sexta-feira, 5 de junho de 2020

Combater o racismo é luta civilizacional

Os que agem movidos por ressentimento e desejo de vingança corrompem a luta legítima

Bruno Garschagen


O racismo é abjeto, infame. Numa perspectiva social, é pensamento e ato intoleráveis numa sociedade civilizada. No âmbito político, trata-se de um tipo de coletivismo que projeta numa pessoa de pele preta um conjunto de vicissitudes. É triste que ainda haja quem assim pense, quem assim aja.

Não acredito que alguém nasça racista. É, desgraçadamente, questão de aprendizado, de treinamento social, que muitas vezes começa em casa. São comentários explícitos ou velados no seio familiar e nos meios sociais que moldam uma perspectiva restrita a respeito da identidade de uma parcela numerosa da sociedade tão somente em função da cor da pele.

Se, no passado, a ciência foi usada para legitimar teses racistas, que vinculavam determinados comportamentos e tendências à cor da pele, a características físicas (antropologia criminal de Cesare Lombroso), ao pertencimento a um povo (judeu), à origem geográfica (o sertanejo segundo Euclides da Cunha), algo dessas falsas teorias ficou no imaginário popular e foi sendo passado de geração em geração. Alguns se perderam na história, outros permaneceram para nos envergonhar.

Quando menciono o problema da perspectiva restrita a respeito de uma identidade coletiva em função da cor da pele, tenho em mente o seguinte: se alguém é treinado para ser racista, os exemplos que terá em mente serão os piores possíveis.

É perturbador quando a luta legítima e necessária contra o racismo é usurpada por ideólogos de esquerda

Todas as vezes que ressurge a discussão sobre o racismo contra pessoas de pele preta só me vêm à mente todos os que admiro. E daí me pergunto: como alguém pode ser racista, como pode alimentar um racismo abstrato e coletivista, diante de alguém que não conhece ou perante nomes célebres como Machado de Assis, Antônio Pereira Rebouças e seus filhos André e Antônio, Luís Gama, Lima Barreto, Castro Alves, Pixinguinha, Errol Garner, Miles Davis, Cassius Clay, Ruth de Souza, Sammy Davis Jr., Bill Cosby, Billie Holiday, Diana Sands, Viola Davis, Michael Jordan?

Eles e tantos outros gênios são dignos de admiração por aquilo que eram, fizeram, deixaram como legado não pela cor da pele, elemento secundário e irrelevante. Se o sucesso que conquistaram puder ser usado para combater o racismo, melhor escolha não há: o exemplo é força poderosa de persuasão e incentivo para crianças, jovens, adultos.

Por isso é perturbador quando a luta legítima e necessária contra o racismo é usurpada por ideólogos e militantes de esquerda, por seus fantoches e inocentes úteis, em várias partes do mundo. E é ainda mais chocante quando essa mesma batalha civilizada é usada de maneira abjeta para cometer ou defender a violência.

Como justificar a destruição de patrimônio privado, de lojas, de propriedade de pessoas de pele preta ou de locais nos quais elas trabalham? Nesse período de pandemia, quando a economia está combalida, atacar o comércio é atacar o trabalho também dos indivíduos de pele preta que lá trabalham, como mostram os vários lamentos gravados em vídeos que têm circulado nas redes sociais.

E a forma como as manifestações explodiram mundo afora, com características e ações similares, incluindo a aparente contraposição entre manifestação pacífica versus manifestação violenta (uma versão singular do good cop/bad cop), só induz à impressão de que existe uma articulação internacional que se aproveita de tantos que vão para as ruas achando que participam de atos espontâneos.

O objetivo supremo da esquerda era claro: converter o mundo acadêmico em instrumento de formação de militantes

O uso imoderado de palavras-chave como lugar de falagenocídio negroracismo estruturalestruturas de poderdívida históricaexclusão não deixa dúvida quanto à natureza ideológica do discurso de parte dos manifestantes e da opinião de especialistas. Há nisso uma influência marxista aplicada à cor da pele (em vez da luta de classes, a luta de raças) que prevalece sobre o tema fundamental: o racismo, que existe, que tem de ser combatido, mas que jamais será minimizado e superado por uma ideologia de conflito, de revolução permanente, de ressentimento, de destruição. O embate como estratégia impede a aliança e a ajuda mútua para neutralizar o mal. E foi precisamente esse pensamento revolucionário que orientou (e orienta) o discurso, a ação e a violência de grupos que convertem uma luta positiva em negativa.

A partir da década de 1960, um movimento que começou nas ruas percebeu que o mundo acadêmico era uma oportunidade de ouro para fazer a cabeça dos jovens, conquistar respeitabilidade teórica e formar um exército intelectual. Deu certo.

Desde então, as universidades norte-americanas começaram a sofrer um ataque ideológico vil, mas seus representantes acovardaram-se, deixaram-se acuar e permitiram que as instituições fossem profundamente modificadas — e não para melhor —, pois não se tratava apenas de agregar novas disciplinas, mas de extinguir todas aquelas vistas como eurocêntricas e representantes de “uma visão branca”.

O objetivo supremo da militância de esquerda, que também já se aliava a alguns movimentos negros, era claro: converter o mundo acadêmico em instrumento de formação de militantes políticos, em centros de afrocentrismo e de engenharia social, como mostram, por exemplo, Allan Bloom em seu The Closing of the American Mind, Roger Kimball em Radicais nas Universidades e Jonah Goldberg em Fascismo de Esquerda.

Paulo Freire defendeu a doutrinação ideológica nas escolas, a politização do ensino e o fim do capitalismo

Mesmo as principais universidades dos Estados Unidos foram aparelhadas e nada indica, hoje, que o processo possa ser revertido. Na terça passada, por exemplo, a Harvard Political Review aproveitou as manifestações no país para enviar aos assinantes de sua newsletter um artigo publicado no site no fim de maio (“Remaking Ethnic Studies”) em que celebrava seu departamento de estudos étnicos e lamentava não haver em maior número. O texto, escrito por Swathi Kella, estudante da Universidade Harvard, confirma o problema profundo descrito por Bloom, Kimball e Goldberg.

No início do artigo, Swathi diz que a disciplina de estudos étnicos nasceu a partir da “crescente consciência racial que definiu a década de 1960”. Logo em seguida, ela cita o pedagogo socialista Paulo Freire como autor de “um trabalho inovador chamado Pedagogia do Oprimido”, no qual ele responsabilizava “as instituições educacionais tradicionais de doutrinar os alunos nas salas de aula com base em hierarquias de poder”. Logo Freire, que, em livros como Pedagogia da Autonomia, defendeu a doutrinação ideológica nas escolas, a politização do ensino, o fim do capitalismo, enfim, parte da cartilha defendida em disciplinas como a de estudos étnicos e por professores e estudantes como a autora do texto.

O que vem acontecendo há décadas nas instituições de ensino superior do Ocidente é o contrário da ideia e missão da universidade defendidas por intelectuais do calibre do Cardeal Newmann, Otto Maria Carpeaux, Michael Oakeshott, Kenneth Minogue. E não é só na alteração dos currículos. Pesquise no YouTube e você encontrará vídeos em várias partes do mundo de alunos invadindo salas e eventos dentro de universidades para impedir aulas e palestras, para intimidar e travar o debate.

As manifestações pela morte de George Floyd não podem ser reduzidas aos atos de violência, mas devem ser tratadas de acordo com a natureza ideológica evidente dentro da qual a violência é instrumental, não acidental. É em nome dessa ideologia que muitos agem, outros seguem e tantos justificam com frases do tipo “discordo da violência, mas…”. Os que agem movidos por ressentimento e desejo de vingança, os que veem na destruição e no roubo uma catarse momentânea para suas frustrações corrompem a luta legítima dos que denunciam o racismo e destroem as pontes com todos aqueles que devem ser aliados.

Trata-se de uma escolha ética: uma passeata pacífica chama atenção para o combate ao racismo e angaria apoio para medidas concretas e corretas; manifestação violenta provoca reação social e conduz à perda da legitimidade política. Além disso, políticas públicas que podem ter efeito positivo e ajudar na resolução do problema social que também afeta os pretos (mas não só, considerando que a maioria dos pobres é formada por pardos) são apenas parte de um conjunto de soluções, não o pagamento de uma dívida histórica.

Se não existir um esforço comum para combater o racismo e a violência policial contra pessoas de pele preta e se, por outro lado, forem mantidas a retórica do confronto e as agressões, haverá muitos dispostos a reagir simetricamente.

Jamais percamos de vista a verdade fundamental: o combate ao racismo não é — nem deve ser — uma luta ideológica: é — e deve ser — uma luta civilizacional.




Título e Texto: Bruno Garschagen, revista Oeste, 5-6-2020, 11h02
Bruno Garschagen é cientista políticomestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

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5 comentários:

  1. Fico pasmo quando leio certos artigos de articulistas de extrema direita, tanto quanto, aos de esquerda.
    Primeiro, não se aceitam como radicais , querem passar por pessoas com o equilíbrio e distanciamento.
    Mas bastam algumas linhas e desnudam o monstro que trazem dentro de si ,sendo por estes atropelados,fricando patente3 as verdadeiras faces.
    Quando se metem a falar de política tornam -se intransigentes,e com mentalidade tacanha!
    Fazem de seus argumentos, teses conspiratórias, num festival de baboseiras.
    Os da direita, agora “disparam” nos movimentos dos Estados Unidos , gritam a plenos pulmões , que suspeitam que o mote para tudo que está ocorrendo, não seja o assassinato de George Floyd.
    E que oportunistas aproveitam-se da ocasião para trazer suas próprias pautas , como o descontamento com o governo Trump.
    É Obvio né ,seus sacripantas!
    Como um cidadão ,negro,com problemas de comportamento, sem ter em seu curriculo nada que o identifique com
    a defesa dos direitos dos negros em lutas anteriores ,e sem nenhuma projeção nacional causaria tanto
    Impacto ,movimentando milhões, principalmente junto aos brancos americanos?
    Era a oportunidade que a população precisava para detonar sua insatisfação.!
    Descontentamento este , que com o advento do coronavirus ,estava sufocado
    Buscando desafia, aqueles , que acreditam deveriam ,no mínimo, ter um comportamento diferente na crise.
    O governo Trump, assim como o governo Bolsonaro, não tem culpa da crise do Covid, é óbvio!
    Mas por terem ficado de mão atadas ,sem saber o que fazer neste momento, e como chefes de nação ,são a eles direcionados às queixas e as responsabilidades.
    Nada mais natural! Assim foi com todos os governos que os antecederam, em momentos de crise.
    Porque haveria de ser diferente agora?
    É da responsabilidade do governante da hora, apresentar soluções ,mesmo que encontre oposição ferrenha, é a sua responsabilidade ,aceita ao ser eleito.
    Responsabilidades das quais não podem se omitir,nem tergiversar, menos ainda usar de evasivas ou subterfúgios; procurar rodeios.
    Num momento em que os povos são atormentados por uma praga sem comparação no século, direita e esquerda acharam para fazer política da pior espécie, buscando no outro a culpa de todos os males do mundo ,justamente num momento em que nenhum lado pode apresentar soluções.
    Eu, não saberia dizer qual é a pior !
    Se a direita extrema ou a extrema esquerda!
    Pragas pustulentas ,repulsivas e danosas ao povo.
    Ambas têm em seus corpos “sarnentos”,e discursos impudicos, o cheiro de manobras terroristas , nos textos e doutrinações que publicam nas mídias.
    Destilam o ódio , com argumentos extemporâneos, e com interesses espurios.
    Mas que não passam por uma análise social , sem que caiam por terra sua validade ,e sua decrepitude..
    Nada mais arrogante, que um terrorista de direita ou de esquerda ,quando faz uso da palavra para contrapor um ao outro,e influenciar os mais simples.
    É exatamente o que pretendem ,os que saem a rua -seja com que nome for-mudando apenas os métodos.
    E é o comportamento de ilustres figuras da imprensa brasileira , disfarçados de jornalistas sérios ,não passam de terroristas da palavra. De ambos os lados!

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  2. Estou procurando na sua verdade quem atou as mãos do Presidente Bolsonaro?
    Sem blasfêmias eu sempre busco o contraponto....

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  3. Todos sabemos...
    No caso das mãos atadas de Bolsonaro , vc tem uma tese que eu assinaria.
    Nenhum presidente manda nada!
    Presidente no Brasil não é eleito para mandar , quando tiver talento ,consegue apenas administrar.
    No caso do Bolsonaro , sua personalidade foi fator agravante!
    Não tem talento,é emocionalmente descontrolado, e enganou-se com o cargo para o qual foi eleito.
    Eu já antecipava isso ,quando ele era candidato , mas o Adelio , carimbou seu passaporte .
    Ele pensa que presidente pode tudo , sua formação militar o induz ao autoritarismo, e chegou a Brasília de armas em punho, pronto para enfrentar tudo e todos.
    Não deu outra, ganhou vários adversários , que com tato poderia ter evitado.
    Mas tato em se tratando de bolsonaro...
    Bolsonaro -até prova em, contrário- não é ladrão , mas totalmente despreparado para ser presidente, num sistema em que o presidente não manda.
    Seria um bom ditador, se houvesse a hipótese de ditador ser bom para qualquer país!
    Já tivemos exemplos ,como Jânio,e Collor e os resultados todos conhecem!
    Agora ,parece, que se uniu ao centrão , poderia redirecionar ,em tempos sem coronavírus.
    Quando muito, conseguia administrar como Temer ,mesmo assim ...de forma capenga!
    Então baseado em leis obsoletas e distribuição de responsabilidades da constituição de 88 , que diga -se de passagem ,está precisando uns remendos, “deu de cara no muro”.

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    Respostas
    1. Minha definição de honestidade política.
      QUALQUER TIPO DE GOVERNO POLÍTICO É ÓTIMO SE HONESTO.
      Nós tripulantes sabemos o que é hierarquia, vários comandantes na Varig levaram tripulantes e passageiros à morte.
      Como pode um presidente sozinho faze-lo, se não pode ser comandante?
      Falando de hierarquia, dizem que temos três poderes isonômicos, eu diria que não.
      Um deles pode mais que o outro.
      Por isso digo que a nossa constituição é uma merda, ela foi instituída para um imperador.
      Lembra que falei que o primeiro governo francês foi um consulado?
      O nosso STF tem os 11 cônsules.
      Nesse caso, o congresso e o presidente tem que governar com eles, existe isonomia nenhuma.

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    2. Não basta ser honesto, embora imprescindível!
      Competência pesa quase tanto quanto!
      E um ego domado, para ser um líder democrático!

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