sexta-feira, 12 de agosto de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Tudo pelo último capítulo da novela

Aparecido Raimundo de Souza

— A MÃE DISSE —
conversa sozinha com seus botões, de frente para o espelho, a Belinha, impaciente. Só poderei ligar a televisão, quando fizer todos os meus deveres de casa. Que droga! Logo hoje, que o último capítulo da novela vai pro ar. Por azar, esqueci meu caderno na casa da Ritinha. Não posso sair. Meu Jesus, o que faço?
Belinha, de repente, tem uma ideia:
— Vou ligar. Faltam dez minutos pro começo da novela...
Desesperada, Belinha passa a mão no celular, se aboleta na cama e disca o número da amiga. Na oitava vez, a Ritinha atende:
— Fala, Belinha...
— Ritinha, estou com um problema sério.
— Já sei. A sua mãe descobriu que o Waltinho te beijou?

— Nada a ver, sua tonta. Fala baixo...
— Cadê a sua mãe? Está aí perto de você?
—Na cozinha preparando o jantar.
— O que você manda?
— Meu caderno. Está com você. Preciso dele.
— Eu sei, amiga. Na minha mochila, desde segunda. Vem buscar... que tal amanhã cedo?
— Não tem como. A mãe está no meu pé. Se eu sair vai achar que vou me encontrar com o Waltinho.
Ritinha, rindo:
— Fácil. Se tranca em seu quarto e pula a janela...
— Engraçadinha... traz o caderno aqui pra mim...

— Sem chances...
— Posso saber o motivo?
— Claro. O Batatinha Descascada está aqui...
Belinha, a voz sarcástica e insinuativa:
— Nossa, que maneiro! Sua mãe então liberou geral?
— Não, sua idiota...
— E como ele entrou?
— Pela janela...
— O bom de morar em casa baixa permite várias opções. No meu caso, dependurada no quinto andar me sinto literalmente de pés atados...
— Você tem razão.

— Pensa numa saída, amiga. Preciso urgente da merda do caderno. Meus pais controlam meu aparelho de televisão pelo celular...
— Belinha, use a cabeça. Saia escondida...
— Não tenho como, Ritinha.
— Você não me falou que a sua mãe está lá na cozinha cuidando do jantar?
— Sim. Foi o que eu disse.
— Amiga, não me racha a cara. Use a porta da sala...
— Meu querido pai está com uns amigos... não consigo ganhar o corredor sem ser notada... pela cozinha, completamente fora de cogitação.

— E a Bárbara?
— Nossa empregada está ajudando a mamãe.
— Embaçou, Belinha! Eu não posso arredar os pés daqui. O Batatinha Descascada está firme na área...
— Ele não poderia trazer? Tão perto. Duas ruas, apenas. Me quebra o galho, amiga...

Ritinha meio que impaciente:
— Esquece, Belinha.
— E quando ele for embora?
— Não tem hora certa, amiga. Ele só sairá daqui quando meus pais forem se deitar... ou Batatinha sai normal, pela sala, ou cai fora usando a porta de serviço... no pior dos mundos, “despula” a minha janela...
— E o que você está fazendo mais o Batatinha Descascada, Ritinha?

— Não seja indiscreta. Olha, eu vou desligar... não posso te ajudar com o caderno... o Batatinha... está descascando a...
— Tá legal, o Batatinha... você já falou... droga de vida! Vou perder o último capítulo da novela... logo hoje... amiga, me ajuda. Pera aí: você disse que o Batatinha está... ele está o quê?!
— Descansando, criatura... tirando uma soneca. Não tenho como te ajudar. O que você pensou, amiga? Ei, tenta o Waltinho...
— Na pelada com os amigos.
— Aí sujou de vez...
— Infelizmente. Só posso ver televisão mostrando os deveres prontos. Como realizo tal proeza sem o caderno? Ei, Ritinha, achei uma saída.

Ritinha, a voz aparentemente entrecortada:
— Qual, Belinha?
— Liga a sua câmera do celular, e posiciona o aparelho na frente da sua tevê. Eu assisto daqui como se fosse uma chamada de vídeo.
— Que piada mais sem graça, Belinha. Sem falar na hora. Totalmente imprópria...
— Mas por qual motivo? Já fizemos coisas piores outras vezes...
— Pombas, Belinha. Entenda. Agora não tem como. Estou aqui com o Batatinha No escuro... ele está descansando... se eu acender a luz... me ferro. Meus pais...
— No escuro, Ritinha? Fala pra mim, desembucha. Você disse que ele está descascando... descascando o quê? Amiga, pelo amor de Deus, me atualiza... escancara a situação... o que se descasca no escuro? Por favor, por favor, liga a câmera na novela... faltam cinco minutos...

Ritinha, se sente acuada. Invadida em sua privacidade. Perde a paciência:
— Descansando, amiga. D-E-S-C-A-N-S-A-N-D-O. Pelo amor de Deus, Belinha. O que você pensou?
— Não foi isso que você falou, Ritinha. Você acabou de se contradizer. Aliás, foi bem clara quando respondeu. Descas...
Ritinha se abespinha e manda a compostura para o espaço e interrompe a amiga, totalmente enfezada:
— Belinha me desculpa. Vou ter que tirar o time de campo. Evaporar. Falamos mais tarde. Tchau! Depois a gente bota as fofocas em dia.
— Ritinha, Ritinha, Ritinhaaaaaa... sua traidora. Eu...

Belinha, incansável, insiste quatro vezes e nada. Caixa postal. Permanece em seu ouvido, aquela voz chata da atendente robotizada sinalizando que a “ligação não poderá ser completada em face do aparelho estar desligado ou fora da área de cobertura”.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Jundiaí, interior de São Paulo. 12-8-2022 

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