sábado, 21 de maio de 2022

[Versos de través] Porto

Vasco da Graça Moura


visto da margem sul do rio 
o porto não explode
sob a tarde de verão, a água reflecte 
renques de casario humilde a encastelar-se 
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recatos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo 
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo 
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar 
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão 
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha, 
o deslizar da luz para poente, tudo 
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco, sobre as barcaças 
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma, é quando 
a música há-de vir, lentamente elaborada na memória, 
como um sopro da infância e do indizível do mundo.

são estes sons de nada, estes voos que perpassam, 
estas estrias da sombra de ninguém 
sobre o curso do rio, como nuvens para esta hora, a 
encrespar-lhe de leve a superfície.

enquanto parte algum comboio atrasado, 
um avião se esvai ao longe, os escritórios fecham, 
quero um barco pequeno para a minha travessia, 
para a minha chegada e para a minha partida,

para andar entre as margens ou seguir a corrente 
até s. joão da foz ver as últimas gaivotas 
ainda antes da noite, respirar um não sei quê que se desprende 
da travessia, a atravessar-me,

halo vindo das camélias, perfume de penumbras 
de mulher, ou para sempre e para nunca mais 
um pó da lua na cantareira e na afurada 
devagar a acender-se mais rente ao coração.


Vasco da Graça Moura, Poesias 1997/2000. Lisboa, Círculo de Leitores


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Em todos os jardins 
Morrer de amor 
Quando o coração… 
bardo 
Magnificat 
Sonnet 20 
Impossível 

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