domingo, 11 de novembro de 2018

[Flagrantes do quotidiano] Os avós que deseducam

Ângela Marques

O neto não se afastou da saia da avó e, aproveitando isso, a avó plantou-lhe amor em cada centímetro de pele.


Era Verão, mas, no calendário daquela avó, a segunda semana de Agosto tinha um grande círculo vermelho à volta, símbolo universal para "dia tão ou mais importante que a véspera de Natal". Ela não conseguia (e na verdade não tentava nem um bocadinho) disfarçar a ansiedade: o neto emigrado ia voltar à aldeia - uma aldeia onde ele nunca tinha estado, mas que, quisesse ele ou não, lhe estava gravada no GPS interno como "casa".

Para ele, sentia ela, aquela aldeia teria de ser esse lugar mágico, parque de diversões e ninho ao mesmo tempo. Para o explicar numa Web Summit privada, ela falava numa língua que só os avós conhecem e dominam e que é feita de pulos e palminhas, olhos nublados a mareados e abraços tão apertados como imaginados.

Lá ao longe, o neto não sabia, mas aquela avó-árvore, mistura de eucalipto com embondeiro - alta, forte, muito forte e muito alta -, já dormia a pensar na sua chegada e acordava a sonhar com dias feitos de mimo. Refém do futuro, ela nem se queixava dos poucos dias que o neto passaria com ela - não tinha tempo a perder.

Quando agosto chegou os dias foram curtos e as noites imensas. O neto não se afastou muito da saia da avó e, aproveitando isso, a avó plantou-lhe amor em cada centímetro de pele. Sem querer, contudo, semeou-lhe também cáries por toda a boca. É que com toda a ternura do mundo, aquela avó não recusou um gelado, um chocolate ou um bolo. Porque, com todo o amor do mundo, ela não aguentou ouvir-se dizer "não" uma única vez.

Quando este novembro chegou, ela contou-nos tudo sobre as férias mais doces. Claro que a tentámos chamar à razão, fazendo todos os esforços para não parecermos o agoiro em forma de gente. Firme e forte como um touro, ela nem pestanejou. Parecia até descrente - como se se perguntasse em que mundo o amor de uma avó poderia fazer adoecer um neto. Dissemos-lhe que era neste e que não era má vontade nossa. Ela não percebeu. Aliás, ofereceu-nos mais uma fatia de tarte de amêndoa, só para nos dizer quanto gosta de nós.
Título e Texto: Ângela Marques, SÁBADO, nº 758, de 8 a 14 de novembro de 2018

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