quinta-feira, 4 de junho de 2020

Tempos modernos

Vitor Cunha

No ano da Graça de Žižek de 2032, numa cidade do Califado da Catalunha, dois adolescentes – Ablah, 34 e Khalid, 35 – descobrem o desejo sexual emanante da doce fragrância do amor. Andavam na mesma escola, a Secundária George Floyd, em regime de telescola através do Microsoft® Mass®. Um dia, por circunstâncias de um trabalho de grupo sobre eutanásia ambiental, Ablah confundindo os ficheiros, enviou a Khalid uma selfie pensando tratar-se de uma foto da Santa Greta. Khalid, ao ver a figura de Ablah, a única mulher que vira excluindo a mãe, apaixonou-se imediatamente. Qualquer rapaz daquela idade cairia pela doce Ablah e a sua foto sexy, de escafandro negro que oculta com descrição a arrojada burca interior por baixo do fato de apicultora. Nunca vira uma mulher tão despida.

Sua mãe, que desde sempre usara armadura de chumbo, não serviu de modelo para a compreensão da forma cilíndrica ligeiramente sextavada do corpo feminino. Khalid, aproveitando a distração de Ablah, enviou-lhe também um retrato. Ablah, ao ver a viseira, máscara cirúrgica e balaclava Armani, sentiu um inexplicável fogo, como uma infecção urinária das que o pai lhe costuma causar, mas com uma dor agradável, como a da tatuagem de #BlackLifesMatters que fez quando a papisa Mortágua tuitou a recomendação para todos os crentes.

Khalid, a medo, perguntou-lhe: “posso enviar uma foto menos vestido?” Ablah hesitou, mas cheia de vontade anuiu enquanto tirava a viseira do escafandro. Khalid enviou uma foto sem viseira. À medida que a roupa se ia tirando, o nervoso-miudinho de chegarem ao estado em que ficavam apenas com as algálias e os depósitos de urina no corpo dava-lhes uma sensação de bem-estar nunca antes experimentada por nenhum deles, nem Ablah com o pai, nem Khalid com o seu bode David. Por fim, completamente nus, acedem em retirar a sub-máscara do tipo cirúrgico agrafada à face que todos os jovens adquirem ao atingirem a puberdade no ritual pan-religioso de passagem à idade adulta, aos 32 e meio.

O calor, naquele mês de Jordan Peterson, nunca anteciparia o fervor que estes miúdos sentiriam neste mês de André Silva. Foi o mês de André Silva mais abafado da década de acordo com o relatório ISCTE/Instituto Greta-Gates. Toda a fruta que não foi destruída pela geada do mês de Rothbard sucumbiu ao calor de André Silva. Completamente nus, no Zoom, decidem retirar a sub-máscara.

Enquanto se masturbavam, os pelos nas palmas das mãos de ambos cresciam, mas não se importavam. Continuaram até ao momento do êxtase, altura em que, como lhes explicaram nas aulas de ecologia política do 7º ano, ambos sucumbiriam pelo Coronavírus. E foi o que aconteceu, desgraçando as respectivas famílias. Ainda hoje a história de Ablah e Khalid vem impressa nos manuais dos bonecos sexuais que o estado distribui como aviso para os perigos da perversão que é sexo entre dois humanos.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 4-6-2020

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