domingo, 18 de setembro de 2016

Na cama com os pulhas

Alberto Gonçalves
É ridículo ter de o lembrar, ainda por cima num país ocidental e hoje distante da barbárie que regulamenta a matéria por exemplo no exótico islão, mas o que cada um faz na cama, sozinho ou com o consentimento do parceiro ou parceira, no singular e no plural, só aos próprios respeita. Fora da cama (ou do balcão da cozinha, do banco do carro, do jacúzi, dos lavabos nos aviões, etc. - as opções são inúmeras), cabe aos próprios escolher se mantêm o recato ou se caem no mau gosto de gritar intimidades ao mundo. Não cabe a terceiros, incluindo, sobretudo, a alguém que se diz jornalista.

E se alguém que se diz jornalista revelar em livro os hábitos sexuais de pessoas sem a respectiva aprovação? No mínimo, a proeza é um nojo. E um nojo que diz muito mais sobre quem comete a indiscrição do que sobre as suas vítimas. Não é particularmente relevante que a inclinação em causa seja a homossexualidade, embora seja notável que o outing, o processo em que gays expõem à bruta gays que preferiam omitir o pormenor, se assemelhe frequentemente a um castigo, uma humilhação pela orientação "desviante", e não a uma condecoração simbólica (que de resto seria igualmente cretina).

Pois bem, em Portugal alguém que se diz jornalista cometeu e publicou uma coisa assim. Sob o "estatuto", pessimamente amanhado, do estudo historiográfico, a coisa não passa de uma devassa da privacidade alheia. Repleta de fontes protegidas e de nomes escancarados pelas fontes, esse monumento ao voyeurismo e à falta de escrúpulos dedica-se a inventariar - ou talvez a inventar - dezenas ou centenas de homossexuais que nunca o "assumiram" (para usar um termo em voga entre os profissionais da delação).

Não sei se se trata de um crime, ou sequer de algo inédito em Portugal. Sei que ajuda à consagração da canalhice como modo de vida.

Para registo futuro, e prevenção sanitária, a criatura que se diz jornalista chama-se São José Almeida e, quando não se encontra a farejar sodomitas do "fascismo", assina textos ilegíveis no Público. A obra, no sentido escatológico da palavra, chama-se Homossexuais no Estado Novo e foi lançada em 2010 sem qualquer escândalo e perante a ocasional crítica entusiástica - o título e as simpatias ideológicas da autora explicam as reacções. Em 2016, o escândalo, até agora em repouso, irrompeu por causa do recente livrinho de José António Saraiva.



A acreditar na imprensa, e descontadas intrigazinhas menores, o livrinho "desvenda" a homossexualidade de uma única "figura pública", aliás já insinuada por gente do calibre de Ana Gomes e Francisco Louçã. Repito, para fintar eventuais gralhas: uma. O livro é uma porcaria? Não li e não duvido, mesmo que no verdadeiro esterco estejam aqueles que louvaram a ETAR da dra. São José para se horrorizarem imenso com o baldinho de lixo do arq. Saraiva. A propósito das diferenças, convém acrescentar que a ETAR mereceu apresentação de duas valentes "activistas" LGBT, enquanto o baldinho pode vir a ser apresentado (porquê, Deus meu?) por Pedro Passos Coelho. Nestas "temáticas", no fundo pretexto para servir outras, o direito à diferença é fundamental. E do dever da pulhice nem se fala.

Uma semana em Portugal
Uma das gémeas Mortágua, família cuja notoriedade define o país, mostrou quem realmente governa isto e anunciou um novo imposto sobre o património imobiliário ("para apanhar quem escapa ao IRS"). O PCP, que em matéria de assaltos não gosta de ficar à porta e invade furioso a horta, quer alargar o imposto ao património mobiliário, ou seja colocar a mão literalmente na massa.

A CGTP, que lutou pela "escola pública" (?), luta agora pelos trabalhadores despedidos dos colégios privados que se empenhou em fechar.

O secretário de Estado que viajou à conta da GALP não se demite do cargo mas demite-se de tutelar a GALP.

O Presidente dos "afectos" ouviu um par de "homólogos" estrangeiros jurarem-lhe pela pujança da economia indígena e não percebeu o sarcasmo.

O - passe a expressão - primeiro-ministro exibiu o imaginário que lhe habita a cabecinha e, em momento de típica erudição, sugeriu a Pedro Passos Coelho que vá caçar Pokémons. O - desculpem o termo - ministro das Finanças, que cá dentro compete em boa disposição com o dr. Costa, andou lá fora a jurar que trabalha imenso para evitar um segundo "resgate", que na verdade seria o quarto. Os portugueses que ainda não enlouqueceram já nem duvidam da necessidade do resgate, mas duvidam que o tenhamos quando precisarmos dele.

O problema é que os portugueses que ainda não enlouqueceram são uma minoria de resistentes. E um problema maior é que, aos poucos, a resistência perde razão de ser: a cada semana, o ambiente em curso convida à resignação e ao abandono.

De acordo com as sondagens, cinquenta e tal por cento dos cidadãos registam os sinais e acham que a coisa vai no bom caminho. No meio da desagregação geral, a opinião publicada aflige-se com a entrevista de um juiz (pretexto para exaltar o eng. Sócrates), as memórias de um antigo assessor (pretexto para criticar Cavaco) e os mexericos do arq. Saraiva (pretexto para demolir Passos Coelho).

Portugal é uma casa em chamas onde os moradores só se preocupam com a fechadura que range. Não tarda, estamos a olear a porta reduzida a cinzas. E a culpar a "direita", a "Europa" e a Via Láctea pelos estragos. A Via Láctea não é nossa amiga. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 18-9-2016

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