domingo, 22 de julho de 2018

Sete dias na selva

Alberto Gonçalves

“Os Maias” são demasiado explícitos na chacota do pardieiro em que vivemos, o que aborrece os donos do pardieiro e os leva a preferir “humanistas” como Alegre ou as senhoras da coleção “Uma Aventura"

1º dia
Em Coimbra, um par de homossexuais foi espancado por um grupo aos gritos de “paneleiros” e “pedófilos”. Quando meio mundo se preparava para execrar o crime de ódio, escrever panfletos inflamados, organizar vigílias e exigir adendas à lei, descobriu-se nas entrelinhas da notícia que os agressores eram uma família de ciganos.

O assunto, pelo menos na perspectiva inicial, morreu ali. E, com o cheiro a travões ainda no ar, as boas consciências transferiram a indignação face à homofobia para a indignação face ao racismo.

De repente, o problema deixou de ser os dois infelizes agredidos e tornou-se o destaque, naturalmente desajustado, que os “media” deram à “etnia” dos agressores. Sou testemunha: em mais do que um jornal, a palavra “cigano” irrompia, abusiva e zombeteira, nos fundilhos do texto, prova cabal de que o incidente apenas serviu de pretexto à calúnia de uma “comunidade” a que tanto devemos.

Não é mau jornalismo, é péssimo. Claro que a identificação só se justificava se se conhecesse, na longa, nobre e progressista tradição cigana, algum vestígio de intolerância para com os gays ou, já agora, qualquer forma de vida “alternativa”. Evidentemente, não é o caso. Com a eventual excepção dos militantes do Hamas, não existe cultura tão permissiva à liberdade sexual. O povo roma (assim é que é), modelo de abertura, não discrimina nada nem ninguém. Então porque é que a tal família bateu nos tais rapazes? Porque os ciganos batem democrática e impunemente em toda a gente, ora essa.

2º dia
O ministro da Defesa afirmou não saber que parte do material roubado em Tancos ainda não foi recuperado. Revelada em todos os momentos do processo, a coerência do homem impressiona. Começou por não saber a dimensão do roubo, prosseguiu a não saber se existira roubo e agora não sabe se o produto do roubo apareceu ou não. De caminho, é provável que também não saiba o que é Tancos, a função que ele próprio desempenha no governo e o nome de baptismo. O facto de o dr. Azeredo regressar a casa todos os dias sem se perder é, no mínimo, um milagre.

3º dia
A presidente do Infarmed garantiu que a “deslocalização” (sic) da instituição é uma ameaça à saúde pública em Portugal e no mundo. Talvez haja aqui exagero, mas no que toca à saúde mental na cidade do Porto os riscos são óbvios.

4º dia
Rebentou um pequeno escândalo porque “Os Maias” deixaram de ser leitura obrigatória no liceu. Meia dúzia de pontos. Primeiro, parece que a obra é facultativa desde 2002, prova de que a indignação, embora implacável, foi decidida com vagar.

Segundo, é absurdo interromper a atenção das crianças em volta das novas tecnologias (publicar fotos no Instagram e assim) para maçá-las com formas de comunicação anacrónicas.

Terceiro, ao que se vê por aí, a antiga obrigatoriedade de Eça não convenceu várias gerações de portugueses a escrever bom português, ou sequer a escrever português de todo.

Quarto, se a criança for normalzinha, a conotação de um livro com a escola é suficiente para dedicar-lhe o tipo de afeição que se dedica à sarna, pelo que o currículo oficial deveria limitar-se a produtos oficiais, género Mia Couto e os novíssimos romancistas caseiros.

Quinto, “Os Maias” são demasiado explícitos na chacota do pardieiro em que vivemos, o que naturalmente aborrece os donos do pardieiro e os leva a preferir autores “humanistas” como Manuel Alegre, as senhoras da colecção “Uma Aventura” e aquele mãe com minúscula.

Sexto, a demonstração de que o liberalismo nacional vai longe está no fato de mesmo os liberais acharem que compete ao Estado escolher as leituras, os interesses e provavelmente os sapatos dos filhos. Sétimo, os indignados que vão chatear o Camões, fingindo que o leem.

5º dia
Se descontar o assassínio de inocentes, as simpatias estalinistas, os surtos de antissemitismo e a facilidade com que caipiras o elevaram a santo, consigo simpatizar com Nelson Mandela. A verdade é que, no poder, podia ter aberto a temporada de vingança e decretado o puro genocídio. Não só não o fez como, salvo percalços, ajudou a manter a harmonia possível em condições impossíveis.

Dito isto, não percebo a que título se enxovalha a memória do homem através de um festival comemorativo dos 100 anos do seu nascimento. A coisa, parcialmente paga pela autarquia com dinheiro subtraído ao contribuinte, decorre em Matosinhos, literalmente a dois passos de minha casa, e pretendia ser um evento musical. Por azar, apenas arranjaram o moço dos Aerosmith, o sr. Geldof (juro) e mais uns nomes que desconheço.

Não preciso conhecer: aqui na sala soa tudo ao mesmo, uma vibração maligna que se propaga pelas paredes e termina nos meus tímpanos. Pelo meio, deixa-me os cães em alvoroço. O estranho é que, apesar de tamanho suplício, não fiquei a detestar Nelson Mandela. Pelo contrário, passei a compreendê-lo melhor, sobretudo a parte em que justifica o terrorismo com as situações extremas, e desumanas, que o fomentam.

6º dia
Como dizia o Ricardo Araújo Pereira, meter-se na droga é de homem. Infelizmente, em Portugal nem isso. Um festival de variedades a realizar em Idanha-a-Nova vai beneficiar de um serviço de controlo dos estupefacientes que os choninhas tencionam consumir. O serviço, gratuito, estará a cargo do Estado e o festival diz-se “alternativo”. Alternativo a quê?

7º dia
Enquanto se descobria que os donativos às vítimas de Pedrógão Grande terminaram em casas de borlistas, o governo ofereceu à Suécia ajuda para combater os incêndios locais. Fez bem: no meio da tragédia, os suecos precisavam de um alívio cômico.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 21-7-2018

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