quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A estabilidade política deve ser a máxima prioridade atual. Vide a Itália

Cesar Maia
                   
1. O referendo proposto pelo primeiro-ministro, Matteo Renzi, foi amplamente derrotado na Itália no último domingo em 80% do país e por 60% vs 40%. A proposta de reforma constitucional previa a minimização do Senado e dos governos regionais. Renzi – com ascensão fulminante – saiu de prefeito de Florença para primeiro-ministro. Jovem, brilhante e inovador, apontado como futuro líder europeu, foi atropelado pelos dois principais líderes do NÃO, com suas marcas do populismo.
               
2. Beppe Grillo, que conduzia um programa humorístico na TV, criou um partido menos de 10 anos atrás – o MV5-Movimento 5 Estrelas –, contra os políticos, exaltando a antipolítica. Com 25% dos deputados, é a principal força parlamentar isoladamente. E Berlusconi – populista de direita liberal – que fundou seu partido em 1994, Força Itália, repetindo o slogan do Milan, time de futebol que presidia: Força Milan.

Respondeu a vários processos – inclusive com suposta ligação com a Máfia. Defendeu-se na opinião pública e com ajustes na legislação. Finalmente foi condenado a trabalhos comunitários. Importante ver no NETFLIX o documentário MY WAY – longa entrevista com Berlusconi realizada em 2015, na forma de biografia.
                   
3. A Operação Mãos Limpas, na Itália, precursora da Lava Jato, atuou de forma brilhante mas – como era natural – com foco exclusivo no Ministério Público e no Judiciário. E sob os holofotes multiplicados da imprensa. As investigações e condenações ocorreram entre 1992 e 1996. A partir da delação – premiada – de Mario Chiesa – que dirigia uma instituição filantrópica – em dois anos, 2.993 mandados de prisão foram expedidos, 6.059 pessoas estavam sob investigação, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares.

4. Com isso, os principais partidos nacionais de pós-guerra – Democracia Cristã, Socialista, Comunista e Liberal – foram desintegrados. Os partidos e os políticos se concentraram em suas defesas. E junto com o desparecimento destes partidos, a política passou a oscilar entre partidos políticos improvisados e, mais do que isso, partidos eleitorais apenas e várias vezes para duas ou três eleições, depois das quais implodiam.
               
5. Dessa forma abriu-se o Ciclo Berlusconi desde 1995, cujos pilares influenciam a política italiana até hoje. Vide o papel cumprido por Berlusconi no referendo deste domingo, 4 de dezembro. Abriram-se os espaços para a antipolítica – Vide Beppe Grillo e seu MV5 – e para um populismo extremado tão conhecido de nossa América Latina. Só que com meios eletrônicos e publicitários sofisticados com Berlusconi – que criou a maior rede de TV da Itália – privada, superando as estatais. E com meios eletrônicos associados às Redes Sociais com Beppe Grillo.
                    
6. Nos vinte anos pós Operação Mãos Limpas sem nenhuma engenharia política institucional simultânea, com vistas a uma nova estabilidade política como no pós-guerra com grandes estadistas – Alcide de Gáspari da DC, ou Palmiro Togliatti do PC – os espaços abertos pelas corrupções demonstradas foram sendo ocupados por um quinto escalão da política, exultantes com a demolição dos partidos do pós-guerra.
                   
7. De 1993 para cá, na Itália, a cada um ano e nove meses – em média – caía um governo e entrava outro. Foram treze primeiros-ministros – agora, com a renúncia de Renzi – quatorze. Sendo que três deles não tinham partido – eram Independentes, produto das crises, e na busca de um quadro técnico extraído diretamente da sociedade civil. Dois deles no período da Operação Mãos Limpas – 1993 e 1996.
                   
8. Na Operação Lava Jato juízes e promotores têm cumprido sua função e sua missão. Mas as lideranças das instituições não têm priorizado a estabilidade política, e não têm negociado suprapartidariamente, para a superação da instabilidade atual – que atinge todos os poderes com destaque – claro – para o poder político. E assim a crise se arrasta e se intensifica. Uma crise múltipla: econômica, política, ética e social.
Título e Texto: Cesar Maia, 8-12-2016

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