sexta-feira, 12 de junho de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Crises

Aparecido Raimundo de Souza

ASSIM QUE TUGÚRCIO meteu os pés na lojinha onde se tirava fotocópias de documentos, uma mulher na casa dos seus vinte e cinco anos, com um par de óculos de lentes verdes, fundo de garrafa enfiado no rosto, se dirigiu a ele, solícita:
  Bom dia. Que coincidência! Ia mesmo ligar para o senhor...
— Algum problema?
— Mais ou menos —  atalhou a dona em meio a um sorriso forçado.  — Lembra daquela moça que estava aqui procurando serviço? Eu imprimia uns currículos para ela e o amigo aí se interessou? Disse que havia gostado do jeitinho dela. Vocês se acertaram, e, parece que, ao final, ela seria chamada para fazer um teste...
— Isso tem tempo...
— Um bocado, por sinal. 
— O senhor não tem o telefone ou o endereço dela?

— Não, não tenho.
— Quando o senhor recebeu a figura, lá no seu escritório, não fez uma ficha?
— Não, não tenho este costume. Submeto apenas a uma pequena entrevista, tipo assim, jogo logo no fogo, ou seja, na prática, para saber se lida direitinho com o computador, se atende bem ao telefone, e, o mais importante: se sabe recepcionar o público. Como era mesmo o nome dela?
  Jucunda!
  Jucunda?
  É. Jucunda.
— Jucunda, Jucunda... Embora a pessoa não me seja totalmente estranha à mente, e o nome diferente, meio que exótico, não guardo muita coisa...

— Procure puxar pela memória — arrematou encarando com os óculos entre as mãos, deixando, a nu, seu rosto de feições perfeitas. — Jibóia lhe pediu para dar uma forcinha, me parece que ele a conhecia, não sei de onde.
  Jibóia? Espera lá. Meu ramo não são as cobras...
A esperta se abriu numa gargalhada espalhafatosa, mas, em seguida, voltou a se trancar com ares de escassos amigos:
— Jibóia é o meu marido. Deixa de palhaçada.
— Ah, Jibóia! Conheço seu esposo por outro nome.
  Qual?
— Co... Come... Comedor...
— Como disse? Repita, por favor. Não escutei direito...
— Comendador. Conheço seu marido pelo nome, ou pela alcunha, como queira, de Comendador.

— Entendi... Mas o senhor se aludiu ao meu marido como...?
— Me referi a ele como Comendador.
— Não, antes. Volta a fita.
Tugúrcio tentou consertar, arrumando a gafe:
— Que fita, dona?
— O senhor se reportou ao meu marido como comedor. “Rebubina”, por gentileza.
  Asseguro que a senhora está redondamente enganada.
A criatura voltou a colocar e, no mesmo ímpeto, a retirar da face,  os óculos fundo de garrafa. Encarando Tugúrcio com um olho aberto e o outro fechado, propositalmente (como a expressar “acha que sou alguma idiota ou otária?), alfinetou:
— Enganada? Euzinha, enganada? Ta bom!... Me chama de burra que eu gosto!

 — E como ele está?
  Ele quem?
— O Jibóia!
— Em casa, destilando veneno. Inventou umas dores nas costas. Mas voltando à Jucunda: o senhor não tem mesmo o telefone dela?
— Não tenho. Sinto muito.
— Estranho! Ela não ficou com o senhor uns dias, fazendo testes?
— De forma alguma.
— As informações parecem meio desencontradas.
— Não entendi, senhora.
— Jucunda voltou aqui dias depois e me disse que foi aprovada e que o senhor até viajou em companhia dela para São Paulo e Belo Horizonte...
— Nunca fomos a nenhum desses lugares.

  Pois é...
— Confesso sinceramente que não estou entendendo onde quer chegar. Se a Jucunda voltou a lhe procurar, por que a senhora não pediu o telefone ou o endereço?
  Na verdade eu pedi. Claro que pedi. Anotei num papelzinho por aqui e, na correria, acho que, por descuido, acabei jogando no lixo.
— E o Come... Digo, o Comendador... Ele não sabe onde a encontrar?
A estas palavras, a fisionomia da cidadã mudou de expressão. Rugas fortes, prenunciando furor e descontentamento,  invadiram sua têz deixando-a vermelha e antipaticamente grosseira. Cuspiu marimbondos, visivelmente fora de si:
  Esta vendo? O senhor voltou a invocar o  Jibóia como...
  Longe de pensar besteira, senhora. Por favor.

A mulher, entretanto, seguiu veemente:
— Eu acho que o senhor sabe alguma coisa e não quer me falar. Vai ver ela e Jibóia tem um caso, e, por isso, o prezado não aprovou a permanência dela em sua empresa.
— Por favor, senhora. Esquece. Não sei da moça, nem do paradeiro dela.
— Espera um segundo... Estou me lembrando! O senhor gravou o número dela em seu celular.
— Jamais gravo número de possíveis ou futuras candidatas. Fique a vontade, pode ver. 
Dito isto, Tugúrcio passou as mãos da mocréia seu aparelho. — Veja por si mesma. Puxe a lista de contatos. Nem o do Come... Perdão, nem o do Comendador eu sei de cabeça...
— Pela milésima vez.  Perceba, o senhor menciona o Jibóia como comedor. Ele é comedor? O senhor sabe de alguma paquera dele? Agora tenho certeza. Desembucha.
— Senhora, por favor.

— Abre o jogo. E me passa os contatos da maldita Jucunda.
— Minha senhora, eu não sei da Jucunda. Pergunte ao Comedor... De novo... Pergunte ao Comendador...
— E acha que já não indaguei dele exaustivamente?
— E o que seu marido disse?
— Me enrolou... Vocês, homens...
—Vai ver ele não sabe mesmo. Sua única saída é achar o tal papelzinho. A senhora dever ter colocado em algum lugar. O que não falta, por aqui é papel. De repente...
— Descreva de repente!
— Quando a senhora menos esperar, ele aparece.
  Sabe o que eu acho desta história toda?  Que o senhor está acobertando meu marido.  Seu pilantra, safado. O senhor mais Jibóia devem ter se aproveitado daquela sem vergonha.  Vamos, abra o jogo... Volte aqui, seu cínico, volte aqui...
Na calçada, às carreiras, Tugúrcio ainda pode ouvir nitidamente o derradeiro desabafo da furiosa e espevitada esposa. Ela subia pelas paredes:
— Não é  que o filho da mãe me deixou feito uma debilóide,  falando sozinha?! Deixa estar: hoje o Jibóia não me escapa... 
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo, 12-6-2020

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