domingo, 10 de maio de 2020

Estado de exceção

A exceção tornou-se a regra. Nem Marx, nem luta de classes, nem estado social: o estado de exceção permite tudo e o seu contrário. Sempre em nome do cumprimento das regras. E do socialismo, claro.


Helena Matos

Jornalismo por medida. Assim que o PS chega ao poder uma espécie de regra não escrita passa a vigorar: a um governante socialista em Portugal não se fazem perguntas sobre o que fez, mas sim sobre o quer ou queria fazer. Não cumprir essa regra é a forma mais rápida de alguém passar de bestial a besta em Portugal.

Esse alguém é agora Rodrigo Guedes de Carvalho, por causa da entrevista a Marta Temido, como já foram José Rodrigues dos Santos, porque em Maio de 2016, em plena época do milagre da geringonça, apresentou números sobre a crescente dívida portuguesa, Vítor Gonçalves, porque perguntou a José Sócrates de que vivia, Felícia Cabrita, porque revelou o escândalo Casa Pia.

Um socialista português é aquela pessoa que não vê qualquer contradição entre elogiar a coragem do jornalismo norte-americano no caso Watergate, ou “com o Trump” sobretudo “com o Trump”, e vaiar a jornalista portuguesa  que na noite das eleições em 2011 perguntou a José Sócrates se temia que a sua saída da política abrisse ou acelerasse o caminho a novos processos judiciais.

Uma coisa não é o que é nem o que sempre foi. E por isso uma manifestação não é uma manifestação, um festival não é um festival e uma venda de bifanas não é uma venda de bifanas.  Não vem dinheiro suficiente da Europa para escamotear que a dívida do Estado português canibalizou os recursos que agora precisamos?

Se necessário, em Setembro, o PCP faz “a festa” que não é “a festa” mas sim atividade política com uma componente de festival que não é festival e de venda de bifanas que afinal não é venda de pedaços de carne de porco acompanhado por um suculento molho mas sim um momento cármico de comunicação com as forças do cosmos… Festa, festival e bifanas, com o devido distanciamento social, levarão a uma espécie de missa-vudu contra os maus espíritos daqueles países que recusam colocar os seus contribuintes como patrocinadores vitalícios dos socialismo de Estado praticado em Portugal.

Capítulo seguinte, o PCP apresenta a conta: mais uns acordos coletivos, mais umas portarias de extensão… (sobre o funcionamento de tudo isto escreveu Rui Ramos um artigo que se recomenda) e António Costa pronunciará uma daquelas frases que inicia com um “não me passa pela cabeça…” e acabam com o PS incensado como partido charneira do regime entre um PCP dinossáurico e o perigo da escalada da direita. Em conclusão: desde a invenção do rolo de cozinha que o PS português não conhecia algo tão útil quanto o estatuto excepcional do PCP em 2020.

A exceção pode ser racismo ou inclusão. Tudo depende de quem a propõe. André Ventura defendeu um programa de confinamento especial para a “comunidade cigana”. Ou seja, um tratamento excepcional.  Racismo – gritaram os ativistas e depois toda a pátria, não se desse o caso de acabarem expatriados aqueles que não gritassem “racismo!” com suficiente convicção. A proposta de um tratamento excepcional feita pelo líder demissionário do Chega é tão despropositada e se quisermos racista quanto todas as outras propostas apoiadas e incensadas como tolerantes, progressistas e, pasme-se, inclusivas que tratam alguns portugueses não como os cidadãos que efetivamente são mas sim como um grupo ou comunidade, como agora se deve dizer. O absurdo das excepções que em nome da proteção às comunidades se aprovam e legitimam não tem explicação: tanto se tolera o casamento de meninas como se concedem bolsas de investigação específicas para mulheres. Tanto se condena o racismo como se aceita que certas comunidades se odeiem entre si…

PS. Qual o termo que se deve utilizar para classificar a proposta feita pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, de um confinamento especial para os velhos?

A excepção que rapidamente se torna regra. A Comissão da Carteira de Jornalista recusou o título profissional a António Abreu, responsável pelo site Notícias Viriato considerando que não existe nele “atividade jornalística”. Não vou discutir a atividade jornalística do site em questão pois pela mesma ordem de raciocínio a Comissão da Carteira de Jornalista também retirará a carteira a quem trabalha em meios afetos a clubes desportivos. Ou a partidos. Isto para não irmos mais longe nem a casos bem mais complicados. Queremos mesmo isso? Ou estamos diante de uma comissão ideologicamente à medida?

A questão está longe de se circunscrever ao caso concreto de António Abreu pois o argumentário agora usado para não atribuir a carteira profissional ao responsável pelo site Notícias Viriato abre um precedente perigoso: invocando que o jornal, site, rádio… em questão está “na lista de vigilância” de um observatório qualquer (no caso foi o Medialab do ISCTE mas há muitos mais disponíveis) não se atribui carteira profissional a quem neles trabalha. Começa-se invariavelmente por uma publicação mais ou menos marginal que é fácil anatemizar. Chegar às outras é apenas uma questão de tempo.

Um mundo verdadeiramente excepcional. O mundo tornou-se ele mesmo um lugar de excepção no verdadeiro sentido do termo. Assim  a UE  que se propõe liderar o combate mundial ao Covid aceitou  que a China censurasse a carta dos embaixadores europeus em Pequim, retirando a referência à origem da covid-19 que constava no texto original. Almas mal intencionadas dirão que não há nada de excecional nisto pois a UE acumula uma série de anúncios sobre combates mundiais que vai liderar e que nem sequer travou no verdadeiro sentido do termo. Contudo e mesmo vivendo em estado de exceção uma pessoa ainda se surpreende. Por exemplo, ao ler “OMS desaconselha o encerramento de mercados como o de Wuhan,” quantos de nós acreditaram estar lá escrito aconselha e não desaconselha?

Enquanto se aguarda que a OMS indique os mercados fora da China onde começaram epidemias que depois alastraram ao mundo, temos tempo para tentar perceber  o excepcional silêncio em torno do caso belga: com 740 mortos por milhão de residentes, a Bélgica é uma excepção quer nos péssimos resultados, quer na indiferença com que estes são recebidos.  Nos poucos artigos dedicados ao assunto aceitam-se como boas e suficientes as explicações das autoridades belgas sobre a sua forma mais rigorosa de contar os mortos. Ora essa explicação seria válida se estivéssemos a falar de números próximos dos outros países, o que está longe de ser verdade: a Espanha tem 566 mortos por milhão de residentes e a Itália 503. No país-centro da UE está a acontecer o quê? Que pessoas são estas que estão a morrer? Há ou não uma relação entre estes números e a banalização da eutanásia tal como ela aconteceu na Bélgica? O que diz sobre nós o excepcional silêncio sobre a Bélgica?
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 10-5-2020, 6h58

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