sexta-feira, 5 de junho de 2020

A esquerda não conseguiu juntar-se num manifesto só contra Bolsonaro

O trem da democracia à brasileira não tem lugar para Sergio Moro, mas abriga num vagão da primeira classe comunistas, farsantes e larápios

Augusto Nunes

A esquerda brasileira não se une nem na cadeia”, ensinava uma das frases repetidas com a mesma convicção, nos idos de 1968, tanto por inimigos quanto por partidários da ditadura militar. Não aceitavam sequer dividir o mesmo beliche de cela os militantes do Partido Comunista Brasileiro, do Partido Comunista do Brasil, da Ação Popular, do PTB brizolista e de outras tribos que haviam sobrevivido à derrocada ocorrida quatro anos antes. A coisa piorou quando a população carcerária passou a incorporar guerrilheiros engajados em siglas que só tinham em comum o sonho de derrubar a bala o inferno capitalista para substituí-lo pelo paraíso comunista. Os combatentes da ALN, do VPR, da Colina, da VAR-Palmares, do Molipo — e de tantos outros grupos armados sem densidade populacional para eleger um vereador de vilarejo — preferiam morrer de fome a compartilhar um último prato de comida. As diferenças que escavavam esses abismos eram assunto para os líderes, que ao recuperarem o direito de ir e vir prosseguiam a guerra disputando a supremacia nas ruas com mensagens em código aos manifestantes desinformados.

Tais mensagens nunca foram decifradas pela “massa de manobra”, expressão usada pelo alto-comando para referir-se à multidão de jovens anônimos, ingênuos, generosos. Todos repetíamos palavras de ordem que vinham em ondas desde a vanguarda da passeata, ditadas por vozes a serviço das facções em luta. Até que o AI-5 pulverizasse os sonhos que na Passeata dos Cem Mil — que nunca foram 100.000 — pareceram ao alcance da mão, a massa de manobra comunicou aos berros que o único instrumento para a derrubada da ditadura seria “o povo organizado”, “o povo unido” e “o povo nas ruas”. Só alguns anos mais tarde entendi que na mesma passeata, com igual entusiasmo, eu havia apoiado alternadamente os caminhos traçados por simpáticos fiéis do velho Partidão, por zangados devotos da linha chinesa e por carrancas decididas a trocar a urna pela troca de chumbo. Os soldados rasos lutávamos pela liberdade. Os comandantes planejavam suprimi-la. O rebanho sonhava com a ressurreição da democracia. Os pastores queriam a ditadura do proletariado. A confederação dos caciques queria chegar ao mesmo pântano, mas por estradas distintas.

No faroeste à brasileira, um magistrado que condena Lula é fascista

Havia naquele Brasil um inimigo comum. As manifestações eram frequentemente de bom tamanho e a soldadesca com o uniforme de revolucionário em gestação — calça jeans desbotada, blusão de marinheiro e sapatos rústicos — costumava chegar a algum inimigo em duas horas de conversa no botequim. As pedras no caminho eram a vaidade arrogante e a intolerância da oficialidade. Se não conseguiam localizar meia dúzia de objetivos comuns, como conseguiriam atrair brasileiros distantes das universidades e dos apartamentos enfumaçados onde comandantes recém-saídos da adolescência desenhavam os destinos do Brasil e do mundo? A esquerda estrábica jamais se dispôs a examinar o portentoso acervo de equívocos que cometeu durante o regime militar e continuaria a cometer depois de agrupada no Partido dos Trabalhadores. O PT no poder se transformou numa seita que tinha em Lula o seu único deus. Tinha e tem. Deus e Dono, reiterou o ex-presidente presidiário neste crepúsculo de outono ao ser surpreendido pelo cortejo de manifestos produzidos por inimigos do presidente Jair Bolsonaro.

A ideia original era juntar numa frente ampla os que hostilizam o Grande Satã do momento, todos disfarçados de defensores da democracia inconformados com o avanço do autoritarismo. Mas no Brasil o passado não passa. E a esquerda mostrou que quem não se unia na cadeia agora não consegue juntar-se nem mesmo num manifesto só contra Bolsonaro. Por enquanto já são cinco, paridos por cinco grupos. O mais vistoso é o “Estamos Juntos”, que reúne ex-presidentes da República, celebridades da TV, jornalistas, intelectuais, artistas e políticos de diferentes colorações.

Os fundadores do clube pretendem reunir todos os que apoiam a democracia, mas até uma definição tão abrangente e espaçosa tem limites. Um dos motores do grupo demarcou a fronteira em entrevista ao Estadão:  “Entrarão todos, menos os fascistas. Moro, fora. É o limite”. Na liderança da Operação Lava Jato, o juiz federal Sergio Moro ajudou a desbaratar o maior esquema corrupto de todos os tempos e, também, a mostrar que todos são iguais perante a lei, como determina a Constituição, e a recuperar bilhões de reais embolsados pelos quadrilheiros que saquearam a Petrobras. Teve confiscada a carteirinha de democrata porque também foi ministro da Justiça de Bolsonaro. No faroeste à brasileira, um magistrado que condena Lula é fascista. E o bandido engaiolado por corrupção vira preso político.

Fabricantes de manifestos e jornalistas com missão a cumprir continuam sonhando com uma segunda edição das Diretas-Já

O “Somos Democracia” reúne integrantes das torcidas organizadas do futebol paulista. No mundo em que vivem, não há lugar para torcedores rivais quando o mandante do jogo é o clube que amam, quem aparece pela proa vestindo camisetas de outras cores vira candidato a linchamento e, antes e depois da disputa no gramado, a paixão pelo time que veneram é demonstrada com tiro, porrada e bomba. Tanto quanto hooligans ingleses e barras bravas argentinos, muitos fariam bonito como carcereiros de campo de concentração ou policiais da Itália fascista.

O apreço que têm pelo convívio dos contrários os transforma em clientes potenciais de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB e um dos inspiradores do “Basta”, que aglutina operadores do Direito.

Fecham a fila o “#Somos 70 PorCento” e o “Direitos Já”, que tornou parceiros o presidente da Câmara dos Deputados e o governador do Maranhão. Rodrigo Maia é filiado ao DEM, Flávio Dino continua no PCdoB. A democracia de manifesto não tem lugar para Sergio Moro, mas reserva a um comunista sem cura uma poltrona no vagão da primeira classe.

Comício da Campanha Diretas Já no Largo da Prefeitura de Porto Alegre (1984)
Folha de S.Paulo já começava a enxergar na enxurrada de assinaturas o início da reprise da campanha das Diretas-Já, ocorrida entre março de 1983 e abril de 1984, quando Lula resolveu mostrar quem manda no partido que virou bando. Numa gravação em vídeo, ordenou a Gleisi Hoffmann que botasse ordem no templo das vestais reduzido a casa de repouso de ex-presidiários. “Não tenho mais idade para ser maria vai com as outras”, disse o mestre a seus discípulos. Depois de revelar que recusara o convite para abrilhantar o desfile do “Estamos juntos”, em que Fernando Haddad aparece na comissão de frente, explicou que alguém com o seu prontuário tem o direito de escolher companhias. “Eu, sinceramente, não tenho condições de assinar determinados documentos com determinadas pessoas”, confessou. Quem conhece a figura não se surpreendeu. Descontados os comícios das Diretas-Já, quando teve de dividir o palco com políticos de maior estatura, ele nunca abriu mão do papel de protagonista rodeado por coadjuvantes sem luz própria e figurantes bisonhos. Expulsou do partido os súditos que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, obrigou a bancada a rejeitar a Constituição de 1988, fez o diabo para impedir a aprovação do Plano Real e, acampado no Planalto, fez o que fez.

Fabricantes de manifestos e jornalistas com missão a cumprir continuam sonhando com uma segunda edição das Diretas-Já. Alguma alma piedosa precisa lembrar-lhes que hoje há bandos de arruaceiros nas ruas onde multidões de democratas genuínos exigiram a devolução do direito de eleger o presidente. Que povo não rima com blackbloc nem com antifa. Que homens honrados não dividem palanques com vigaristas juramentados. Se nenhum desses lembretes fizer efeito, que tal refrescar a memória da turma? Talvez valha a pena lembrar que a campanha das Diretas-Já foi um dos mais belos movimentos cívicos do Brasil republicano. Mas a emenda constitucional que restabelecia a escolha nas urnas do presidente da República não conseguiu ser aprovada no Congresso.
Título e Texto: Augusto Nunes, revista Oeste, 5-6-2020, 11h02

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