sexta-feira, 28 de julho de 2023

[Aparecido rasga o verbo] Sequelas

Aparecido Raimundo de Souza

“TENTEI ME PROIBIR de pensar em você. Mas como desistir, do que eu mais quero ter?...” Para alcançar o meu objetivo, procurei me impor um castigo que fosse severo, rígido, austero e, que no final, me desse o resultado esperado. Era questão de honra declinar daquilo que mais desejava estivesse continuamente ao meu lado. Comecei não comendo. Fiquei longe das guloseimas da minha geladeira, por uma semana. Não trouxe para casa o pão que a minha cara metade mais gostava, nem o doce de leite, nem o sorvete de morango, nem o queijo, ou o refrigerante. A geladeira, acredite quem quiser, até emagreceu.

A primeira semana passou. Rápida e rasteira. Veloz. Perdi alguns quilos. Fiquei depauperado, pior que a geladeira. Parei no pronto socorro. Contudo, a imagem da minha querida e adorada amada, continuou viva na minha cabeça. Decidi tentar uma segunda estratégia. Na semana seguinte, me abstive de beber. Esqueci da nossa pequena adega no porão de casa. Me olvidei dos vinhos que compramos juntos, e para me dar uma ajuda, por fora, escondi num lugar secreto as taças que ficavam visíveis e penduradas no barzinho da sala.

Nossos amigos das noitadas alegres vieram e me chamaram para participar dos encontros no “Bar do Tonho”, um espaço ameno no calçadão da praia, depois da volta do trabalho. Como sempre, eles continuavam promovendo as rodadas de cerveja até que alguém saísse da brincadeira pelo motivo de não aguentar mais segurar o copo ou ficar em pé e fazer diante de todos o famoso quatro (4), sozinho, sem sair estabanadamente do prumo. Recusei todos os convites. Cheguei a desligar o telefone e a campainha. De fato, por estarem desligados, não deram sinais de vida.

Não me interessava estar com eles. Os amigos, às vezes, se tornam um porre. Aliás, com ninguém, notadamente quando pressentimos que o porre maior somos nós mesmos os causadores. Lado igual, não teria graça, se a mulher da minha vida não estivesse ao meu abraço, agarrada ao meu pescoço, ou de mãos dadas, como as outras garotas que acompanhavam seus pares. Ainda assim, infrutífera se tornou também mais esta investida. A minha princesa continuou mais viva, mais presente, mais pulsante, mais tenaz em meu coração. Acabei perdendo os amigos de fé. Me tornei uma espécie esquisita de “asqueroso-indesejável.” Um chute no saco, grosso modo falando.

O “Tonho”, proprietário do bar, me segredou que a maioria dos meus, ou melhor, dos “nossos chegados”, passou a ver em mim um molambo ambulante. Um roto vestido à rigor, como uma dessas almas penadas que vagam por aí em busca de algo que não sabem exatamente o quê. Todavia, teimoso e acaturrado, irascível e encanzinado, não desisti do objetivo. Parti para uma terceira semana. Precisava ser forte e seguir em frente. Desta, seria para valer. Ou vai, ou racha. Optei, num dos finais de semana prolongado, me pôr de castigo, ou mais precisamente de joelhos, o focinho virado para a parede, os pensamentos embaralhados, as mãos trêmulas.

Repeti os flagelos e as admoestações das semanas anteriores. Não comi, não bebi, não falei com ninguém, não recebi vivalma. Sequer um copo de água levei à boca. Enquanto estive como um Buda, de costas para a porta principal, lobrigado ao castigo imposto a mim próprio, procurei pensar em minha “alma-metade”. Rever tudo o que fizemos de bom e de pernicioso. Foram oito anos de convivência à dois. Analisei profundamente os dias em que vivemos grudados um no outro. Aproveitei e virei do avesso tudo que construímos.

Igualmente trouxe à baila o que destruímos.  No final desta “via sacra” inconsequente, cheguei a triste conclusão que mais destruímos que propriamente edificamos. Apesar desses altos e baixos, dos desencontros, das inconsequências, das brigas e rusgas, ficaram, claro, muitas coisas inesquecíveis. E foi exatamente com elas, que aprendi lições importantes. Concluí, por exemplo, rememorando às virtudes e defeitos, a lidar com a solidão, bem como a conviver cotidianamente com a expiação e o açoite da saudade.

Aprendi, mais: que todos os que desafiam os caminhos do amor, ou por eles se aventuram, como eu, às cegas, acabam ficando fortes, cheios, interiormente, de uma força muito grande e poderosa. Concluí que todos nós, a cada manhã, saímos de casa em busca de coisas novas. E, por elas, subimos e descemos ruas, cruzamos por guetos e ladeiras, atravessamos sinais, enfrentamos o vaivém do transito desenfreado. 

Vale tudo nesta luta desigual pelo ponto nevrálgico que move a nossa vontade maior e nos impele a seguir aferrado atrás do objetivo almejado: a busca pela felicidade plena, ou mais objetivamente, onde ela se apresenta intocável, vulnerável, mansa e flexível, porém, irmanada, lá no fundo, a um propósito só nosso. E é exatamente isto que nos submete à peleja, à guerra acirrada e a não desistirmos, jamais de vivermos cada minuto como se fosse o último. Na minha admonenda “ralhosa”, de olhos cravados para a parede, como aluno insubordinado que aprontou todas, na hora do recreio, descobri algo engraçado e interessante.

E o que seria mais engraçado e interessante? Concluir de forma clara e concisa, que o mundo, apesar dos riscos de se bater a qualquer momento, com os burros n’água, ou de se dar de frente, com um abismo intransponível, o mundo (e dentro dele, a minha vidinha insossa, de certa forma vazia e chata, por não ter a beldade dos meus sonhos ao alcance das minhas fraquezas), me tem sido bem mais atraente e chamativo. Não foi atraente e chamativo, confesso, ter perdido o meu emprego. 

No meu castigo, concluí ainda o que me parecia ser mais difícil de acreditar: no impossível. E o que isto quer significar? Simples! O meu amor, ou o que eu acreditava ser o amor pela minha metade da maçã, não é, e, em tempo algum, chegou a ser o centro do meu universo. O emprego, então, nem se fala. Foda-se o emprego. O que conta, entre tapas e beijos, mortos e feridos é a conclusão que despencou de algum lugar e se postou diante da minha estupefatosa “abestalhação-grau-máximo”. EU SOU O CENTRO DE MIM MESMO, DENTRO DE UM UNIVERSO QUE GIRA, GIRA, GIRA, INCANSAVELMENTE AO MEU REDOR. O RESTO.... KI KI KI KI KI KI... O RESTO É LITERATURA. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 28-7-2023

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