domingo, 17 de maio de 2020

[As danações de Carina] Algumas palavrinhas sobre a solidariedade

Se a chama que está dentro de ti se apagar, as almas que estão ao teu lado morrerão de frio”.
François Mauriac

Carina Bratt

Minhas caras amigas e leitoras, tenho observado, nestes tempos de pandemia, onde somos obrigadas a ficar em casa, trancadas, ou melhor, enjauladas como bichos, que a solidariedade deixou de existir. Simplesmente saiu de cena. Morreu, a coitada. Certamente vitimada pelo tal covid-19. Essas mortes viraram moda, se tornaram o assunto do momento; a coqueluche dos nossos telejornais; a desgraça infame das redes sociais.

Ilustração: Leandro
Em razão disso -, a solidariedade, que também pode e deve ser entendida como companheirismo -, perdeu o seu verdadeiro sentido. Não só ela, a magia dos tempos passados, dos idos de nossos avós. Penso, ao olhar em meu redor, que o fanatismo, a ganância, a ambição, a usura, a inveja, a desonestidade, fez dela a sua prisioneira. A verdadeira mutualidade dos meus tempos de menina, estendia as mãos sem pedir nada em troca, ajudava as pessoas; tinha sempre uma palavra de carinho; um gesto de amor; de compreensão.

Nos meus oito anos, a dependência recíproca trazia um respeito puro pelo adjacente, pelos moradores das residências ao longo do bairro -  um respeito envolvente, honesto, que não era avarento, e não se fazia mesquinho -, ao contrário, se agigantava por detrás da máscara (não a que hoje o Estado nos obriga a usar). Referencio àquele invólucro invisível (como o vento que sentimos esvoaçando nossos cabelos, levantando nossas roupas), legado por nossos pais, a partir do momento em que acordamos, de fato, para a vida, e passamos a nos conhecer como gente. Como ser humano.

Faço alusão, logicamente, àquele artifício que fugia de nossos rostos, sumia quando víamos alguém em maus lençóis, em situações difíceis, ou de risco iminente. Recordo que a desgranhenta criava pernas ligeiras, debandava à passos apressados, quando a gente se deparava com uma criança na rua, com um idoso na praça, com um habitador de rua, jogado na sarjeta implorando por um pedaço de pão, uma caneca de café, um resto de comida.

Minha mãe, por exemplo, me ensinou que não devíamos xingar o cachorro do vizinho, a menos que já tivéssemos atravessado a calçada onde ele estava deitado, de plantão, vigiando a entrada do quintal de seu dono. Mamãe sinalizava, com essas palavras, o que hoje entendemos como não cuspir para cima, para que nosso rosto não seja atingido. Seria, grosso modo, sujar no prato em que comemos. Acima de tudo, devemos ter em mente, seja em que circunstância for, há de prevalecer o senso prático da solidariedade.

Papai carregava em sua carteirinha de documentos, um papelzinho batido a máquina.  Na verdade, uma frase que levava e sempre que tinha uma chance, mencionava, como se fosse um mantra: “que a sua mão ajude o voo, mas que ela jamais se atreva a tomar o lugar das asas”. Ele não sabia quem a escrevera. Anos mais tarde, na biblioteca do grupo escolar, cursando o ginásio, descobri que essa preciosidade fora dita por D. Helder Câmara, na época arcebispo da igreja católica.

Nosso dever, enquanto o sopro da vida, o benfazejo da existência dada por Deus estiver nos alimentando, é ser útil, não de acordo com nossos desejos, mas de consonância com as nossas forças. Hoje em dia, encerrados e protegidos pelas paredes de nosso lar, temos a convicção plena de que muitas pessoas estão dispostas a meter o nariz, a dar palpites, a querer saber tudo, notadamente onde não são chamadas. Certas criaturas adoram enfiar as suas colheres sujas de pensamentos impróprios em nossas panelas, contudo, poucas se mostram dispostas a ajudar a preparar as refeições. 

W.H. Auden poeta e dramaturgo inglês, falecido em 1973, ensinava que “nós, aqui na Terra devemos ser bons para os demais. Bons já, sem mais delongas. E os outros? Os outros porque estão aqui, não sabemos”. A solidariedade, minhas caras amigas e leitoras, deve funcionar para nós, como uma gota de água no oceano imenso. Sem ela, o mar incomensurável que nos contempla, será sempre menor. A solidariedade, ou a compaixão, ou, ainda, o condoimento tem as suas raízes em nossa casa, em nosso canto de paz. Onde nascemos.

Todavia, se pensarmos como o escritor Thomas Fuller, ela não deveria ficar restrita somente ao nosso pequeno espaço de confinamento, tampouco terminar lá, mas “se expandir além dos horizontes” crescer, se desdobrar fora das cercanias que se abrem frente às nossas portas e janelas. A solidariedade não é uma via de mão única. É mais que isto. Ao nosso bem estar com o Altíssimo, em nossa comunhão com o Eterno, se transformou numa estrada sem fim, uma diretriz, um norte que nos conduz diretamente ao coração de quem precisa de um aconchego, de um auxílio, de um agasalho, enfim; DE UMA ACOLHIDA E SOCORRO.
Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo. 17-5-2020

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