu ofendeste-me com o que disseste, mas não foi nada disso que eu quis dizer sim disseste peço desculpa se disse” substituiu o anterior antagonismo em que se discordava e procurava rebater aquilo que o outro dizia e escrevia. O “não tens razão” deu lugar ao “sinto-me ofendido”. Na verdade, não interessa realmente o que se diz ou escreve, mas sim a reação emocional do outro. É esta transferência que encontramos nas palavras da presidente da ILGA, Ana Aresta, para explicar a queixa apresentada por esta associação (e também pela Opus Diversidades) na ERC. Em causa estão artigos que estas associações consideram de “cariz transfóbicos, com argumentos falaciosos”. Mas não só. Nessa lista de textos que seguiram para a ERC também constarão Outros artigos, menos imediatos do ponto de vista do insulto, soam a discussões inofensivas, intelectuais e etéreas mas chegam à maior parte das pessoas LGBTQIA+, que os leem como atos de bullying”. Ou seja, não conta o que se escreve e nem sequer o que se pode ou não interpretar no que está escrito, mas sim as intenções, sublinho as intenções, que o outro detecta naquilo que lê. O sentir-se ofendido é a institucionalização da blasfémia sobre o raciocínio.

Quando no final dos aos 80 assistimos ao ayatollah Rouhollah Khomeini lançando a “fatwa” sobre Salman Rushdie foi como se estivéssemos a ver algo proveniente do fundo dos tempos. Em contraciclo com o que acreditávamos ser uma crescente liberdade. Mal sabíamos que a gramática da servidão nos transferiria a todos do âmbito do raciocínio subjacente ao debate para as fúrias blasfemas da cultura do cancelamento.

O calvário de Salman Rushdie é o símbolo daquilo em que não quisemos acreditar.

Título e Texto: Helena Matos, Observador, 14-8-2022

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