sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

8 de Janeiro e a FARSA da “tentativa de golpe”

Leandro Ruschel

A manifestação que acabou em depredação no dia 8 de janeiro de 2023 jamais foi uma “tentativa de golpe” no sentido real e objetivo do termo. Foi, isto sim, um protesto popular que descambou para o vandalismo, agravado por um fator que até hoje segue mal explicado: a inação, ou incompetência, das forças de segurança para impedir as invasões e conter a escalada da violência.

O precedente histórico para tal leitura é cristalino: em 2006, quando centenas de militantes de um movimento sem terra, liderado por um integrante da Executiva do PT, invadiram e depredaram a Câmara dos Deputados — deixando funcionários gravemente feridos e um rastro de destruição —, a Justiça Federal ordenou a soltura imediata de quase todos os 542 detidos em menos de 48 horas. Naquela ocasião, a decisão foi enfática ao atribuir a responsabilidade à fragilidade do policiamento e à omissão do Estado em proteger o prédio público, tratando o episódio como uma falha de segurança e não como um atentado contra a ordem constitucional — um contraste gritante com o rigor seletivo e as prisões em massa que sustentam a narrativa atual.

O que ocorreu em 2023 foi uma explosão de revolta popular diante daquilo que, para milhões de brasileiros, representou o verdadeiro “golpe” em curso nos anos anteriores: a descondenação de Lula, a reabilitação política de seu grupo e sua alçada de volta ao poder, na esteira do avanço de um regime de censura, perseguição política e criminalização sistemática do campo conservador.

A narrativa oficial exige que aceitemos como plausível que um grupo formado, em sua maioria, por cidadãos comuns — muitos idosos, desarmados e sem qualquer estrutura militar — teria ido a Brasília para derrubar a República. É uma tese que desafia a lógica.

Como um golpe de Estado poderia ser conduzido por esse perfil de manifestante? Uma frase escrita com batom numa estátua é uma “tentativa de golpe”? É sério?

A narrativa promovida pelo establishment é que os manifestantes invadiram os prédios públicos com o objetivo de “forçar” uma intervenção militar, e que então o Exército “daria o golpe”. Ora: se esse era o plano, por que não ocorreu? Por que nenhuma estrutura de comando emergiu? Por que nenhuma autoridade militar aderiu? Porque, justamente, isso não foi golpe: foi indignação popular canalizada de forma caótica — e explorada como pretexto político.

Mais: antes mesmo de deixar o Planalto, Bolsonaro empossou no comando das Forças Armadas militares indicados por Lula, assinando os decretos que oficializaram essas nomeações. Se estivesse, de fato, tramando uma ruptura institucional, teria feito o oposto: teria colocado, nos postos-chave, oficiais alinhados ao seu projeto, dispostos a embarcar numa aventura golpista.

Mas não. Ele entregou a cadeia de comando justamente a nomes apontados pelo adversário que voltaria ao poder. E, ainda assim, o país foi levado a crer que o “golpe estava pronto”, como se um levante pudesse ser executado sem comando, sem adesão militar e sem sequer o controle da estrutura de segurança.

O que havia — e o que de fato ocorreu — foi a tentativa de encontrar um caminho legal e institucional para contestar um processo eleitoral que a direita percebeu como explicitamente enviesado, favorável a Lula, mediante censura recorrente contra conservadores, interferência no debate público e uma postura de hostilidade do Judiciário contra Bolsonaro e seus apoiadores.

Apenas em ditaduras é que eleições não podem ser contestadas.

Muito antes das eleições, ainda em 2019, foi baixado pelo Supremo o chamado Inquérito das Fake News — um verdadeiro ato institucional que deu superpoderes aos ministros: investigar críticos, censurar vozes dissonantes, anular investigações que os atinjam e impor medidas extremas sob a desculpa de “proteção das instituições” e da “democracia”.

A procuradora-geral, à época, foi direta: chamou o inquérito de “tribunal de exceção”, exigindo seu arquivamento, pedido que foi negado — contrariando jurisprudência estabelecida. Até mesmo líderes esquerdistas criticaram o ato. Randolfe Rodrigues chegou a pedir o impeachment de ministros por conta do inquérito. Mudou completamente de opinião quando percebeu que ele seria usado para silenciar a direita.

E, desde então, centenas de brasileiros foram alvo de censura, buscas e apreensões, bloqueios de contas, cancelamento de passaportes e prisões, em inquéritos intermináveis, deixando de contar, na prática, com garantias fundamentais.

As eleições apresentaram um show à parte de truculência e censura. Recortes de matérias jornalísticas com escândalos de governos petistas foram proibidos de circular porque representariam “desordem informacional”. As informações seriam verdadeiras, mas “a conclusão seria falsa”, afirmou o ministro que deu a canetada.

Um documentário que poderia ser negativo para Lula foi proibido de ser exibido antes do final das eleições. Lula pôde chamar Bolsonaro de “genocida”, em nome da “liberdade de expressão”, enquanto Bolsonaro foi impedido de chamar Lula de “ladrão”. A regra era clara: para um lado, tolerância total; para o outro, censura.

Denúncias do ex-diretor da Secretaria de “Enfrentamento à Desinformação” da Justiça Eleitoral deixam claro que foi montada uma verdadeira central de repressão à direita. Em troca de mensagens com um superior, ele foi claro: se não encontrou provas para justificar a censura, “seja criativo”.

O voto impresso — antiga demanda da direita, aprovada quase por unanimidade no Congresso — foi sumariamente descartado. E quem ousasse levantar qualquer questionamento sobre o sistema brasileiro de votação, que não é usado por nenhum país desenvolvido, passou a ser tratado como criminoso.

establishment brasileiro decidiu que Bolsonaro não poderia ter mais quatro anos. Decidiu que seu movimento representava uma ameaça existencial. E, por isso, deveria ser esmagado — ainda que fosse necessário passar por cima da Constituição e dos direitos fundamentais. A Justiça passou a ser o veículo para garantir esse desfecho, e o 8 de janeiro tornou-se o símbolo perfeito para justificar o projeto: criminalizar um campo político inteiro.

Os promotores dessa perseguição afirmam que o 8 de janeiro justifica todas as medidas tomadas até então. Mas não é exatamente o contrário? Se a direita não estivesse sendo perseguida há anos, se o debate público não tivesse sido estrangulado e se o processo eleitoral não tivesse viés claro, haveria esse tipo de indignação e protesto?

Hoje, fica cada vez mais claro que o Brasil está mergulhado em corrupção e deterioração institucional. Escândalos sucessivos, denúncias bilionárias, a relação promíscua entre autoridades e aqueles que deveriam fiscalizá-las, a captura do Estado por interesses partidários e a expansão de facções criminosas por diferentes camadas da sociedade reforçam a sensação de que o país está à deriva — ou pior: dominado.

E quem resolve se opor a tudo isso corre sério risco de ser calado — ou coisa pior.

Ficou claro, também, que “defender a democracia” virou um ótimo negócio pessoal para os supostos “defensores”.

Bolsonaro e seu círculo mais próximo estão presos, assim como centenas de brasileiros — muitos deles buscando liberdade no exílio — não porque tenham tentado dar um golpe real, mas porque passaram a representar uma ameaça ao sistema estabelecido: um sistema que busca consolidar o poder de forma truculenta e sem contrapesos, permitindo a repetição das práticas expostas pela Lava Jato sem o risco de sofrer qualquer consequência.

A Venezuela está aí para mostrar como um país pode ser destruído e dominado quando toda a máquina pública é tomada, quando a oposição é neutralizada e quando o debate público é sufocado.

Infelizmente, é difícil escapar da impressão de que este é o destino para o qual estão empurrando o Brasil.

Veja mais comentários sobre o assunto: 

Título, Imagem, Texto e Vídeo: Leandro Ruschel, Substack, 8-1-2026  

Relacionados:
8-1-2026: Oeste sem filtro – Fracassa o ato político de Lula para explorar o 8 de janeiro + Oposição reage para derrubar veto de Lula + Influenciadores contratados para atacar o BC entram na mira da PF 
Aí pega!😧 
Jornalismo ou Militância? Daniela Lima debocha de Bolsonaro 
7-1-2026: Oeste sem filtro – “Ele” amplia tortura de Bolsonaro e coloca PF para perseguir médicos + Governo Trump anuncia plano de três fases para a Venezuela… 
Moraes anula investigação do CFM sobre o atendimento a Bolsonaro...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-