quarta-feira, 24 de maio de 2017

Temos que compreender o terrorista, não odiemos os oprimidos

Vitor Cunha

Uma das ocupações em alta, das que tem vindo a ter mais saídas profissionais, é a de comentador de terrorismo islâmico (uma redundância). Trata-se de uma ocupação que consiste em explicar as motivações dos terroristas, coisa que se obtém através de anos de estudo em ciências sociais e teorias de género pós-feministas e humanitárias, competências adquiríveis, por exemplo, através do programa de doutoramento em estudos feministas no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Outro meio para a aquisição de competências na área da compreensão das motivações dos terroristas é ser um idiota chapado, coincidentemente, um dos requisitos não mencionados para a admissão ao programa de doutoramento mencionado.

Manchester Arena, photo: Jon Super/Reuters
Nas televisões e nos jornais, como cogumelos, brotam do húmus inúmeros especialistas em especialidades que juram a pés juntos — evitando assim expor o heteropatriarcal sexo biológico, uma aberração da natureza — que o mundo ocidental é culpado, por infortúnio de inúmeros pecados, de fomentar a carnificina de multidões indiscriminadas, gente que o terrorista não conhece, logo, pessoas dotadas apenas de uma espécie de Pecado Original que os torna indiscutíveis culpados e candidatos admissíveis para uma gloriosa matança.

Outros, mais sofisticados que os anteriores, tal como o caracol é uma evolução da lesma desprovida de carapaça, salientam, inclusivamente, dois factos que deixariam as mães hippies orgulhosas com tamanho brilhantismo:

1) havia mais terrorismo na Europa nos anos 70, mérito dos revolucionários marxistas, gente simpática que, talvez por fraqueza, evitava a carnificina de crianças;
2) os terroristas islâmicos são habitualmente nativos do país onde a matança ocorre, daí que nada disto tenha a ver com fronteiras e políticas de emigração, como que sendo o problema mais difícil de combater do que através de simples fecho de fronteiras seja motivo para regozijo. Que alegria: o terrorista tem passaporte inglês, é meu vizinho, não é um estrangeiro desconhecido!

Em qualquer dos casos, é sempre necessário salientar que o Islão não tem nada a ver com terrorismo, tal como uma prostituta não tem nada a ver com gonorreia: são coisas distintas e é possível ser um devoto muçulmano sem ser terrorista, tal como, como já verificamos, também é possível ser um idiota chapado e doutorado ao mesmo tempo. Importante é referir que todas as religiões são uma porcaria, umas mais que as outras, por motivos culturais. Cristãos e judeus são reles, muçulmanos são apenas pessoas num processo de evolução igualitário, vítimas de opressão heteropatriarcal e, como tal, passíveis de compreensão quando se rebentam matando crianças e adultos de castas reles. Importante é combater as fobias, as xeno-, as homo-, as multi-, nem que para isso seja necessário fechar os olhos ao próprio atentado (não é xenofobia?), às execuções de homossexuais (não é homofobia?) e ao triste destino dos depósitos de esperma a que chamam mulheres por estes libertadores da opressão mundial a que erradamente chamamos terroristas (não é misoginia?).

Como diz o nosso Querido Líder, “por cada atentado realizado, dez são evitados”. Isto é verdade, tal como é verdade que por cada palerma que “compreende os terroristas” há dez pessoas dispostas a pagar-lhe o bilhete de ida para Mosul.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 24-5-2017

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