domingo, 2 de fevereiro de 2020

Racismo, dizem eles e os “efetivamente” concordam

Passos Coelho foi o “africanista de Massamá”. Também tivemos o “escurinho do FMI” e a “África é dos africanos”. Foi isto racismo? Perguntem aos “efetivamente”.

Helena Matos

Esta semana os “efetivamente”, essa gente que só entra nas polêmicas com um livre trânsito passado pelo progressismo, mal podiam sair de casa com tanta explicação: era o problema de André Ventura ter escrito “Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem”, a que se juntava o problema da devoluçãodo patrimônio dos nossos museus e arquivos (será que se pode dizer nossos?), sem esquecer a questão que os vai atormentar nas próximas semanas: como tomar posição contra a eutanásia sem correr o risco de ser considerado reacionário?


Agora não há dia em que os “efetivamente” não sintam necessidade de mostrar a sua repulsa por André Ventura, mas daqui por umas semanas para aí andarão frenéticos a demarcar-se do bode expiatório então de turno até porque, como é mais que certo, a propósito da eutanásia, alguém, entre os que se lhe opõem, escreverá ou dirá algo de menos cauteloso ou menos certo. E de imediato, não o duvido, logo começará o ciclo do “não, antes pelo contrário”, “de modo algum”… e será quase com alívio que, antes que fevereiro acabe, a eutanásia será aprovada porque assim, pelo menos por uns tempos, não se terá de tomar partido, e os “efetivamente” terão algum sossego.

Habituada que estou ao exercício diário desta penitência, confesso que às vezes ainda há situações que pelo seu absurdo me surpreendem. Por exemplo, como entender, o clima de “eu condeno mais e melhor que tu” criado em torno das declarações de André Ventura sobre a deputada Joacine, quando em Portugal temos aproximadamente um milhão de pessoas referidas prosaicamente como retornados? O que é um retornado senão um devolvido ao seu país mesmo que, como acontecia no caso, muitos nunca tivessem vindo ao país para que os mandavam retornar?

Ora os mesmos que em 1974 acharam que a “devolução” de um milhão de pessoas era tão natural, inevitável e justa que até lhes chamaram retornados, impedindo que fossem designadas como refugiados, pretendem agora que é um crime de racismo André Ventura ter escrito a propósito da proposta da devolução do patrimônio das ex-colônias portuguesas feita pelo Livre, “Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem. Seria muito mais tranquilo para todos… inclusivamente para o seu partido! Mas sobretudo para Portugal!” Se pesquisarmos nos debates parlamentares constataremos que a frase não tem nada que a destaque de tantas outras trocadas entre deputados, e nem sequer estou a incluir nesta lista os debates entre Sousa Tavares e Jerónimo de Sousa!

Todo este folclore só é possível porque, com a pressa de obterem o salvo-conduto diário, os “efetivamente” são os primeiros e os mais veementes participantes das ondas de indignação lançadas pelos ativistas de turno. Não interessa que as novas causas sejam contraditórias entre si e com as causas anteriores e até que os respectivos ativistas digam uma coisa e façam o seu contrário: a esquerda que agora vislumbra racismo em todas as palavras proferidas à direita do PS, trauteou e trauteia uma canção de intervenção intitulada “Independência” que afirma nada mais nada menos que isto: “África é dos africanos/ Já chega quinhentos anos/ Já chega quinhentos anos/ A África é dos africanos” e os socialistas trataram Passos Coelho como “africanista de Massamá”. Também tivemos o “escurinho do FMI” na versão de Arménio Carlos, Alberto João Jardim “Bokassa” no retrato que dele fez Jaime Gama, os brasileiros que deviam regressar ao Brasil porque tinham votado em Bolsonaro…

Nada nestas polêmicas tem de ter a mínima substância. O que conta é o seu potencial de agitação. Por exemplo, a intenção de devolver o patrimônio às ex-colônias além da constrangedora pergunta – onde estão em Angola, Moçambique ou Guiné, os grandes museus dedicados a preservar o património dos seus povos? Não vão dizer que estão por construir à espera das poucas centenas de peças que estão em Lisboa, pois não? – traduz-se em quê exatamente?

Portugal devolve o quê a Cabo Verde que nem sequer era povoado? E o Brasil devolve o que a corte para lá levou na fuga da família real ou fica por conta dos diamantes que vieram para Lisboa?

De caminho, a França devolve o que nos pilhou durante as invasões ou só se fazem devoluções para África? Recordo que aquando das invasões, os franceses chegaram a Portugal com cientistas e listas do que havia para levar e de facto levaram – a  alternativa a essa seleção era o saque casa a casa como aconteceu em Évora entre 29 e 30 de Julho de 1808 – Mas como várias das peças que os franceses levaram de Portugal e agora exibem nos seus museus tinham sido recolhidas nas colônias portuguesas, a devolução será feita diretamente a essas colônias ou a Portugal?

 E se for feita às antigas colônias, os destinatários desses objetos serão os museus (esses produtos do colonialismo!) ou os descendentes das tribos onde vários desses artefatos foram produzidos?

Convém lembrar que a questão das devoluções não é apenas um assunto entre estados, pois muitas destas devoluções colocam frente a frente os direitos dos povos nativos contra os direitos dos estados em que vivem…

E por fim, mas não menos importante, o patrimônio que os retornados deixaram em África vai ser-lhes pago ou devolvido?… Nada disto faz sentido. Mas esta insanidade hiperativa veio para ficar e durar porque aqui serve os propósitos políticos dos donos da situação e em África limpa a imagem dos cleptocratas que por ali governam.

Gostava de escrever que dentro de alguns anos, todo este circo estará desativado e a deputada Joacine, segundo ela mesma escolhida por ser negra e gaga, vai ser olhada com a ironia agora reservada ao deputado da UDP na Constituinte, Américo Duarte, escolhido por ser operário. Mas não arrisco tal cenário porque aquilo que temos pela frente neste momento não é a rejeição de um modelo de sociedade, como aconteceu no Portugal de 1975 em que Américo Duarte pretendia levar os fascistas para o Campo Pequeno.

Aquilo que agora está em causa não é uma revolução, mas sim o esboroar da sociedade em que vivemos. O corroer dos seus valores. A luta de classes como motor da revolução deu lugar à luta de raças/minorias/etnias/grupos como motor da destruição. A utopia trágica da sociedade sem classes deu lugar ao pragmatismo decadente da sociedade tribalizada. E daí a minha impaciência com os “efetivamente”: num processo revolucionário o confronto acaba por ser violento pelo que os “efetivamente” acabam a ter de fazer escolhas ou assistem aos outros fazendo-as por si.

Já num processo de esboroamento como aquele que vivemos os “efetivamente” podem acabar a jogar um papel decisivo. E negativo. Porque de cada vez que acham que a questão não é a verdadeira questão ou que sendo a verdadeira questão não devia ser colocada daquele modo ou que devendo ser colocada daquele modo não o foi no momento adequado… acabam a dar o poder aos que efetivamente reconhecem como os donos da situação: os que há décadas nos impedem de viver em paz e sossego numa das sociedades mais justas e tolerantes que a civilização criou, os estados democráticos do Ocidente. Estes venceram o comunismo, mas receio que sejam derrotados pela tribalização.

PS. “António Costa alertou que a descida do IVA da luz para 6% representa 800 milhões de euros por ano, o que é insustentável financeiramente.” Provavelmente será. Mas em 2016 baixar o IVA na restauração foi sustentável ou apenas uma decisão populista cuja fatura estamos agora a pagar?
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 2-2-2020, 7h34

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