terça-feira, 17 de janeiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Os três desejos

Aparecido Raimundo de Souza 

“A Justiça é uma puta bem safada, tão envergonhada de si mesma, que esconde os olhos numa venda”.
(‘Pachá’ - Pensador de Rua – Praça da Sé – São Paulo)

Diz um provérbio árabe que o homem, para ser totalmente realizado, necessita dar existência a três coisas consideradas fundamentais: ‘plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho’. Com todo o respeito, desculpem a intransigência, ou a intolerância, mas a elas tomaríamos a liberdade de acrescentar mais três itens distintos, claros, não no sentido de deturparmos o anexim ou discordarmos de quem quer que seja.  Seria, na verdade, unicamente para trazermos à baila a extensão dos nossos sonhos. Devaneios, temos certeza, também presentes na cabeça de muitos milhões de brasileiros.

Dirão os pacóvios, à boca miúda, que ‘esses desejos’ não passam de loucuras inventadas por meia dúzia de debilóides.  Bobos da corte, ou  ‘chínfrios filósofos’ de meia tigela, iguais aos da Idade Média, que viviam nos palácios dos príncipes e nobres, divertindo os bens nascidos com momices e ditos chocarreiros. O fato é que do alto dos nossos sessenta e três anos, escrevemos filhos, plantamos livros e tivemos uma manada (manada?!) de árvores. Sistematicamente nessa desordem...

Em nenhum momento desse mais de meio século, é bom que deixemos registrado, nos julgamos efetivamente donos da situação, ou seja, não fomos, ou não somos felizes. As senhoras e os senhores, perguntarão: o que faria de nós, ilustres idiotas nos sentirmos plenamente realizados para partirmos daqui alegres e saltitantes se, claro, batêssemos hoje, com as caçoletas do destino no cais onde a barca de Caronte nos espera ancorada?

Caronte, ilustrado por Gustave Doré, para a Divina Comédia
Se não botarmos fora esses ‘encobertos’ que fluem de dentro do nosso âmago, como bombas prestes a explodirem -, ainda que, para alguns, possam parecer contrários e pecaminosos à moral, a ética e aos bons costumes – ficaríamos entalados como se tivéssemos com dois ovos quentes na boca. Os prezados que nos leem alguma vez na vida passaram pelo ridículo de terem as bocas entupidas com dois ovos quentes engasgados na linha da garganta? Deveriam experimentar!!!

Sempre achamos, continuamos com a ideia fixa na cabeça e vamos morrer pensando dessa forma: o homem que não é ignavo e preza, acima de qualquer filosofia, a sua honradez, deve fazer e falar o que bem entende. Expressar, sem medo de represálias seus pensamentos, convicções e anseios, sem se acovardar diante das leis, da ordem, da moral, da ética e da sociedade. A sociedade que vá para a casa do caralho. 



Que tudo mais voe pelos ares junto com aqueles afetados pela hipocrisia, pelas ‘caras fingidas’, fulanos que têm sangue de baratas correndo nas veias. Igualmente, que parem nos quintos, de braços dados com o capeta, os boçais e cagarolas, que se julgam amordaçados, ou que preferem, na hora ‘H’ calarem seus bicos e silenciarem a voz, ao invés de abrirem o peito e liberarem todo o gás venenoso que corrói o íntimo.

Que sumam os covardes que se negam a se livrarem, de vez, daqueles entraves presos sufocando as goelas, impedindo que os direitos da livre expressão batam asas e a vontade de serem autênticos enfraqueça ou se esgote, juntamente com o ilimitado arbítrio, esbofeteando, a duros golpes, o bom senso, permitindo que o ridículo crie forças e se agigante.

Resumindo: os atolados de espírito que temem a censura e abaixam a cabeça diante da sua presença, que enfiem o dedo no rabo e façam como o velho Abelardo Chacrinha Barbosa ensinava: ‘rodem, rodem, rodem, até o medo fazer biquinho e feder’. Pronto. Vomitamos as substâncias nodosas que teimavam em fazer germinar os embriões de uma nova leva de otários que, mormente aos anteriores, insistiam em permanecerem enclausurados dentro de nossas almas.



Vamos abrir um parêntese para detalharmos sobre nossos sonhos secretos e, no mesmo impulso dissertarmos sobre as ‘tais aspirações maiores’ que se estendem aquém do simples gesto de plantarmos uma árvore, escrevermos um livro e darmos vida a um filho. O que seria, então, mais gratificante que o belo gesto de cultivar uma árvore? O que daria mais prazer em escrever um livro, ou ter um filho?!

Com a árvore cuidaríamos para que a natureza fosse preservada e mantida a zelo, e num futuro próximo nossos descendentes respirassem um ar livre de impurezas. O livro legaria à posteridade todas as experiências de uma trajetória de vida, com lições diárias de um aprendizado meticuloso, sofrido na carne e sentido na pele.

E o filho? O filho perpetuaria a espécie, propagaria a raça. Manteria viva a ramificação do tronco genealógico. Imortalizaria a linhagem dos futuros consanguíneos que dele surgissem tornando, sobretudo, imorredoura e perdurável a vitalidade da estirpe.

Porém, tudo o que até agora alinhavamos, serviria tão somente para levantarmos a moral decaída do cidadão pacato, acomodado, tranquilo e idiotamente bocólisado. Jamais, para nós, que pensamos adiante do que vislumbramos além do céu que nos contempla. Em nada do que aqui elencamos, se situaria as ‘nossas aspirações’. Tampouco as nossas ‘fantasias de consumo’, as ‘raridades’ de um ser humano ‘trivialmente incomum dentro do politicamente usual’. Não saberíamos explicar os ‘por quês de nos assistirem honrarias que, de certa forma, excedem o impossível, sem querermos parecer pedantes ou melhores que ninguém.

Ora, senhoras e senhores, muitos certamente se perguntarão: se plantar árvore, escrever livro e gerar um filho nunca fizeram e nem farão a felicidade dessa criatura pacata, que pretende, afinal? Quais suas ânsias e ambições? Suas aspirações e cobiças, num país onde prolifera o caos total e a anarquia dos baderneiros?  A resposta é simples. O que almejamos é muito comum e igualmente de facílima compreensão.

Talvez até mais corriqueira essa compreensão, que a moral embutida no provérbio árabe citado no início de nosso artigo. São, portanto, nossos desejos, livres de ornamentos afrescalhados, elevados, porém, distintos e cheios de virtudes e magnanimidades.


Oxalá, que desejos seriam esses? Vamos lá. Primeiro desejo: darmos uma escarrada bem dada no rosto do nosso querido presidente quando esse infeliz vem a público com palavras ensaiadas engambelando os trouxas. ‘não existe carestia, não existe inflação, não existe estado paralelo. O País está nos trilhos, o real é forte como um touro, o fantasma do desemprego é pura  intriga da oposição, a segurança caminha impecável, o povo não passa fome, a seca do Nordeste foi dizimada e os Zés-Dos-Anzóis esparramados por aí  não morrem nas mãos de bandidos e fora-da-lei’.

Segundo desejo: obrarmos (para aqueles que não sabem, ‘obrar’ é o mesmo (que cagar, evacuar, bater uma laje, soltar um barro, passar um telegrama) na Constituição Federal depois de mandarmos para o papo, uma boa feijoada com tudo que tivéssemos direito. Essa suposta Lei Maior, essa porra de Carta Magna que os grandalhões tanto dizem acatar, respeitar, estimar e considerar, não passa de um conjunto de  deveres malsucedidos. Não trafega além de normas regulamentadoras de uma instituição falida, fracassada, frustrada, mal gerada.  Na prática, só existe bonitinha e cheirosinha  no papel.

Terceiro desejo: limparmos o traseiro emerdado (cheio de bosta) na Bandeira Nacional, símbolo que outrora tremulava imponente com o verde das nossas matas, o amarelo do nosso ouro, e o indiscutível azul do nosso infinito e porque não, com o branco e sem manchas da paz que restou nodoada e manchada. Esses seriam nossos três desejos.

Diante do que trouxemos à baila, que atire a primeira pedra (e aqui fechamos o parêntese aberto) aqueles pais de famílias, os assalariados, os aposentados, os pensionistas, os policiais, os professores, os médicos, enfim, cada representante da sua categoria, que aqui se veja ou se sinta enquadrado, como também aqueles pacatos e singelos homenzinhos de vergonha e caráter, que não comunguem ou não compartilhem conosco, da vontade doída e ardente que chega a dar cócegas nos nervos, de realizarem (mesmo que depois apodreçam atrás das grades), com regozijos plenos, essas três proezas.

Acaso alguém teria dúvidas em responder se o brasileiro, de um modo geral é feliz? Se realmente se sentisse despreocupado e alegre, por que nas festas populares as pessoas saem às ruas caracterizadas de Bin Laden? Por que na malhação de Judas a população não castiga a criatura que, segundo a Bíblia, teria traído Jesus? Por que ao invés dele, malham os políticos?

Os jornais de todo o país publicam, diariamente charges e comentários  que, se estivéssemos no tempo da ditadura, os seus autores estariam vendo o sol nascer quadrado. Não queremos falar nos humoristas do antigo Casseta&Planeta, da Rede Globo, a cada novo programa mostravam, com estardalhaços cada vez mais achincalhantes a pouca vergonha dos nossos políticos, bem como a falta de respeito pelos cidadãos comuns e, quando mencionamos comuns  referenciamos a enorme legião de famintos, esfarrapados, humilhados e injustiçados que sobrevivem nas periferias deste imenso rincão.

Nossos desejos representam, pois, acima de tudo, a vontade desse povo sofrido, a consciência de uma geração aflita, de uma plebe posta de lado, rejeitada, abandonada à sorte. Muitos não falam porque temem os ‘rigores podres das leis’. A justiça é implacável com os humildes, com os negros, com os favelados. Sabemos, por baixo dos panos, protege os poderosos e acoberta as suas falcatruas. Vivemos num País onde o Chefe da Nação sustenta que a justiça é uma caixa preta. Todos temos  consciência plena de que a justiça é, de fato, uma enorme caixa preta.

Mais especificamente, um saco de gatos, um covil de malfeitores, um ninho de cobras. O Senhor Lula quando brincava de presidente, dizia  isso e meia dúzia de figurinhas intocáveis o interpelaram através de processos judiciais. Fizeram, aconteceram, espernearam e qual foi o resultado? Pizzas! Dilma Roubousset também fez e aconteceu e não deu em nada. Agora Temer arma o jogo, promete, despromete,  e o cenário é o mesmo de quinhentos anos atrás.

No Brasil, desde o descobrimento, tudo acaba em pizzas. Sabores os mais variados. Pizzas servidas em mesas enormes, regadas com muito vinho e pinga (pelo amor de Deus, nenhum afronto aos ‘cachaceiros’ em serviço) bem ainda refrigerantes, para ajudarem a descer melhor e não engasgarem nos gogós dos que pregam um moralismo deturpado, inconsistente, sujo, nojento, lambrecado de repugnâncias mesquinhas e desprezíveis.

Todos nós temos dentro do coração um pouco de Bin Laden, de Bush, de Saddam, de Hitler, do motoqueiro do parque, do bandido da luz vermelha, dos irmãos Cravinhos e das Suzane Richthofens da vida. Adoraríamos, nem que fosse por um milésimo de segundo estarmos na pele dos comandantes do PCC e outras facções para comandarmos o tráfico de dentro dos presídios de segurança máxima, de podermos matar os desafetos, atearmos fogo nos ônibus, atirarmos contra policiais, passearmos para cima e para baixo em aviões da FAB e da Polícia Federal, cercados por fortíssimos esquemas de segurança, tudo em nome dos nossos sonhos e desejos e, claro, o mais importante, em nome da desmoralização, da esculhambação, dos estardalhaços e atropelos do nosso Brasil sem porteiras.

Em igual trilhar, gostaríamos de derrubar os prédios públicos de Brasília, ver transformado num monte de escombros o Senado, a Câmara, os ministérios, os palácios suntuosos, as mansões com seus terrenos a se perderem em metros quadrados, onde vivem as turminhas dos intocáveis dos terninhos de grife, dos putatos (‘putatos’, a mesma coisa que filhos da puta) de sapatos bem engraxados, dos que andam em carrões com motoristas de quepes e luvas brancas, dos que transgridem os sete pecados capitais multiplicados setenta vezes sete. Também nos faria um bem enorme massacrarmos, nas pedradas, nos socos e pontapés, essas criaturas zelosas que elegemos para cuidar dos nossos anseios e objetivos mais prementes.

Por extremo, acalentaríamos mostrar a nossa outra face, a oculta, ou seja, aquela área sombria e apavorante, a que não aflora porque o sistema coíbe, pune, prende, retalha.

Alguns dos senhores se recordam de terem visto ricos nas cadeias? Deputados atrás das grades?  Senadores da República prestando depoimentos em delegacias? Por favor, apontem um só (tirando o Eduardinho Cunha) personagem, um só do governo, ou ligado a ele, que esteja mofando no xilindró. Em contrapartida, o homem do dia a dia, o infeliz, o Zé Bozó, o pretinho que mora lá no alto da favela, com certeza, em algum cubículo, estaria pagando a sua pena.  Para ele a justiça existe. Existe no sentido de fritar a sua carne e arrancar seus ossos. 

Os que têm dinheiro, senhoras e senhores, compram a liberdade, acoitados pela justiça, os que não têm, mofam nas masmorras do Estado, e sofrem as piores penas de restrição à liberdade, ou dito de outra maneira, a caixa preta, vem para cima deles como presente de grego. Todos nós temos dentro do coração e isso é sempre bom repetir, repetir, repetir, indefinidamente, um pouco de Bin Laden, de Bush, de Saddam, de Hitler, e de todos os outros ilustres anarquistas e terroristas que deixaram marcas na humanidade.

Gostaríamos de guerrear com as coisas que estão erradas e fogem aos padrões legais. Afinal de contas, tirando esses párias que vemos todos os dias por aí, que abundam no Epicentro Brasília indagaríamos: essa gentalha serve para quê?  Será que esses nossos ilustres companheiros carregam, no peito, a intenção de acabar com o amontoado lixo, com a podridão, com os ratos, as lacraias e as baratas de esgoto?

Em paralelo, todos nós adoraríamos fazer uma reforma, não da previdência, ou do judiciário. UMA REFORMA no grande circo de palhaços que comandam o espetáculo, que tomam conta do picadeiro. Uma reforma nos que escrevem os capítulos dessa novela chata, repetitiva e agastada. Mudarmos os diretores, os roteiristas, os iluminadores, os contrarregras.  

Substituirmos o elenco de artistas que já nos encheram bastante o saco e cujas fuças estamos cansados de ver na telinha de nossos aparelhos de tevê e, pior, em horário nobre. No meio dessa balbúrdia toda, meus caros, duas coisas são certas como a morte de Cristo no Calvário e o continuísmo da podridão que nos assola:
1ª) querer nunca deixou de ser sinônimo forte de poder e,
2ª) o brasileiro não pensa forte, não é decidido não vai à luta. Acostumou há tempos,  trocar seu voto por uma cesta básica e a vergonha pelo pagamento de uma conta de luz.

Enquanto essa reforma política (que tanto alardeiam os safados e ladrões que vivem na Capital Federal) não se realizar - primeiramente na cabeça de cada cidadão de bem, de cada homem honrado que não tenha sangue de veado com prostituta nas veias, evidentemente acompanhada de uma CPI do Bom Senso, o Brasil que vemos aí - continuará ao deus dará, ao salve-se quem puder. Um quadro lastimoso que, a cada dia, nos trará à memória uma frase bastante oportuna (mencionada aqui em outros artigos) da Revolução dos Cravos, acontecida em 1974. ‘TODO O PODER ÀS PUTAS, QUE SEUS FILHOS JÁ LÁ ESTÃO’.


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Título, Imagens e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, São Paulo, 17-1-2017

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