segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O barulho chato que salvava o verão carioca

Antes do ar-condicionado dominar os apartamentos do Rio, foi o ventilador — de metal, de plástico, de coluna, barulhento e incansável — que ajudou gerações a atravessar o calor, as madrugadas e a vida cotidiana da cidade

Bruna Castro

DIÁRiO tem feito sucessivas reportagens sobre a quase insuportável onda de calor que vem assolando a cidade, como, aliás, ocorre em todos os verões. Eu dou graças a Deus pela vida de Willys Carrier, inventor do condicionador de ar. Mas houve um tempo em que o verão carioca não era enfrentado em silêncio e no fresquinho. Ele vinha acompanhado de um som constante, metálico ou plástico, que atravessava tardes, noites e madrugadas: o barulho do ventilador, ou do circulador de ar. Antes do ar-condicionado virar promessa de alívio — e muito antes de virar preocupação — era esse aparelho simples, quase rude, que fazia a cidade seguir respirando nos meses mais quentes. 

Os primeiros eram de metal, pesados, sólidos, praticamente indestrutíveis. Ventiladores que pareciam feitos para durar mais do que a própria casa onde estavam. Muitos deles, de marcas como a General Electric, passavam de geração em geração, atravessavam mudanças, reformas, trocas de endereço. Até hoje temos um que era do avô do meu marido (foto principal). Ligados na tomada, não refrescavam exatamente — empurravam o ar quente de um lado para o outro —, mas criavam a ilusão necessária de movimento, de sobrevivência térmica. Às vezes mais de um ligados nos faziam sentir-nos numa air fryer.

Depois vieram os ventiladores de coluna, de pé, quase sempre de plástico, menos elegantes, mais ruidosos. Aliás acho que os de plástico já vêm barulhentos de fábrica, enquanto os de metal começam a bater o pino depois de velhos. Tinham grades frouxas, hélices que vibravam, botões que às vezes falhavam. Faziam um barulho louco, mas “ventavam como poucos”. Eram presença obrigatória em quartos apertados, salas mal ventiladas, apartamentos antigos do Rio onde o calor parecia se acumular nos cantos. Dormia-se com o ventilador apontado para o rosto, para o peito, para o nada — e acordava-se com dor de garganta, mas vivo. E nem vou falar daqueles de teto, espalhadores de poeira e maldição para os alérgicos.

Havia um ritual silencioso em torno deles. Ajustar a altura, escolher o ângulo exato, decidir se o vento ficaria fixo ou girando, desligar e ligar durante a noite. O ventilador não era conforto pleno; era negociação. Um acordo possível entre o corpo e o clima. Basicamente secava o suor mas não ia muito além disso.

Com o tempo, o ar-condicionado chegou como promessa de modernidade. Silêncio, temperatura controlada, sensação de civilização em meio ao verão carioca. Por alguns anos, pareceu que o ventilador ficaria relegado ao fundo do armário, lembrança de um tempo menos tecnológico, quase constrangedor. Mas o Rio tem dessas ironias: em meio a contas de luz que hoje fazem muita gente pensar duas vezes antes de apertar o botão do “liga”, o velho ventilador volta a ser visto não como nostalgia, mas como plano B. Nada dramático — apenas uma constatação que passa, leve, como o vento que ele produz.

Ainda assim, o ventilador permanece, sobretudo, como memória afetiva. Ele não gelava, não prometia conforto absoluto, não silenciava o mundo. Mas estava ali, fiel, barulhento, fazendo o que podia. Foi companheiro de estudo, de insônia, de tardes preguiçosas, de noites intermináveis de calor. Um som que embalou gerações de cariocas.

Talvez por isso, ao ouvir novamente aquele ruído conhecido, não seja apenas o ar que se move. Move-se também a lembrança de um Rio mais simples, mais barulhento, mais quente — e, de algum modo, mais acostumado a resolver as coisas com o que tinha à mão.

Título, Imagem e Texto: Bruna Castro, Diário do Rio, 11-1-2026

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