sábado, 21 de maio de 2022

Por uma escola sem segredos, sem intolerância e sem nexo

A quantidade de peritos preocupados com o sexo do corpo discente é diretamente proporcional às consumições que o sexo alimenta. Quanto mais criaturas esmiúçam o drama, maior é o drama.

Alberto Gonçalves

Quatro em cada cinco jovens LGBT ocultam orientação sexual aos docentes”, rezava a manchete do Público na terça-feira. A revelação, sem dúvida escandalosa, consta de um “estudo” do Centro de Psicologia da Universidade do Porto, o qual, para reforçar a indignidade, acrescentava que os alunos em questão não ocultam a orientação sexual apenas aos docentes, mas também aos funcionários escolares. Não tarda, nem sequer se assumem na papelaria onde compram as sebentas. O mundo está realmente perdido.

No “secundário” da minha juventude não havia segredos. Fôssemos homossexuais ou hétero, pansexuais ou assexuais, a nossa inclinação tornava-se familiar ao professor de Química logo após dez minutos da aula de apresentação. Lembro-me de um colega do 9º ano, o Zé Luís, que não pedia uma tosta mista sem antes informar a senhora do bar de que era (ele, não a senhora) scolio-sexual (o que, ao contrário do que possa parecer, não significa atracção por indivíduos que padecem de escoliose). E lembro-me do entusiasmo da turma no momento em que, a meio de uma partida de voleibol do 11º-F, a Carla Alexandra se confessou uma semi-rapariga panromântica não binária. Eu mesmo liguei de madrugada à “setora” de Inglês para esclarecer dúvidas acerca do simbolismo de um polo cor-de-rosa que envergara no dia anterior. A franqueza imperava.

E a franqueza era recíproca. Os professores, os funcionários e a senhora das tostas mistas naturalmente partilhavam conosco a sua identidade de género e as suas preferências sexuais. Eis uma saudação típica: “Bom dia a todos! O meu nome é Ricardo Areias, sou o vosso professor de Matemática, gosto de colecionar moedas e defino-me como ‘genderqueer’ com uns pozinhos de poliamoroso aos sábados. Os pronomes porque atendo são ‘aqueloutrx’ e ‘Y’. Bem, agora vamos lá ouvir com atenção a história da minha relação fluída com três técnicos dos serviços de água e saneamento que quero entrar na trigonometria logo no início do segundo período. Ou do terceiro, vá, que não pretendo criar ansiedade a ninguém.” Hoje, pelos vistos, não há nada disto. Hoje, receio bem, é possível que os próprios professores – e os funcionários, Deus do céu – escondam a sexualidade deles dos alunos.

O que causou tamanho retrocesso? Não foi de certeza a falta de “estudos”, inquéritos, associações, institutos e observatórios dedicados a analisar a situação – e a concluir sempre que está pior. Aliás, fica até a ideia de que a quantidade de peritos preocupados com o sexo do corpo discente (sem trocadilhos) é diretamente proporcional às consumições que o sexo alimenta. Quanto mais criaturas esmiúçam o drama, maior é o drama. Quanto maior é o drama, mais criaturas aparecem a esmiuçá-lo. E assim continuamos num círculo vicioso de ocultação, vergonha, bullying e outras calamidades, felizmente denunciadas por investigadores/ativistas. As calamidades aumentam em seguida? Aumenta-se, em subsídio e número, os investigadores/ativistas. E por aí afora.

Um troglodita reacionário e negacionista, passe as redundâncias, recomendaria juízo, o fim da histeria e o regresso da criançada a uma vida normal, cheia de dúvidas, maçadas e borbulhas. Sucede que sou uma pessoa sensível, pelo que nunca me ocorreria insinuar a existência de excessiva aflição com as tragédias hormonais da adolescência. Pelo contrário, afirmo sem hesitações que urge incrementar o nível de aflição. Na época atual, já não se justifica ocupar uma percentagem absurda dos programas com “matérias” anacrónicas e desligadas de uma realidade que começa em Harry Styles (um moço que se veste de mulher) e termina em desabafos no Tik Tok.

Se repararmos, em pleno século XXI ainda sobram uns intervalos em que o sistema educativo despeja nas cabeças dos petizes, das petizas e d@s petizex informações ridículas sobre Stuart Mill, Camões e Pitágoras, que além de caducos são símbolos da supremacia branca e do heteropatriarcado (não ponho as mãos no fogo por Pitágoras). É inadmissível. E é tempo precioso que poderia e deveria ser empregue nas supremas funções do ensino: poupar os fedelhos a contrariedades, convencer os fedelhos de que são espetaculares, garantir aos fedelhos que o mundo se curvará aos respectivos pés. Salvaguardadas a Educação Sexual e a Cidadania, importa substituir as restantes disciplinas em vigor por Introdução à Tolerância, Identidade(s) I e II, Inclusividade Avançada, História das Minorias, Culturas Trans(itórias), Princípios de Susceptibilidade etc. Imagino uma escola repleta de psicólogos, assistentes sociais, sociólogos e gabinetes de apoio. Imagino um “life coach” para cada aluno.

Não imagino é que, em semelhante sarrabulho, alguém aprenda alguma coisa. Óptimo: se aprendesse, no futuro não haveria profissionais disponíveis para dedicar a carreira a “estudar” o grau de intimidade entre professores e alunos. Ou há “estudos”, ou há estudo.

Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 21-5-2022

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