quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Carta aberta ao meu país

Manuel Bourbon Ribeiro

Tenho 17 anos e uma vida pela frente. Sinto que posso fazer algo pelo meu país, podemos todos. Porém, tu pareces que não queres que eu o faça. Aliás, não queres que o faça nem ninguém da minha geração.

Querido Portugal,

Se esta carta fosse escrita há 500 anos provavelmente estava com medo de te escrever. Provavelmente a tua grandeza ter-me-ia me assustado e não teria coragem de te dirigir a palavra, mas, a verdade é que não és tão grande como outrora. O mundo já não fala a tua língua e já não tens qualquer influência nas políticas internacionais. Já não és o centro do comércio e nem sequer és mais inovador que os outros. Tu mudaste. Talvez a culpa seja nossa, portugueses. O aparecimento do Quinto Império, profetizado por Fernando Pessoa, teima em não surgir e, arrisco-me a dizer, está tão próximo como o regresso de D. Sebastião.

Não tenho qualquer autoridade para te criticar ou emitir juízos de valor acerca de ti, mas já que toda a gente o faz, mesmo quem nada percebe, arrisquei fazê-lo.

Eu tenho 17 anos e uma vida pela frente. Sinto que posso fazer algo pelo meu país, podemos todos. Porém, tu pareces que não queres que eu o faça. Aliás, não queres que eu o faça nem ninguém da minha geração. Nós somos sonhadores, também já tiveste a nossa idade. Achamos que podemos fazer tudo e alcançar o céu. E a verdade é que conseguimos mesmo. Mas tens que nos ajudar, tens de nos encorajar e proporcionar-nos uma educação que nos permita sonhar. Precisamos de acreditar que podemos fazer a diferença. Não nos mandes para fora, este é o nosso país, foi aqui que crescemos e tem de ser aqui que vamos singrar. Só precisas de nos ajudar. O resto? O resto fazemos nós, tal como os nossos antepassados fizeram nessa tal altura em que eras grande, lembras-te?

Mas como é que eu posso fazer algo grande do modo que tu estás?

Como é que eu posso fazer algo grande se em vez de me ensinares os grandes feitos por ti alcançados no passado e de me fazeres ter orgulho por fazer parte de ti, te preocupas em impingir-me coisas sem sentido como seja a ausência de diferenças entre raparigas e rapazes numa idade em que nem sei ler? Ensina-me a pensar, ensina-me Ciências ou História porque de sexo não percebes nada. Já se dizia que temos de olhar para a História para preparar o futuro. Mas, pensando melhor, como é que eu posso escolher o meu futuro se nem sequer a escola onde estudo posso escolher? Como é que posso confiar em ti se nem me deixas escolher o hospital onde quero ir? Como é que me dizes que sou livre se depois não me deixas ser? Já está na hora de perceberes que eu decido melhor que tu, quando o tema é a minha educação ou saúde. Já é tempo de perceberes que se continuares assim vão continuar a morrer pessoas à espera de consultas. Dá-me a liberdade para escolher!

Como é que me dizes que sou livre se me tiras mais rendimentos hoje do que alguma vez me tiraste? Por outras palavras: como é que me dizes que sou livre se grande parte do dinheiro que eu ganho vai para ti e nem sei bem o que fazes com ele? Por que é que não me ajudas a criar o meu negócio através de poucos impostos? Ao cortares as pernas à iniciativa privada estás a impedir-me de progredir. Estás a impedir-me de te ajudar. Estás a desajudar e não a ajudar. Como é que não percebes isso?

Portugal, tu estás diferente. Onde é que estão os grandes governantes a que me habituaste? Antigamente os reis e ministros iam parar ao panteão. Hoje quem governa, ou suborna ou vai parar à prisão.

Depois admiras-te que quase metade de nós não vai votar. Como é que eu, com 17 anos, não posso escolher o destino do meu país, mas posso mudar de sexo? Não reclamo que a idade para votar seja mais baixa, mas mudar de sexo?! Achas que me estás a ajudar se me incentivas a ser outra pessoa que não aquela que veio ao mundo com o meu nome? Achas que com 16 anos tenho capacidade de negar aquilo que sou? Pareces mais parvo que eu quando decido escolher o caminho mais fácil por imaturidade. Posso ainda nem ser maior de idade, mas sei que a vida é tudo menos fácil.

A vida não é fácil, mas é algo valioso, o mais valioso que temos. Infelizmente não o é para todos. Olha o exemplo dos doentes terminais. Achas que a melhor maneira de melhorar a sua vida é acabando com ela? Claro que não. Quem és tu, Portugal, senão aquele que me deve proteger? Quem és tu senão aquele que me deve proporcionar uma vida boa, independentemente das minhas circunstâncias? Por que é que me ajudas a acabar com a minha própria vida sem me tentares ajudar primeiro? Por que é que em vez de me matares não me dás uma nova vida, nem que seja por uma semana? Por que é que em vez de investires dinheiro em matar-me não investes em cuidados paliativos para que, pelo menos quando morrer, possa estar a sorrir e não anestesiado?

Por que é que não defendes a vida humana por tão pequena que ela seja? Uma vida nunca é insignificante e até um embrião é uma pessoa. Por que é que me incentivas a matá-lo e não me ajudas a ser feliz com ele?

Por que é que uma mãe sem condições financeiras não tem uma creche gratuita para poder trabalhar enquanto cria o seu filho? Isso faz com que as pessoas não tenham filhos. E, digo-te já, estás a criar um problema gravíssimo. Os meus pais tiveram 6 filhos por terem condições e são felicíssimos. Porque é que não dás também essa possibilidade a outras famílias que não tenham as mesmas condições que a minha, mas também querem ser felizes?

Neste momento estou a estudar Direito e, apesar de terem passado poucos meses desde que comecei, aprendi muitas coisas. Uma delas, e que é comum a muitos autores que eu estudei como Thomas More, Marsílio de Pádua ou São Tomás de Aquino, é que o principal intuito do estado deve ser o bem viver das pessoas. Será que é isso que estás a fazer? Será que me estás a dar a melhor vida possível?

Será que estás a dar o exemplo do que é uma Democracia quando quem governou durante 4 anos nem sequer ganhou as eleições? Que país é este que se diz democrático, mas que não faz a vontade ao povo? Que país é este que ao ver a sua defesa ameaçada e roubada, como aconteceu em Tancos, não sabe punir e responsabilizar os intervenientes? Que país é este que perante quase metade da percentagem de abstenção, resultante de uma colossal indiferença do seu povo perante a vida política, fica de braços cruzados a lamentar-se, sem quaisquer medidas concretas para o resolver?

Encoraja as pessoas a votar. Faz-lhes acreditar que conseguem melhorar a sua vida. Estás aborrecido, Portugal. Hoje em dia não há discussões políticas saudáveis. Não há trocas de ideias interessantes, nem argumentos válidos. As pessoas que mandam estão há mais anos no poder do que eu na vida. Temos um sistema político ultrapassado e as pessoas estão fartas. Como é que não percebes isso, Portugal? Como é que não percebes que precisamos de caras novas e lufadas de ar fresco para todos aqueles que já desistiram de ti? Desde as pessoas da minha idade que só querem ir para fora porque “Portugal não me valoriza”, até aos idosos que vivem sem ânimo e são totalmente comprados pelos demagogos que lhe oferecem promessas de pensões maiores em troca de votos.

Que país és tu que não garante, de modo algum, a segurança dos seus cidadãos? Que deixa que vidas de trabalho sejam desperdiçadas por pura incompetência, como aconteceu em Pedrogão? Um país que está mais preocupado em descobrir de quem é a culpa do que a resolver os problemas causados. Porque é que tiveram que morrer pessoas para perceberes que a prevenção de incêndios é um tema fulcral da nossa sociedade, Portugal? Por que é que és um país que não torna o trabalho dos milhares de bombeiros voluntários mais fácil e só o complicas por incompetência do estado?

E por falar em trabalhos difíceis. Como é que é possível que o trabalho dos polícias não seja valorizado como devia? Por quê, Portugal? Não são eles afinal que controlam a ordem pública e que protegem os cidadãos? Será que não é um trabalho suficientemente digno?

Posso ter 17 anos, mas sei perfeitamente que não estás bem. Mesmo que me tentem convencer com manipulação de números. Mesmo que me ofereçam, de forma demagoga, passes sociais porque mais tarde ou mais cedo vou ter de os pagar, eu percebo que não estás bem. Daqui a cinco anos devo entrar no mercado de trabalho e tenho de me fazer à vida. Gostava muito que me ajudasses a ajudar-te. A mim e à minha geração. Nós, portugueses, somos melhores do que tu achas. Não nos subestimes, ajuda-nos.
Título e Texto: Manuel Bourbon Ribeiro, Observador, 3-11-2019

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