terça-feira, 20 de setembro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] O Moço loiro

Aparecido Raimundo de Souza

QUANDO AS REPRESENTANTES
do sexo frágil descobriram que o novo morador da cidade vivia sozinho naquele palacete enorme e às vezes passeava pelo quintal enrolado numa toalha e sem nada por baixo, foi um deus-nos-acuda. A confusão tomou proporções desordenadas e alarmantes ao flagrarem, certa manhã, o camarada estendendo as suas cuequinhas de lycra nas cordas do varal. As mulheres saltaram de dentro de suas respectivas casas como estilhaços provocados por uma bomba poderosa. Todas, sem exceção acorreram para as cercanias da residência do pecaminoso deus grego. Tinha gente dependurada em árvores olhando por cima dos muros —, mocinhas adolescentes e até velhinhas trepadas em escadas e capôs dos automóveis estacionados ao longo da rua principal:
— Vocês viram o tamanho daqueles “trocinhos” — disse uma loirinha oxigenada tida como a fofoqueira oficial. Será que dá para guardar todo o recheio que o seu dono ostenta?
— Olhando daqui —, obtemperou outra de olhar esgazeado, parecem menores que meus lencinhos de seda!...
— Imaginem — berrou Tereza recém enviuvada e em tom prosaico, enquanto chupava os dedos. — Fantasiem o varapau sem aqueles pedacinhos de pano expondo a alavanca de enfiar as marchas? Deve ser um sarro!
— Confesso me chega a dar calafrios voluptuosos nas entranhas...
— Meus Deus, estou toda suada — arfou uma ninfeta se abanando com um caderno!...

Como toda periferia suburbana, a pacata Santa Ifigênia não fugia às regras. Também parte da comunidade as irmãs puras e imaculadas. As falsas senhoras que se diziam “conservadoras”. A bem da verdade, elas haviam alcunhado as criaturas que espreitavam o formoso espécime com um apelido não muito católico. Um apodo que nada tinha a ver com os acontecimentos. O fato é que essas falsas beatas mordiam as unhas, se agitavam desordenadamente perplexas. Maria “Põe Dentro” a mais velha das “respeitosas”, achava esse negócio de bisbilhotar um gesto tremendamente indecente. Sofia “Come Duro”, dois anos mais nova que a sua consanguínea, comungava matraqueando o mesmo pensamento. No fundo, se mordia toda, querendo participar da comitiva das alcoviteiras:
— O que estão fazendo com o pobre mancebo é invasão de privacidade...

Envergonhadas, as puras de meia tigela desenhavam no rosto o sinal da cruz e rezavam o Credo. Enquanto isso, as sunguinhas balançando ao sabor do vento, se consubstanciavam na última novidade. Em todos os pontos de encontros dos fins de noite, se comentavam o fato em desenfreada profusão. Línguas ferinas propagavam que certos maridos estavam sendo passados para trás. Alguns, até, às escondidas, sentiam o roçar das pulgas incomodando as orelhas. No bar do “Chicão”, por exemplo, o maior estabelecimento da localidade, a rapaziada, depois que largava os turnos da suntuosa fábrica têxtil, se reunia para longas rodadas de cervejas e jogos de sinuca e totó. O pandemônio e a algazarra voavam à solta:

— Sabe, Betão. Esse negócio não está me cheirando bem.
O amigo Betão concordava plenamente:
— O espertalhão deve ser o maior garanhão da paróquia. Tenho a impressão, amigo Bordoada, que as nossas “lebres” estão fazendo a gente “pagar mico”.
— Será que alguns dos nossos companheiros tiveram a infelicidade de serem contemplados?
— Serem contemplados com o quê, Bordoada? Seja claro.
— Com um par de chifres, Betão. Que mais?

O Edu Lombriga, um mal-encarado, tapa-olho à moda pirata, parecendo, inclusive, um poste de luz metido a valente que só ele, ao ouvir o disse-disse de Betão e Bordoada, levantou sério da mesa onde bebia. Soltando fogo pelas ventas, vociferou:
— “Eu matu”. Se a minha Vanda estiver “abrido o parqui de diversãum ”, vira defunta fresca...
Um paraíba se juntou ao grupo engrossando o caldo:
— Meto a peixeira no bucho do safado. Ele deve ter se mandado da capital por motivos escusos. O que um ricaço viria fazer num fim de mundo como Santa Ifigênia? Se escondendo da polícia, logicamente...
Filistrico, o barman mais longevo da birosca do Chicão se achegou com a bandeja contendo novas bebidas e a insinuação profética na ponta da língua:
— Não quero meter o bedelho no assunto de vocês. Só esclarecer um pequeno detalhezinho...

— Em frente, Filistrico...
— Como farão para descobrir se o maldito está “bimbando” as fêmeas —, perdão, as nossas fêmeas aqui do pedaço?
Um silêncio torturante por momentos invadiu feio. Caiu pesado. Afinal, ninguém se dera ao luxo de parar e tentar sopesar em qualquer possibilidade de ataque. A maioria conscientizara que o estrangeiro se amoldara ao galã de primeira linha, se tornara o paquerador da hora e fim de papo. Chamava a atenção e coisa e tal. Sabiam, inclusive, da fama de “papador de anjos” que corria por toda a redondeza. Grosso modo, aquele bando de assalariados cheirando a desodorante vencido não dispunha de um programa definido para ser colocado em evidência e concluir até onde o ti, ti, ti tomara corpo e forma. De repente, porém, um dos frequentadores levantou o braço:
— Que tal fazermos um plantão?
— Como? Trabalho das sete da manhã às cinco da tarde. Impossível...
— Concordo com o companheiro. Eu entro no trampo as dezoito e chego em casa às cinco da matina. Não quero saber de nada a não ser uma boa e confortável cama...
— Eu, idem...
— Enquanto isso — contraveio o Lourival com a testa franzida — o espertinho ganha terreno e bota “pra efe”, sem vaselina e preservativo em nossas bundinhas.

— Precisamos descobrir se ele, enquanto estamos fora, fisgou e comeu algumas das nossas pérolas.
Eustáquio, do almoxarifado pulou da cadeira:
— A do papai aqui, eu sei que não...
Vinte cabeças, aproximadamente se voltaram para o “sem noção” que acabara de arrotar tais palavras:
— Como pode ter certeza, ô Zé Mané? Você é um dos que não cria limbo no esqueleto da patroa. Complicando mais, repare. Os “fundos” da sua mulher batem de frente com o quarto do garanhão...
O homem ricocheteou como impulsionado por molas:
— O que foi que disse, seu filho de uma égua?
— Que a sua cozinha dá para os aposentos do rapaz...
— Está insinuando...?
— Nada meu amigo. Não estou insinuando coisa alguma. Desculpe.
Um outro garçom do Chicão interveio apaziguando os ares agitados pelos vapores da raiva:
— Senhores, senhores, por obséquio. Mantenham a serenidade e o bom senso.
A agitação diminuiu. A verdade é que os fregueses do estabelecimento do Chicão (a maioria operários braçais) não contavam com um ponto de equilíbrio, e mais, não queriam passar, de forma alguma, pela figura popular do “corno manso”, e ainda por cima, assumindo o posto vergonhoso e os contratempos que vinham, de roldão.

Todos eram machões declarados e cantavam de galo. No fundo, porém, o medo, a insegurança e a própria humilhação natural do ser humano, no tocante a estar realmente sendo desonrado, minava as mentes mais contrabalanceadas e embrutecidas:
— Será que a Sandrinha está dando a minha carne de mijo?
— A Camila anda esquisitona! Ontem mesmo “dispensou uns carinho...”.
— Luana não me libera a caçapa nem por reza braba...
— Conheço um plano infalível — sacudiu o ambiente uma voz potente vinda da ampla porta de entrada.
Em resposta os presentes se voltaram para aquela direção. Deram com um grandalhão de uns sessenta anos, os olhos cansados e sem brilho embutidos num rosto carrancudo. Não outro, senão o chefe geral da segurança dos guardas e vigias da fábrica têxtil:
— Batráquio, você por aqui?
— Ia passando... resolvi “comer um trem e tomar uma pura”. Não pude deixar de ouvir o que discutiam. Senti o drama. Afinal, no fundo, a verdade é uma só: estamos todos aqui no mesmo barco, e pior, a ver navios. De mais a mais, não esqueçam: também tenho mulher e filha...
— Batráquio —, se adiantou um dos clientes do Chicão. Queremos acabar com o reinado do maldito “bom vivam”.

— Isso mesmo. Temos que mostrar ao safardana qual é o seu lugar...
— Escutem todos — prosseguiu o Batráquio adentrando, de vez. — Vamos agir como gente civilizada. Não podemos dar mole ao inimigo. Descobri, dias atrás, sem querer, um negócio importante. E creiam, amados, nessa descoberta, topei, sem querer, com o tendão de Aquiles do nosso amigo estranho. Há um ponto vulnerável nele...
A galera se fechou num círculo coeso ao redor do auspicioso chefe de segurança para saber qual a solução:
— É o seguinte...

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha no Espírito Santo, 20-9-2022

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