sábado, 10 de janeiro de 2026

[Versos de través] Da nossa casa o Alentejo é verde

Sebastião da Gama

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual 
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral

E moramos num largo… E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também.
(Éramos dois sonhando e exigindo).

Da nossa casa o Alentejo é verde. 
É atirar os olhos: São searas,
são olivais, são hortas… E pensaras
que haviam nossos de ter sede!

E o pão da nossa mesa! E o pucarinho
que nos dá de beber!... E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois pássaros cantando sobre um ninho…

E o nosso quarto? Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne.

Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.

Deus quis. E nós ao sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas. Depois, ó flor na haste,
foi colher-te e ficamos ambos puros.

Puros, Amor – e à espera.
E serenos. Também a nossa casa.
(Há-de bater-lhe à porta com a asa
um anjo de sangue e carne verdadeira.)


Sebastião da Gama

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De “Fragmentos” de Novalis, via Cesariny (poema-colagem) 
Palavras de uma mãe na partida do filho 
No cruzamento para Vikungo, 1963 
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