domingo, 21 de junho de 2020

A quem serve a revolução cultural em curso?

A esquerda radical só conta por que há uma esquerda que se diz “moderada”, mas que usa os radicais para cercar e intimidar os seus adversários. É o que temos visto nas últimas manifestações no Ocidente

Rui Ramos

De um lado, é o padre Vieira, talvez porque a sua estátua não esteja num pedestal e seja mais fácil de alcançar; do outro lado, J. K. Rowling, “cancelada” pela sua crença na mulher biológica. É muito fácil indignarmo-nos, e achar que esta é a batalha final entre a civilização e a “loucura”.

Também é muito fácil encolher os ombros e rir da ignorância dos ativistas. Ou ser filosófico, e refletir que não há iconoclastia mais severa do que a do tempo que, como no poema, levará o dono da Tabacaria, a tabuleta da loja, a rua, e a língua em que os versos estão escritos. Sim, podemos indignar-nos, rir ou fazer filosofia. Mas seriam apenas modos de ingenuidade. A revolução cultural em curso não é a irrupção de uma qualquer lava subterrânea de subversão. É mais um dos jogos apocalípticos através dos quais as oligarquias políticas ocidentais têm andado a disputar o poder.

Há uns meses, as manifestações eram por causa do “aquecimento global”. Há uns anos, eram contra o “capital financeiro”. Agora, são contra o “racismo”. Todas tiveram em comum duas coisas. Por um lado, assentaram no mesmo ativismo de rua e de rede social da velha extrema-esquerda, como ficou agora à mostra na “zona autônoma” de Seattle (uma “comuna” à maneira parisiense do século XIX). Por outro lado, só tiveram a dimensão que tiveram por que foram apoiadas e ampliadas pelos media, pelas celebridades do espetáculo, e por uma grande parte da oligarquia política e empresarial, a começar por aqueles que gozam as suas reformas na ONU e em outras ONG. Os temas variaram, mas o método foi sempre o mesmo: denunciar a democracia, atacar a economia de mercado e lamentar a influência ocidental no mundo, como se tudo – democracia, mercado, influência ocidental – fossem simples mecanismos de discriminação racial, destruição ecológica, ou desigualdade social.

Sim, estes movimentos arrastam por vezes preocupações genuínas e propostas legítimas. A herança da segregação nos EUA, por exemplo, ainda assombra muitas relações. Mas para os ativistas, o “problema” — seja qual for — interessa menos do que a sua utilidade para atacar o “capitalismo”. Reparem na total indiferença em relação a negros mortos por outros negros, ou em relação a brancos mortos pela polícia, como Tony Timpa, asfixiado em 2016 da mesma maneira que George Floyd. A brutalidade policial ou a morte de negros não os inquietam, tal como a poluição, se não puderem ser instrumentalizadas para definir o “sistema” como “racista”. Nem um “negro” é, para eles, necessariamente um “negro”. Para o  secretário do BLM em Nova Iorque, Hawk Newsome, um negro que é polícia já não é negro. O candidato Democrata Joe Biden tem a mesma opinião: um negro que vota Trump também não é negro. Só quando renunciam ao estatuto de indivíduos autônomos, para se diluírem numa massa sem vontade própria de “vítimas” sob tutela dos ativistas, é que os negros são negros. Se isto não é racismo, o que é o racismo?

O objetivo da campanha não é, de modo algum, melhorar a condição da população afro-americana. É explorar os sentimentos de culpa da maioria branca. É levá-la, como nas religiões em que é preciso renegar “o mundo” para salvar a alma, a rejeitar a história, os valores, e as instituições que são os alicerces da vida livre no Ocidente, a pretexto de que tudo está contaminado por “racismo”. Para já, o resultado do movimento é o medo – o medo instalado nas universidades, nos meios de comunicação social, nas grandes empresas, onde qualquer empregado vive aterrorizado pela ideia de poder ser acusados de “racista”, e perder tudo. A comparação com a revolução cultural maoísta de 1966 faz algum sentido, mas não é só pelo vandalismo e pelas praxes violentas. É também pelo modo como a agitação é cinicamente fomentada e usada pela oligarquia política. Em 1966, na China, Mao manipulou os “guardas vermelhos” para destruir o governo e voltar ao poder. Em 2020, na América, os Democratas tentam fazer o mesmo com a sua versão dos “guarda vermelhos”.

Não, a esquerda radical não vai tomar o poder, refazer a sociedade ou rever a história. A esquerda radical falhou. Nos EUA, o candidato Democrata é Biden, não é Sanders. Mas o ambiente que a esquerda radical criou nas universidades, na indústria da cultura, nas redes sociais e nas ruas serve aos jogos de poder da oligarquia. Nos EUA, é muito claro. O atual movimento, tal como os anteriores, nunca teria atingido a atual dimensão sem a cobertura que lhe deu a direção do Partido Democrata, que até se fez fotografar de joelho em terra no Capitólio. A esquerda radical só conta por que há uma esquerda que se diz “moderada”, mas que a usa para cercar e intimidar os seus adversários.

Por vezes, alguém da oligarquia bem pensante, como J.K. Rowling, é salpicado. Dá então ideia de que a “loucura” atinge todos. Não atinge. Veja-se o caso do “MeToo”. Contra Brett Kavanaugh, o juiz nomeado por Trump, valeu tudo. Mas eis que as alegações de assédio sexual atingem Joe Biden, o candidato Democrata. Nesse dia, o MeToo morreu. Por mais justificados que até sejam, os protestos só têm oxigênio quando podem servir à elite Democrata na sua guerra contra Trump. Inconformados com os resultados eleitorais de 2016, os Democratas recorreram a tudo para apear o presidente: investigações judiciais, processos legislativos. Agora, açulam os radicais na rua. É uma espécie de chantagem: trata-se de fazer sentir aos americanos, através da polarização e do confronto violento, que não haverá sossego nem civilização enquanto os Democratas não regressarem ao poder. Basta ler o New York Times ou ver a CNN, para perceber que, se for preciso deitar fogo à casa, eles deitam.

Não, não estamos perante uma maré da história. Estamos perante uma especulação política, de quem julga que, atingidos os objetivos, será fácil meter outra vez o tigre na jaula. Há uns tempos, João Miguel Tavares pedia à direita: olhem para Trump: valeu a pena votar nele só para deitar a língua de fora ao politicamente correto? É tempo de também perguntar à esquerda: olhem para o antitrumpismo: valeu a pena destruir o espaço público das democracias, só para tornar difícil a reeleição de Trump? Nem lhes ocorreu que isso poderia ajudar Trump?
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 19-6-2020, 3h38

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