domingo, 6 de outubro de 2019

[As danações de Carina] Sem limites pra sonhar

Carina Bratt

Às vezes, na minha saudade, e já na casa dos trinta, eu tenho a impressão de que vou explodir por dentro. Detonar por inteira, como se uma bomba de efeito devastador, me colocasse a pique. Que no mesmo espocar, me rebentarei em face de uma dor que não me larga, que não desgruda que não dá uma folga e só faz crescer a sua presença infamante em mim me deixando cada vez mais para baixo e sem aquela visão benfazeja de um novo futuro.

Tento me distrair de mil maneiras. Sair por aí, dar uma volta, ir ao shopping, espiar vitrines, olhar pessoas, assistir a um filme, tomar uma cerveja. Todavia parece que nessas fugas de última hora, o problema vai junto, de roldão, e se torna ainda mais pesado, mais denso, mais desumano e complexo. Às vezes penso em sumir. Mudar de cidade, recomeçar em outro lugar, em outro estado... Porém, ralho com meus botões: “aqui tenho meu emprego, ganho bem, comprei meu apê, meu carro, minhas contas estão em dia, não devo nada a filho de Deus nenhum, meu patrão me ama (são dez anos, quase onze, trabalhando juntos lado a lado...)”.


Apesar de esse fato ser concreto, definido dentro de mim, algo insólito me perturba. Desnivela a mente, me tira do sério, me sufoca, me arrasa. Não é engraçado? Chega a ser cômico. Tenho tudo o que uma jovem na minha idade almeja. E apesar disso, nada consegue arrancar a dor que está me matando aos poucos, me definhando, me cozinhando numa agonia banho-maria infinitamente desgastante e lenta. Essa agonia machuca, fere, desgasta, amofina, tira o meu espaço-chão, me rouba a liberdade de escolha, e me prende com fortes correntes a um confinamento pior que o de uma cela de presídio.

Confesso, nunca estive em uma cela de presídio, a não ser com o Aparecido, em visita a alguém enrolado. Fico me questionando o motivo dessas coisas...  Indagando de meu coração aflito o que aconteceu e não obtenho uma resposta à altura de meus percalços e pesadelos. Olho em volta e no espelho do meu banheiro vejo minha vida passada. Toda ela. Meus momentos, meus sonhos, minhas brigas comigo mesma. Percebo sinais de rusgas, ouço gritos, capto olhares encolerizados.

Revejo, no mesmo perfil desse espelho, o meu sorriso... Não, não é o meu sorriso. É o dele condensado num rosto entristecido. Entristecido e vazio como o meu... Acho que a sua vontade de mudar algo em mim o faz sofrer. O tempo, o nosso tempo às vezes passa tão rápido, tão ligeiro, tão sem graça e explicação, como um sonho bonito que se sonha acordado e, de repente, se acorda de verdade para uma realidade oposta, fria, lúgubre, intransigente. Não podemos reter o tempo... O tempo não nos concede esse tempo.

Por conta disso, uma realidade que não estamos esperando surge do nada. Uma realidade que não queremos ou não desejamos. Não há volta. Sei que não há volta. Regresso previsto, previsível, se fez imprevisível. Os nossos caminhos não retrocederão. A vida desse homem vai seguir em frente, a minha, idem. Contudo, comigo ficará (ficou) aqueles momentos perenes, sagrados, guardados numa caixinha especial, uma caixinha que se quedará inerte, esquecida em algum lugar dentro da alma frangalhada. 

Com ela, a esperança viva de um amanhã melhor. Existira um amanhã melhor?! Melhor no sentido de pintar um amor que chegará arrasando, abrilhantando espaços que foram meus. Meus, ou nossos?! Não sei! Meros devaneios, com certeza, alheamentos e leseiras de uma moça envelhecida... Enquanto esse porvir não chegar, não aportar não se fizer real, eu continuarei aqui. Sozinha, parada, quieta, insatisfeita, sem bússola... Sem porto seguro ao léu de um horizonte que não se mostra.

Mas espere. Uau! Quem sabe na próxima viagem que fizermos para algum lugar qualquer, Brasil ou mundo afora, ele não se declare? A esperança é a derradeira tábua de sobrevivência que vai para as cucuias: “Carina, eu te amo! Apesar de você ser meu braço direito... Minha flor mais mimosa, maviosa, mais linda no jardim dos meus olhos... Dos nossos olhos...”. Então nesse momento, nesse instante mágico e surreal, eu me entregarei de corpo inteiro, inteira, endoidecida, louca, apaixonada, e na hora do gozo final, explodirei mil vezes dentro da sua (dentro da nossa...) dentro da nossa paixão e, sobretudo, dentro de um amor que se fez que se faz e se fará indefinidamente SEM LIMITES.
Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo, Capital. 6-10-2019

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