terça-feira, 9 de junho de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Trauma reprimido...

Aparecido Raimundo de Souza

NÃO HAVIA NINGUÉM que não gostasse do Epaminondas. Era um homem de estatura mediana, o olhar sincero e penetrante, deveras misterioso e introvertido. Ao mesmo tempo, um sujeito dado e alegre, uma criatura que nos recebia sempre de braços abertos. Andava ligeiro, tanto dentro, como fora de sua casa e trazia um sorriso elegante dançando nos lábios, acompanhado de uma jarra de suco gelado de manga ou abacaxi e, dependendo das horas, de um cafezinho feito na hora, com biscoitos de maizena, que fazia questão de nos servir sem ajuda de quem o fosse visitar. Me lembro bem, Epaminondas chegou por aqui, na nossa cidade, há uns 15 anos.

No início, se mostrou uma pessoa circunspecta, fechada, quieta e pensativa. Quando começava a falar, com a uma voz macia e relaxante, todos o escutavam com atenção e respeito. Parecia que rodara o mundo inteiro, visto de tudo, e conhecido um pouco de cada lugar. Carregava, em si, uma enorme mala cheia de sabedoria. Das melhores. Às vezes, a gente sentava no alpendre de sua casinha modesta, de madeira, de frente para o muro de cerca sem portão, e ficávamos olhando à rua, ora tomando refrigerante, comendo pão com mortadela, ora jogando conversa fora. Para cada coisa que falávamos, o Epaminondas tinha uma resposta na ponta da língua, um conselho, uma história interessante para nos entreter.

Muitos de nós conversávamos com ele, e alguns diziam que se sentiam incomodados, porque parecia que o olhar dele, penetrante e prescrutador, atravessava a nossa alma e buscava, lá no fundo, alguma coisa escondida, oculta e muito além do horizonte das aparências. A minha amiga Marlúcia, de dezesseis anos, asseverava que gostava de papear com ele, porém, quando ele a examinava, parecia que a enxergava além da sua sainha curta, onde um belo par de pernas se quedava à visitação de olhos pecaminosos. Às vezes, nessas horas, ela se sentia inteiramente nua na sua frente. Chegou até a imaginar que, talvez, ele fosse um pedófico tarado, ou um maniaco enrustido, que fugira de algum lugar.

César, meu vizinho, ia constantemente procurá-lo, dizendo que passava por uma espécie de crise existencial aguda, ou algo parecido, e o Epaminondas, nessas ocasiões, contava histórias da Índia, dos árabes, dos vikings, fazia relatos engraçados e, com isto, a sua aflição ganhava nova vida, a ponto dele se revigorar e regressar para seu cantinho disposto a enfrentar tudo o que viesse. As raras vezes que saía, colocava um chapeu velho e ensebado na cabeça, levava consigo seu cachorro, um pastor alemão que, apesar da aparência de brabo, se fazia amigo de todos.

Ficávamos admirados com o seu conhecimento ímpar e distinto, com as suas viagens ao redor do mundo. França, Portugal, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Japão, México, Itália. Será que havia algum lugar na face da Terra onde ele não tivesse passado? Existiria algum livro, algum romance, que não houvesse lido? Epaminondas falava de José Lins do Rego, Ariano Suassuna, discutia Raquel de Queiróz, Olavo Bilac, enumerava os personagens de José Saramago, Malba Tahan, Cecília Meireles, Graciano Ramos, e sabia de cor quase todos os principais trechos dos romances de Jorge Amado...

Sua visão imensuravelmente ampla de tudo, por menor que fosse, pairava em algum lugar além de nossa compreensão matuta. Como se algum anjo estivesse a fazer sinais para ele, conduzindo cada palavra, cada gesto, cada frase pronunciada. Quinze anos se passaram, e seu nome, vez ou outra, aparecia nos jornais, não só nas publicações da nossa apagada comunidade, igualmente nos periódicos de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus, destacando a sua figura como o homem de maior cultura e conhecimento que havia surgido desde que Pedro Alvares Cabral por aqui aportara nos idos de 1500.

Chegaram até a compará-lo a Budha, Julio Verne, Confúcio... Tinha gente que se deslocava de outras capitais como Brasília, Salvador,  Fortaleza, para visitá-lo, e ele tirava, escondida de dentro da manga, uma nova peripécia para contar, restaurando, nos corações de cada uma dessas pessoas, uma nova energia, não importando quem viesse ter com ele. Epaminondas contava 96 anos. Parecia, visto assim, numa rápida de visu, andar pela casa dos 50. Mês passado, numa tarde de domingo, narrava uma história, acho que um conto das Mil e Uma Noites. Notamos que passou, de repente, a ficar cansado enquando falava. Estávamos eu, o César, a Marlúcia, a Tânia, o Teodorico, o prof. Eduardo, da cadeira de Matemática e mais uns três ou quatro que não recordo os nomes.

O seu cachorro Mercuryo, deitado ao lado, companheiro inseparável, dormitava. Em seu colo, Sidharta, seu gato angorá, branquinho como neve. Num instante, do nada, ele deu uma pausa em sua fala e olhou para nós. Encarou a todos os presentes com uma blandícia adocicada. Sentimos, por breves momentos, como se estivesse espiando para dentro de nós, como se vasculhasse ou esquadrinhasse o nosso eu reconditado e dele quisesse guardar alguma coisa boa para se lembrar depois. Deu um sorriso largo e alegre, contudo, forasteiro, divorciado daquele rosto bondoso que conhecíamos cada ruga, cada dobrinha formada.

Então, no minuto seguinte, Epaminondas fechou seus olhos por breves segundos, aparentemente derreado, alquebrado e exausto. Aguardamos ansiosamente. Dormira? Quem sabe! Por certo, caíra num estado ordinário da consciência suspendendo temporariamente a atividade perceptivo-sensorial e motora voluntária. Trocado em miúdos, se entregara aos braços de Morfeu. Talvez sonhasse, a cabeça pendida para o lado, as mãos segurando Sidharta... Dez, quinze, vinte minutos, Epaminondas, com a mesma tranquilidade que falava conosco, nunca mais acordou. Ele dizia a todos nós, que adorava ficar sentado em umas pedras, próximo a umas bananeiras, na beira do rio que cortava a cidade. O rio que cortava a cidade era um rio imenso, de margem grandiosa, tão larga que se perdia, lá longe, em direção ao mar. Nesse local, ele foi enterrado. Mercuryo idem, igualmente sepultado ao seu lado. Morrera menos de duas horas depois dele.

Uma coisa bonita de se ver. Inesquecível. Nunca contei tanta gente em uma cerimônia fúnebre. Acho que tinha mais gente dentro da igreja do padre Belarmino, velando o corpo, no derradeiro adeus, do que moradores na cidade. O povo, em peso (bem ainda uma multidão vinda das localidades vizinhas, em carreatas a se perderem no distante), fez questão de dar o ar da graça, para as póstumas homenagens à ele. Dircinha, uma irmã que morava em Presidente Venceslau, interior de São Paulo, estava lá. Depois da exéquia, que se prolongou mais que o tempo devido, voltamos a nos reunir na casa onde ele morava. Mostramos à Dircinha, ou melhor dito, esmiudamos à ela, contando a pormenores saudosos da pessoa maravilhosa que o Epaminondas fora.

Como nos recebia, e como entrelaçava as histórias de todos os lugares pelos quais viajou, e o melhor, como via a nós, seus mais chegados amigos com a sua humildade, com a sua calma bucólica que parecia eterna. A irmã Dircinha, emocionada, nos ouvia em silêncio. Ao final, para espanto de todos, achou que estávamos gozando dela. Motejando da sua dor. Imaginem só, que loucura! Procuramos desfazer o desagradável entendido, acastelado às avessas, e saber a razão de sua incredulidade sobre o que lhe contamos com tanta distinção e respeito. Afinal, não poderíamos deixar que voltasse levando de nós, que convivíamos com Epaminondas por tantos e tantos janeiros, quaisquer resquícios que desse a entender serem de mágoas ou amarguras à pessoa do falecido.

Em resumo, depois do leque de boas lembranças que lhe expusemos,  ela disse simplesmente que não podia ser aquele Epaminondas (o irmão dela querido) que enterramos na beira do rio, apesar que os pertences restados na residência faziam parte da vida dele. E dela, de certa forma. Os retratos antigos e amarelados de quando crianças, as fotos dos pais, a casa de pau à pique onde viviam, o fusquinha que seu tio Zezinho dera ao seu progenitor... Por tudo isso, havia um pormenor que desconhecíamos. Uma particularidade, uma minudência com a qual nenhum de nós atinou ou se deu conta. O irmão dela nascera cego. Por vergonha  (só poderia ter sido essa, a razão), Epaminondas nunca usara óculos escuro para disfarçar, de todos nó, seus amigos, a sua completa falta de visão.

Para completar seu relato espantoso, Dircinha, assim como Epaminondas, vinham de uma estirpe de pais pobres, desprovidos da sorte.  Jamais  sobrou um centavo furado que desse condição do pobre homem sair para algum lugar, ainda que próximo de onde  moravam seus demais familiares. As perguntas que nos deixaram a todos encucados e boquiabertos: Meu Deus, como ele não enxergava nada? Como sabia de tantas coisas? O mais inexplicável, o mais impérvio, o mais inacessível: como caminhava para cima e para baixo, sem tropeçar, sem cair, sem se machucar? Como nos servia lanches e café? Epaminondas, meus amigos amados, só ouvia rádio e televisão... E pelo que ficamos sabendo, fez isso dia e noite, durante toda... Durante toda a sua vida...
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 9-6-2020

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